Era uma vez um outono…

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…nos encontramos num abraço rápido… um enlace calmo, um encaixe natural de dois corpos estranhos que não se orientam, apenas se atrevem pelos vãos uns dos outros.
Nos investigamos em pequenos impulsos contidos… e, assim nos perdemos em meio a premissas sem promessas — ‘nos vemos depois‘ — e deixamos sorrisos como migalhas
pelo chão… que nem sabia direito dos nossos passos.

Mas ele não se foi completamente… ficou em minha anatomia, preenchendo-me como ninguém antes ousou fazer.

E enquanto caminhava pelas ruas da cidade — indo de um lugar ao outro, sem destino ou mapas que me orientasse — cada novo ser, que se tropeçava em minha geografia… me devolvia a ele.

Era uma vez um encontro…um momento, um sorriso fatiado e dois olhares bem acesos a refletir realidades em estado de colisão. Era uma vez uma premissa-promessa, feita ainda em meus tempos de menina ‘um dia você vai encontrar alguém e saberá imediatamente que encontrou o seu outono’…

Ruas para andar…

 

ruas de moema

 

Tenho saído muito as ruas desde que me mudei para Moema — zona sul de São Paulo… onde as ruas e as pessoas te convidam para um exercício comum: caminhar — de uma esquina a outra.

As ruas são grandes retas… sem as conhecidas subidas e consequentemente descidas paulistanas — que reinventam distâncias, cenários.

Aqui os cenários repetem as vilas que trago na memória… vira-se uma esquina e uma sorveteria acena com seus sabores conhecidos: fragolone, dulce de leche, stracciatella. As cadeiras — dispostas ao ar livre, com seus ombrelones imensos — acenam e você cede… e os diálogos  avançam  tarde a dentro…

Há um sem fim de vitrines coloridas… com suas roupas de grife, frascos de perfumes e o cão é bem-vindo em quase todos os lugares. Ele gosta e agradece com gestos em pares. Aceita o petisco, a água, o carinho e se esparrama pelos lugares que o recebe.

As casas, no entanto, são poucas… as que sobreviveram aos investimentos imobiliários exibem placas de ‘aluga-se e vende-se’ como se o bairro estivesse sendo descartado por sua gente. Os moradores mais antigos contam a história do lugar que teve seu córrego de águas ferozes… o percurso foi soterrado, mas dizem as lendas do lugar que, em dias de chuvas de verão… ele se reinventa contra a vontade dos humanos.

“aqui já foi um bairro de casas” — foi o que me disse uma senhora, que me aconselhou a avançar até a ‘praça dos cachorros’ com o meu menino de quatro patas. Ela suspirou as mudanças acompanhadas de perto ‘sou tão veglia quanto essa árvore’ — disse, apontando para uma frondosa árvore prestes a derramar sua primavera…

Hoje o bairro pertence ao comércio e seus prédios altos… que são constantemente ‘atropelados’ pelos aviões que cruzam os céus — em movimento de pouso ou decolagem. Depois de alguns meses por aqui… o barulho se aquieta e você nem se lembra mais dos “vôos artificiais”. Só dou  por eles quando os aviões se mostram aos seus olhos num desses passeios diários…

Numa dessas simpáticas esquinas descobrimos um Café… aquele com seu nome estrangeiro, sua sereia de duas caldas e o bom e velho aroma de sempre. Mais um punhado de horas escorre, só não sei dizer se para dentro ou para fora.

Vida de cão…

Em meados de novembro de dois mil e três — no começo do século — tínhamos uma casa, com um punhado de cômodos, quintal e jardim. Nos faltava apenas o essencial para uma casa ser de fato uma casa: um amigo de quatro patas.

Patrick era parte de uma ninhada de seis, que estava reunida ao redor da mãe. Marco já o tinha escolhido por lembrar seu velho amigo Barão… mas não disse nada, deixou acontecer o encontro. Cai de amores por todas aquelas bolinhas de pelo e, se pudesse, levaria todos comigo. A maioria, no entanto, já estava prometida a outros humanos… e o nosso futuro menino se impôs… ao primeiro contato grudou em mim.

Naquele instante ele ainda não tinha nome… era apenas um menino arteiro a correr de um lado para o outro, a saltar por cima dos irmãos. Enquanto os demais rosnavam e davam latidos curtos, ele apenas baixava a cabeça e espiava — como cobra que se prepara para o bote. Em um minuto mordiscou a ponta do cadarço do meu tênis, puxando-a com força — incansável. Uma peste.

O nome… ele herdou de uma pelúcia… o ‘outro cão da casa’, que ele adorava enfrentar, mesmo sendo maior que ele nos primeiros dias.

E lá se vão dez anos — mas parece que foi ontem que o peguei no colo. Ele era tão pequeno — um ‘pingo de gente’ — que cabia em minhas mãos: uma deliciosa bolinha de pelo, que não aceitou a solidão de sua cama… e só silenciou quando o coloquei entre nós. Descobrimos — na primeira noite — onde ele passaria o resto de sua vida.

Muita coisa mudou desde a sua chegada… deixamos o velho sobrado e fomos viver num velho casarão no Alto da Lapa e por fim nos mudamos para Moema — de longe o seu lugar favorito na cidade.

Ele adora os passeios pelas ruas até a praça. Nós dois descobrimos o lugar em caminhadas demoradas que terminam sempre no mesmo local: Starbucks da Lavandisca, onde ele ganha água-café-mini-muffins-e-carinhos dos amigos que faz.

Patrick é um boxer exigente… não gosta de qualquer humano. Primeiro se aproxima e cheira os pés, as pernas e se gosta abana o rabinho e se rende aos afagos — nunca na cabeça. Se não gosta, se afasta e repete o velho gesto de rebeldia: abaixa a cabeça e espia — feito cobra pronta para o bote. Não ataca, mas exibe uma indiferença tão imensa que reduz qualquer um a nada…
Nesse ano, nosso menino completa dez anos! Ele mais que dobrou de tamanho desde a sua chegada. Mas seu olhar e alegria continuam os mesmos. Dois minutos de ausência faz com que ele me recepcione como se tivesse passado exatos dez anos longe. Mas se a volta demora — como quando viajei a Coimbra — ele se zanga e finge me ignorar. Seu olhar atento o traí… basta alguns minutos de afagos, abraços, beijos que ele dispara veloz por todos os cantos, pulando e descendo do sofá — indo buscar seus brinquedos para uma farra de minutos.

Patrick — nessa década inteira na companhia um do outro — me ensinou a ser menos ‘humana’ e mais ‘canina’. A amar por amar somente, partilhar das presenças e sentir as ausências. E, principalmente, me ensinou que não importa o tempo… importa a vida.

colegas de faculdade,

“Algo em nós sempre ri,
sonha e fracassa”.

— Jacques Marie Émile Lacan —


Eu tinha quase vinte… ela vinte e seis. Eu era recém-chegada… e ela parecia estar lá desde sempre, a ocupar a mesma cadeira. Ela tinha olhos cor de caramelo… e os meus eram cor de café expresso. Sentava-se na primeira fileira de cadeiras… e eu mais ao fundo.

Não nos falamos nas primeiras vezes… apenas nos olhamos rapidamente — e confesso: foi como tropeçar…

Ela tinha marcas na pele: um dragão e uma meia lua em estado Minguante… eu tinha apenas uma cicatriz branca dos meus tempos de menina: joelho rasgado, sangue a escorrer, raiva a gritar junto aos punhos fechados… e pessoas a me segurar. Eu nunca fui alguém fácil de ser contida…

Eu ouvia Led Zepelim… ela Pearl Jam. Ela se vestia de preto… e eu de vermelho. Eu era febril… ela delirava! Não me lembro qual das duas falou primeiro. Me lembro apenas dos diálogos insanos que tecemos dentro das inúmeras tardes alaranjadas.

Ela não tinha em suas palavras uma só gota de realidade… e eu era justamente o contrário. Talvez por isso, tenha sido muito assustador, mas completamente saboroso…

Ela era uma menina-mulher-figura-estranha-complexa-doida-que-adorava-lacan… e eu ainda estava a descobrí-lo. E foi alucinante partilhar de sua paixão.

Ela cursou apenas o primeiro ano de psicologia… surtou e acabou internada. Não me deixaram vê-la.

As drogas que a fizeram dormir… roubaram toda a sua sanidade e capacidade de fazer de mim uma possível lembrança. Passei a ser apenas uma estranha e nada mais… alguém a quem agredir com gestos e palavras. Alguém a quem ignorar, acusar… alguém que vai embora e não deixa saudades. Alguém…

…a estranha que ficou com um caderno de notas onde ela escreveu a mesma palavra dúzia de vezes: “desire“… sinal de loucura? Para mim era prova irrefutável de in-sanidade. Eu quis ser ela. Provar da coragem que seus músculos vestiam… mas eu era apenas a menina que vestia um sorriso bobo-apagado-e-completamente-sem-graça nos lábios — sem muita disposição para pessoas… algo que sempre a fez sorrir.

Eu queria ser sozinha… viver no canto oposto às multidões. Ser silêncio… sem rastro. Uma sombra no chão que se apaga quando a noite acaba. Ela queria ser infinita, andar no meio da turba, fazer barulho — gritar cada vez mais alto até arrebentar os tímpanos alheios.

…e, mesmo assim ela veio ficar em mim, com seu sorriso imenso, seus gestos sempre indóceis, olhares imensos-gulosos… e ao dizer seu nome foi como ouvir um eco: Catarina