colegas de faculdade,

“Algo em nós sempre ri,
sonha e fracassa”.

— Jacques Marie Émile Lacan —


Eu tinha quase vinte… ela vinte e seis. Eu era recém-chegada… e ela parecia estar lá desde sempre, a ocupar a mesma cadeira. Ela tinha olhos cor de caramelo… e os meus eram cor de café expresso. Sentava-se na primeira fileira de cadeiras… e eu mais ao fundo.

Não nos falamos nas primeiras vezes… apenas nos olhamos rapidamente — e confesso: foi como tropeçar…

Ela tinha marcas na pele: um dragão e uma meia lua em estado Minguante… eu tinha apenas uma cicatriz branca dos meus tempos de menina: joelho rasgado, sangue a escorrer, raiva a gritar junto aos punhos fechados… e pessoas a me segurar. Eu nunca fui alguém fácil de ser contida…

Eu ouvia Led Zepelim… ela Pearl Jam. Ela se vestia de preto… e eu de vermelho. Eu era febril… ela delirava! Não me lembro qual das duas falou primeiro. Me lembro apenas dos diálogos insanos que tecemos dentro das inúmeras tardes alaranjadas.

Ela não tinha em suas palavras uma só gota de realidade… e eu era justamente o contrário. Talvez por isso, tenha sido muito assustador, mas completamente saboroso…

Ela era uma menina-mulher-figura-estranha-complexa-doida-que-adorava-lacan… e eu ainda estava a descobrí-lo. E foi alucinante partilhar de sua paixão.

Ela cursou apenas o primeiro ano de psicologia… surtou e acabou internada. Não me deixaram vê-la.

As drogas que a fizeram dormir… roubaram toda a sua sanidade e capacidade de fazer de mim uma possível lembrança. Passei a ser apenas uma estranha e nada mais… alguém a quem agredir com gestos e palavras. Alguém a quem ignorar, acusar… alguém que vai embora e não deixa saudades. Alguém…

…a estranha que ficou com um caderno de notas onde ela escreveu a mesma palavra dúzia de vezes: “desire“… sinal de loucura? Para mim era prova irrefutável de in-sanidade. Eu quis ser ela. Provar da coragem que seus músculos vestiam… mas eu era apenas a menina que vestia um sorriso bobo-apagado-e-completamente-sem-graça nos lábios — sem muita disposição para pessoas… algo que sempre a fez sorrir.

Eu queria ser sozinha… viver no canto oposto às multidões. Ser silêncio… sem rastro. Uma sombra no chão que se apaga quando a noite acaba. Ela queria ser infinita, andar no meio da turba, fazer barulho — gritar cada vez mais alto até arrebentar os tímpanos alheios.

…e, mesmo assim ela veio ficar em mim, com seu sorriso imenso, seus gestos sempre indóceis, olhares imensos-gulosos… e ao dizer seu nome foi como ouvir um eco: Catarina

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6 comentários sobre “colegas de faculdade,

  1. Beth Q. disse:

    Boa pergunta a sua ai viu Mel, eu também fiquei um pouco em dúvida, mas acho que as duas se chamam Catarina. Sei lá. É o que parece. hahahahaha

    Gostei demais desse texto.
    Muito bem escrito, uma leitura bem ágil. Gosto de coisas assim, lembra um pouco o velho estilo do Caio F.

    beijão e bom fim de semana
    Parabéns pelo novo blogue

  2. Tatiana Kielberman disse:

    Somos quase sempre estranhos aos olhos de quem não está na nossa pele. Mas que bom que, em meio a tamanha estranheza, há opostos que se combinam e almas que se encontram.

    Nesse caso, diversas Catarinas podem caminhar juntas por aí… Dúzias delas… Talvez o segredo seja encontrar o tom que dê início ao diálogo.

    Lendo esse post, pude reviver várias cenas e me enxergar nelas… Gostando muito de tudo isso!

  3. Sandra Cajado disse:

    Ah Catarina… O que seria dos meros mortais,dos comuns que se vestem de todo dia se não fossem as loucas que jogassem o balde de tinta para quebrar paradigmas. Tão bom estar por aqui , tomando esse café junto contigo. Grazie!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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