Filme | Flores raras

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cena de ‘flores raras’

Flores raras é um filme difícil… porque brinca com a realidade — pronta, estabelecida entre duas mulheres que se encontraram e viveram juntas um ‘romance’ num Brasil, que as recebeu com naturalidade, sem preconceitos e intolerâncias… objeto cada vez mais comum nos dias denominados contemporâneos.

O desenrolar da realidade não foi justo para com a poeta Bishop… mas, não há como fugir do trágico final que a vida ‘escreveu’ — mesmo sendo o filme em parte: ficção. Lima Barreto ainda conseguiu agir como se a vida fosse feita de argila — como nos ‘ensina’ a bíblia — moldando as personagens ao seu bel prazer… para abordar um assunto, que na vida real não é nada fácil de tratar, quiçá nas telas do cinema, lugar onde nem sempre há espaço para temas tão profundos.

Falar das perdas e da consequência natural, que nos norteia: não saber perder… é inquietante-indigesto. Ainda mais quando temos em cena, duas mulheres intimamente ligadas a uma personagem, que nos parece forte-segura e que, no entanto, é incapaz de romper laços.

Lota dividia uma casa e a própria vida com Mary… a chegada de Bishop altera — em partes — essa realidade. Numa cena vemos os lábios da arquiteta brasileira se unir aos da poeta estadunidense e em paralelo a isso, acompanhamos a solidão de Mary…

Lota — para a nossa surpresa — decide não se afastar da amiga-namorada-amante, como se a paixão provocada em sua pele por Bishop… fosse desaparecer no dia seguinte.

Fiquei com a sensação de que Lota quis preservar um lugar para voltar quando tudo desmoronasse. E foi justamente nesse ponto que o enredo se dissolveu aos meus olhos… e eu recordei os versos do poema de Bishop… ‘a arte de perder não é nenhum mistério / tantas coisas contém em si o acidente /  de perdê-las,  que perder não é nada sério. / Perca um pouco a cada dia. Aceite austero, / a chave perdida, a hora gasta bestamente. (…) 

Lota não sabe perder… por isso, assistimos o seu lento definhar a cada cena… até não sobrar mais nada. E a partida de Bishop — que faz as malas e emerge em vida — não me causou surpresa alguma…

A última cena, com Bishop a beira do lago, me fez sair do cinema em meio a um pesado lamento… não ter levado comigo o exemplar de ‘north and south’. Seria excelente me sentar para um café numa das mesinhas bem merecidas do Cine Café Fellini e devorar um punhado de versos mais uma vez…

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A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
(…)

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A janela indiscreta do meu olhar…

Passa das onze… as horas avançam em pares e a noite se esparrama pela cidade. As preces crescem nas janelas que os meus olhos alcançam. Tenho essa mania — desde a infância — observar esses espaços onde vez ou outra um rosto se deixa emoldurar. Não é curiosidade o que me ocorre… é qualquer coisa cinematográfica — são roteiros que se desenham na imensidão do ar.

E com essa sensação de filme que se escreve no verso da folha… vou a cozinha e coloco a água para aquecer na chaleira para um chá de menta. E enquanto cumpro meu ritual de espera…  vou colhendo livros da prateleira: Caio Fernando Abreu e seus ‘fragmentos de vida‘, ‘Olhos de menina‘, de Susan Fletcher, ‘A poesia de Emily Dickinson‘ na voz de Isa Mara Lando.

Tenho dúzias de livros na prateleira… e tento não me repetir, mas a mãos é mais ágil e busca apenas o que me cala e eu consinto. Às vezes, me incomoda saber que existem muitos livros no mundo… e eu sei que não terei tempo para ler todos eles.

A verdade é que nunca há tempo bastante para todas as coisas do mundo-vida-realidade. Algo sempre nos escapa… e me preocupar com isso é visivelmente uma perda de tempo. Mesmo assim não consigo evitar e sempre gasto um par de minutos preciosos com esses argumentos e tento organizar mentalmente a minha realidade de maneira a realizar mais e sonhar menos.

Mas a essa hora da noite… que eu sei, será vivida ‘em branco’… com os olhos atentos as páginas dos livros escolhidos — volto a janela e enquanto me preparo para folhear o primeiro livro da noite, confiro as horas no relógio verde preso a parede e me deparo com a figura de um veglio signore no prédio da frente. Ele tem passos lentos e alguma dificuldade motora. Vejo um andador ao lado da cama e uma enfermeira vem ao seu encontro lhe trazer um copo com água e o medicamento. Ele é tão submisso… sou eu, diante da poesia de Emily Dickinson. Sou eu diante de certos pensamentos.

A enfermeira fecha a janela e encerra o filme da noite… vou ficar com essa cena em mente por alguns dias e sei que em algum momento, irei escrever sobre esse momento de submissão humana. O que será que ele pensa de si, da vida?  Será que pensa? Será que ainda lhe resta argumento para os pensamentos?

Ter Medo? De quem terei?
Não da Morte – quem é ela?
O Porteiro de meu Pai
Igualmente me atropela.

Da Vida? Seria cómico
Temer coisa que me inclui
Em uma ou mais existências –
Conforme Deus estatui.

De ressuscitar? O Oriente
Tem medo do Madrugar
Com sua fronte subtil?
Mais me valera abdicar!