A janela indiscreta do meu olhar…

Passa das onze… as horas avançam em pares e a noite se esparrama pela cidade. As preces crescem nas janelas que os meus olhos alcançam. Tenho essa mania — desde a infância — observar esses espaços onde vez ou outra um rosto se deixa emoldurar. Não é curiosidade o que me ocorre… é qualquer coisa cinematográfica — são roteiros que se desenham na imensidão do ar.

E com essa sensação de filme que se escreve no verso da folha… vou a cozinha e coloco a água para aquecer na chaleira para um chá de menta. E enquanto cumpro meu ritual de espera…  vou colhendo livros da prateleira: Caio Fernando Abreu e seus ‘fragmentos de vida‘, ‘Olhos de menina‘, de Susan Fletcher, ‘A poesia de Emily Dickinson‘ na voz de Isa Mara Lando.

Tenho dúzias de livros na prateleira… e tento não me repetir, mas a mãos é mais ágil e busca apenas o que me cala e eu consinto. Às vezes, me incomoda saber que existem muitos livros no mundo… e eu sei que não terei tempo para ler todos eles.

A verdade é que nunca há tempo bastante para todas as coisas do mundo-vida-realidade. Algo sempre nos escapa… e me preocupar com isso é visivelmente uma perda de tempo. Mesmo assim não consigo evitar e sempre gasto um par de minutos preciosos com esses argumentos e tento organizar mentalmente a minha realidade de maneira a realizar mais e sonhar menos.

Mas a essa hora da noite… que eu sei, será vivida ‘em branco’… com os olhos atentos as páginas dos livros escolhidos — volto a janela e enquanto me preparo para folhear o primeiro livro da noite, confiro as horas no relógio verde preso a parede e me deparo com a figura de um veglio signore no prédio da frente. Ele tem passos lentos e alguma dificuldade motora. Vejo um andador ao lado da cama e uma enfermeira vem ao seu encontro lhe trazer um copo com água e o medicamento. Ele é tão submisso… sou eu, diante da poesia de Emily Dickinson. Sou eu diante de certos pensamentos.

A enfermeira fecha a janela e encerra o filme da noite… vou ficar com essa cena em mente por alguns dias e sei que em algum momento, irei escrever sobre esse momento de submissão humana. O que será que ele pensa de si, da vida?  Será que pensa? Será que ainda lhe resta argumento para os pensamentos?

Ter Medo? De quem terei?
Não da Morte – quem é ela?
O Porteiro de meu Pai
Igualmente me atropela.

Da Vida? Seria cómico
Temer coisa que me inclui
Em uma ou mais existências –
Conforme Deus estatui.

De ressuscitar? O Oriente
Tem medo do Madrugar
Com sua fronte subtil?
Mais me valera abdicar!

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13 comentários sobre “A janela indiscreta do meu olhar…

  1. Tatiana Kielberman disse:

    Estava pensando nisso ontem, há mesmo inúmeros livros que nunca terei tempo de ler. É uma pena!

    E à noite esse sentimento se aprofunda. Deve ser nostalgia.

    Gostei da ideia de se embriagar de palavras, sejam elas alheias ou nossas. Pode ser saudável ou danoso, depende do nosso olhar.

    Beijos!

  2. Felícia disse:

    Enquanto minha escrita não retorna, fico aqui a te ler Catarina. Menina, você me encanta. Eu me sinto transportada para o seu cenário, seus aromas, seu afeto. Como é bom poder ler, compartilhar palavras que me passam serenidade e alegria. Suas insanidades são minhas euforias, viu?

  3. Cibele disse:

    Quase consegui chegar a chavena de chá de menta que tão presente me parecia. Eu as vezes também fico a pensar nos livros que não li e dentro da noite o pensamento é ainda mais denso como disse a Tatiana! Vamos culpar a noite. Eu faço isso sempre.

  4. Mel disse:

    É um deleite vivenciar essa sua agonia, se é que posso chamar assim, para com os livros. Eu não penso nisso. Aliás, pelo visto vou começar a pensar agora. É muita coisa. Muita coisa mesmo e eu sempre prefiro a televisão aos livros.

    • Lunna Guedes disse:

      Eu não chamaria de agonia Mel, mas também não sei que nome usar para essas insanidades que me levam a pensar nos livros que ainda não li e que pelo visto não lerei. Agora, uma coisa eu sei, não será por causa da televisão, viu? rs

      bacio

  5. Lu Cavachioli disse:

    Caríssima, você pinta o sete no cinza e arco-íris por ai.Tuas impressões despertam e aguçam leituras e leitores – eu, por exemplo! E ainda me vem com essa para pensar na cama “quantos livros eu ainda não li”. Ai ai ai ai

  6. manuela disse:

    Eu já parei pra pensar nisso Lu querida, mas depois de perceber que há livros no mundo com assuntos que não me interessam em absoluto, tomei uma xícara de chá igual a você e relaxei.
    Boa noite – abraços

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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