Na parte amarela do meu mapa de vivências…

Dia quente-fumegante… sem nuvens — todo Azul… dei meia dúzia de passos pelas ruas do bairro. Mãos no bolso da calça, pensamento solto e idéias galopantes. Frases soltas no vazio se esparramam…

Depois de virar esquinas, atravessar ruas… acabei no mesmo lugar de sempre — entre esquinas… cadeira-mesa ao lado da porta e, enquanto aguardava pelo meu latte — avistei um homem com seus cabelos brancos-longos-bagunçados. Passou pela porta de vidro e com os passos contados de dois em dois, foi ocupar a única mesa vazia, mais ao fundo. Olhar distante, a varrer suas memórias. Nas mãos uma pilha de livros de bolso. 

Parecia um professor de um filme antigo — dos anos oitenta, dirigido por John Hughes. Um personagem enfiado em um casaco de malha e seu jeans surrado. Óculos com lentes verdes a frente dos olhos e um maço de cigarros no bolso da camisa. Pediu um café preto em xícara de vidro por não gostar da “nova moda” — copos de papelão. A cabeleira rebelde o obrigava a movimentos indesejados de tempos em tempos. Uma batalha inútil… as madeixas não permaneciam presas atrás da orelha. Me fez voltar no tempo e recordar as roupas sendo penduradas nos estendais pela “moça de lata”. Ela travava pequenas batalhas com os lençóis, o vento, os pregadores e sua limitação. Movimentar-se não era nada fácil para ela…

Meu nome ressoou pelo ar e eu me levantei sem cuidado, num susto… esbarrei na figura de menina-mulher e sua androginia peculiar. Fomos educadas… e só! Mas, eu guardei qualquer coisa sua, em mim. Reparei quando ela desviou o olhar, o corpo em um movimento retilíneo, tão lúcido quanto insano. Eu escrevi no ar, na pele — por dentro: “ainda dá tempo de mudar de rumo, partir de repente. Esquecer a bebida, o lugar, o homem-personagem… a cidade. Ir embora… passar pela porta — escrever missivas a ninguém e me convencer que são personagens para outros autores  que não eu — essa geografia que ainda não posso mapear.

Agradeci o latte em temperatura alta… provei do aroma num pesado trago de ar que me arremessou diretamente para os dias de ontem… senti todas as combinações possíveis — a infância sonora, a mesa da cozinha, a cadeira alta, os pés em movimento no ar… e a xícara cheia. Gostava dos bigodinhos brancos que ficavam imediatamente após ao primeiro gole.

Nos unimos em um mesmo uníssono… a menina que se sentia pequena e gostava de pensar em como seria “quando crescesse” — imaginando os contornos de um corpo maior. A menina que tinha certeza de que seria capaz de narrar suas sensações de outra maneira — mais intensa-poética-verdadeira. Mas, adquirido o verniz dos dias-horas, a vida vai perdendo muito de si, vai ficando pelo caminho. As camadas são outras e a capacidade também.

Voltei ao meu lugar… sem saber o que penso-sinto-sou e escrever, no entanto, é tudo que me ocorre. Escrever mais e mais… “basta um movimento de mão em reposta ao impulso cerebral, treinado desde a infância a registrar em meu sistema hieroglífico latino as translações dos estímulos externos”.

Não posso confiar totalmente em minha memória… nem todas são reais. Algumas são inventadas, outras emprestadas. Tenho consciência de que não guardei tudo que vivi ou tudo que penso ter vivido. Impossível calcular-concluir… admitir, tampouco.

Por isso, escrevo… são tentativas válidas de me fazer real, validar minhas vivências. E busco ler — muito — sobre as experiências alheias em pensamentos e atos. Pessoa e Plath me fascinam nesse sentido. Um pela certeza do invencionismo e a outra pela afirmação da primeira pessoa.

Escrever é um ato que pede disciplina — é preciso render-se, entregar-se, despir-se. As paredes do meu corpo estão prontas, mas a matéria da qual sou feita ainda carece de silogismos!

Abre aspas… o homem continua em sua mesa, a revirar os livros — que deve ter escrito nos seus intervalos de vida. E a menina-mulher percorreu suas distancias, sem reparar que eu a acompanho em suas andanças que a devolve sempre ao mesmo lugar. Está presa a si… mas quer voar, consciente de que não tem asas. Curioso… é ela quem traga, mas é a minha boca que fica cheia de fumaça… Fecha aspas

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

3 comentários em “Na parte amarela do meu mapa de vivências…

  1. Gente, nem “froid” explica isso.
    Você enxerga personagens em todas as partes.
    Acho que fiquei com um pouquinho de inveja rs

    De qualquer maneira gostei e virei fã.
    beijoca

  2. eu já te falei que amo esse abre aspas e fecha aspas, né?
    Nossa! Às vezes, você fica difícil de ler e nem é Aos sábados, viu?

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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