1. Nada é tão líquido assim…

 Tecendo-missivas..._thumb.jpg

Meu Caro P.,

…remexia coisas antigas nesse fim de tarde, com a alma afundada em melancolia quando encontrei uma velha caixa que fez abrir o casulo da memória em meu corpo. Primeiro por me fazer refazer a viagem na companhia de C., pelas ruas de uma pequena cidade alemã onde comprei a caixa, onde guardei suas linhas… que hoje me devolveram à você…

Quando foi que nos perdemos? Lembro-me que nos escrevíamos com frequência voraz. Você aconteceu para mim depois de nosso encontro nas férias de verão de um ano qualquer. Já vai longe… eu tinha dez anos e tinha acabado de me apaixonar por Eliot e seus versos de vida e morte, cortantes. Uma lâmina afiada a me fazer sentir senhora de si: ‘A meia-noite chacoalha a memória / Como um louco chacoalha um gerânio morto’

Ainda me lembro – como se fosse ontem – de sua chegada… guardei o seu sorriso, seu olhar curioso. Provei da sua voz e de cada um de seus gestos. Você sempre teve sabor de chá silvestre… nunca vou me esquecer de seu olhar sem susto ao reconhecer o livro que eu tinha em mãos. Você foi o único a não questionar a minha pouca idade, a não me dizer ‘isso não é leitura para uma criança’. E quando, a casa, recebi o envelope azul artesanal, endereçado à ‘tua bambina’… eu soube que coisa sua.

Na primeira folha você acenou com um poema de Eliot e frases eufóricas de um menino-homem que nada sabia do lugar onde eu morava.

Eu que nunca tinha escrito uma missiva, esperei pelo sábado seguinte para repetir um gesto conhecido… escolhi as folhas de meu melhor caderno e contei à você… com alguma euforia e também tristeza, o que eram os meus dias naquela cidade.

Iniciamos nossa troca, que durou até que o silêncio se impôs entre nós dois. Você não me escreveu mais… nem eu à você. O hábito de escrever missivas se perdeu em algum lugar. Guardei suas linhas dentro dessa caixa para um dia revê-lo… e agora que folheio nós dois, repito-me em palavras porquê eu, de outro modo, não conseguiria alcança-lo… e para dar um nó nessa saudade que cresce e floresce em mim… voltei a escrever missivas…

Adomani, caro mio

Notas mentais…

catarina 3

…é uma mania antiga: tomar notas de meus pensamentos — próprios e impróprios — em folhas de papel de amarelecidos tons… e deixá-los guardados: dentro de livros, caixas ou gavetas…

Às vezes, os esqueço para todo o sempre por lá… e passa uma vida inteira de silêncio e quietude até que o tal do destino — sempre arteiro — pinta dias de chuva em meus olhos… e eu esparramo tudo por cima da cama.

São os meus dias de faxina… os meus preferidos. Não limpo o chão, não removo o pó dos móveis, apenas reviro as  minhas gavetas e caixas. Como se a vida me convidasse a uma pausa… absurdamente necessária.

Preparo uma xícara de chá e lá vou eu para os cantos da casa-alma, com esse passado tão presente em mãos.

Arrumo minha bagunça, minha história, minha vida… e vou dando forma ao meu diário de bordo! — essa nova tag adicionada a realidade… que aqui ‘invento’.

 

Camille Claudel 1915

Camille-pic

SAI DE CASA PARA IR AO CINEMA… coisa que não fazia havia tempos porque, às vezes, nos perdemos das coisas mais simples e fazemos todo o resto. Hoje, no entanto, sai para caminhar calçadas, dobras esquinas, ultrapassar quarteirões e quando dei por mim, meus passos em pares tinham me conduzido ao Espaço Itaú de Cinemas — o antigo “Espaço Unibanco” que passou por reformas e exibe novo traço…

A peça “Camille Claudel 1915” estava em cartaz. Fui direto à fila… e quando estou a pedir o meu ingresso fui interpelada por essa senhora recém-saída de seu mundo cor de rosa com suas falas agudas e completamente dispensáveis: “não vale a pena, é uma peça muito triste. Nem dá pra entender direito. Achei tudo tão horrível”. Achei que num gesto indócil, ela fosse retirar o ingresso das minhas mãos e num rompante, iria fazê-lo em pedaços. Mas ficou apenas no discurso tolo-tosco-desnecessário. Mas a maneira agridoce como me olhava, fez parecer que eu estava insistindo em fazer algo indevido-proibitivo.

O filme começou pontualmente as 14 horas… e desde o primeiro instante percebi que se tratava de um filme sobre o tempo. A personagem em cena é uma Camille Claudel vazia — sem seu ateliê e também sem o seu talento. Sem Rodin e sem a si mesma.

Seus movimentos por aquele espaço (sanatório) são típicos de uma pessoa que não sabe onde está e tão pouco se reconhece. Talvez por isso reze tanto — porque é preciso acreditar que existe lucidez em algum canto do mundo e de nós mesmos. Precisamos acreditar — juntando as mãos em oração a algum salvador — que a tão desejada lucidez poderá enfim nos ser devolvida. Ainda que seja por esse deus que está no céu — esse lugar etéreo.

É desesperador o silêncio em cena… que de repente é quebrado por estranhos ruídos. Tudo se transforma em míseros segundos e provamos da loucura da personagem. É nesse momento que nos damos conta que a loucura é objeto comum à realidade de Camille.

Seu irmão — que a culpa, por sua loucura — é igualmente louco… ou talvez o único louco de fato na família. Mas ao contrário de Camille, ele desfruta da liberdade que falta a ela.

Em determinado momento do filme… a personagem de Juliette Binoche desce pares e mais pares de degraus, em meio a uma falsa calma que me fez questionar: “teria ela contado cada um daqueles degraus? E se o fez: quantas vezes os contou e qual seria o resultado dessa soma?” E o que me obriga a voltar a uma conclusão antiga: enlouquecer, às vezes, é tudo que nos resta.

Quando estamos enterrados até ao pescoço… precisamos — desesperadamente — nos agarrar a alguma coisa para que o ar adentre os pulmões e a vida prevaleça. É a sensação que tive ao vê-la amarrar os cadarços com tamanha facilidade. A coordenação motora que ela exibe, me fez perceber que a sanidade encontrou um meio de ser preservada dentro daquele corpo febril —mesmo estando na floresta com lobos.

E quando, em meio ao silêncio de um caminhar pelo jardim… ela busca no chão um pouco de barro — sinto que algo mais sobreviveu ao isolamento imposto por sua família.

O filme não é para qualquer um… há cenas complexas, intensas e lentas, que nos pede um olhar para nós mesmos… e não é fácil se posicionar diante do espelho e encarar essa "falsa verdade" que confeccionamos dia após dia.

Uma das cenas que mais  me incomodou… foi a caminhada de Paul — irmão de Camille — por uma colina, ao lado de um padre. A imagem do sagrado, lado a lado, a força do homem, colocado, propositalmente em primeiro plano… determinando a condição inferior do homem, inferior até mesmo… a de uma mosca, que surge com seu zumbindo imenso a zombar da podridão do homem. O irmão de Camille se mostra incapaz de perdoar a própria irmã, que não luta contra o demônio, que tem dentro de si. Ela se rende e se deixa possuir. Acusa suas fragilidades… e esse é seu maior pecado. O homem existe para travar suas batalhas, suas lutas. Existe para sobreviver em sua condição menor.

Sai do cinema com a alma em pedaços… e fui caminhar por uma daquelas galerias da Augusta. Me sentei num daqueles bancos de madeira… e fiquei a pensar na realidade de caminhos-ventos-dias-de-sol-e-palavras. Se fosse eu no lugar de Camille, talvez as minhas preces tivessem o mesmo destino que o dela: um deus que vive no céu… que, em momento algum veio em seu socorro. E implorar foi o que ela mais fez…

Tag: {não perdi o hábito de escrever missivass}

Lamentavelmente eu não me lembro da primeira missiva que escrevi… gostaria de ter em minha memória o desenho do lugar, das palavras, dos sentimentos que motivaram o movimento de linhas, a textura das folhas… mas não alcanço o instante… que me escapa.

Já busquei em minha memória qualquer fragmento de realidade, que possa me servir de Norte. Mas, acabo sempre diante do vazio… esse Sul que se esvai. Nem mesmo o meu imaginário me socorre.

Insatisfeita, resolvi inventar uma lembrança… moldei o cenário conhecido: a mesa da cozinha, a manhã de sábado, a xícara de leite caramelado, os livros espalhados e os envelopes em estado de espera. Vislumbrei o olhar da Dama da minha infância e me vi, sentada a sua frente, a repetir os gestos que tantas vezes presenciei… enquanto bebericava meu leite quente-caramelado.

Curioso que me lembro muito bem do exato instante que deixei de escrever missivas. Era uma tarde quente de sol. Não havia promessas de chuva e eu voltei para casa com o cansaço de uma semana inteira. Na caixa de correspondência havia uma dúzia de envelopes… que eu arremessei se titubear no lixo da cozinha.

Naqueles dias… eu não tinha vontade-ânimo para diálogos. Não queria saber o que me diziam as pessoas que, durante anos, foram meu contato com a realidade do mundo.

Mas, a bordo dessa manhã de sábado… resolvi retomar o movimento-diálogo… afinal, eu voltei a escrever! Que se apresentem os pretendentes, vamos casar nossos diálogos!