Não perdi o hábito de escrever missivas

Lamentavelmente eu não me lembro da primeira missiva que escrevi… gostaria de ter em minha memória o desenho do lugar, das palavras, dos sentimentos que motivaram o movimento de linhas, a textura das folhas… mas não alcanço o instante… que me escapa.

Já busquei em minha memória qualquer fragmento de realidade, que possa me servir de Norte. Mas, acabo sempre diante do vazio… esse Sul que se esvai. Nem mesmo o meu imaginário me socorre.

Insatisfeita, resolvi inventar uma lembrança… moldei o cenário conhecido: a mesa da cozinha, a manhã de sábado, a xícara de leite caramelado, os livros espalhados e os envelopes em estado de espera. Vislumbrei o olhar da Dama da minha infância e me vi, sentada a sua frente, a repetir os gestos que tantas vezes presenciei… enquanto bebericava meu leite quente-caramelado.

Curioso que me lembro muito bem do exato instante que deixei de escrever missivas. Era uma tarde quente de sol. Não havia promessas de chuva e eu voltei para casa com o cansaço de uma semana inteira. Na caixa de correspondência havia uma dúzia de envelopes… que eu arremessei se titubear no lixo da cozinha.

Naqueles dias… eu não tinha vontade-ânimo para diálogos. Não queria saber o que me diziam as pessoas que, durante anos, foram meu contato com a realidade do mundo.

Mas, a bordo dessa manhã de sábado… resolvi retomar o movimento-diálogo… afinal, eu voltei a escrever! Que se apresentem os pretendentes, vamos casar nossos diálogos!

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9 comentários sobre “Não perdi o hábito de escrever missivas

  1. Felícia disse:

    Enquanto minha escrita não retorna, fico aqui a te ler Catarina. Menina, você me encanta. Eu me sinto transportada para o seu cenário, seus aromas, seu afeto. Como é bom poder ler, compartilhar palavras que me passam serenidade e alegria. Suas insanidades são minhas euforias, viu?
    E eu posso receber seus envelopes aqui em casa, na hora em que quiser, viu?

  2. Sandra disse:

    Ain Catarina, eu também trocava correspondência e não faço isso desde a juventude. Deu uma vontade de revirar minha antiga pasta de papel cartas que eu nunca usei. Ainda deve estar guardada em algum lugar.
    Adorei seu post!

  3. Lu Cavachioli disse:

    Caríssima, você pinta o sete no cinza e arco-íris por ai.Tuas impressões despertam e aguçam leituras e leitores – eu, por exemplo! E ainda me vem com essa para pensar na cama “voltar a escrever missivas”. Ai ai ai ai

  4. Ingrid disse:

    E eu que achava que correspondência era uma coisa que fazia parte da vida das pessoas mais velhas, tipo avôs e avós, sabe? Vou rever meus conceitos. hehehehe

    bj

  5. manuela disse:

    Nossa, viajei aqui minha amiga Catarina. Sempre troquei correspondência. Ainda faço isso, viu? Então pensei em me enviar um envolope de suas terras com toda a poesia que tens na ponta de teus dedos.

    beijinhos

  6. Cibele disse:

    Ah, as correspondências. Eram tão magico aguardar pelo carteiro. Não sei quando parei de escrever ou quando as respostas pararam de chegar. Taí algo pra eu pensar.

    Valeu.

  7. Mariana Gouveia disse:

    Escrever cartas para mim é libertador. Comecei muito cedo, logo assim que aprendi as letras.
    A primeira carta foi para minha avó, com minha mãe ditando as palavras…quando veio a resposta, para mim, foi o que me moveu e move até agora quando escrevo elas. Seja virtualmente ou mesmo do meio formal.
    Encontrar você e suas missivas foi renovar o elo.

    Grazie tanto!
    Bacio

    • Lunna Guedes disse:

      Ah, eu me lembro da primeira resposta que recebi. Era apenas uma folha de papel. Estava numa colônia de férias. Estava aborrecida com o lugar e o coordenador do lugar me entregou o envelope. Foi o mais apertado dos abraços que já vesti. rs

      bacio

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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