Camille Claudel 1915

Camille-pic

SAI DE CASA PARA IR AO CINEMA… coisa que não fazia havia tempos porque, às vezes, nos perdemos das coisas mais simples e fazemos todo o resto. Hoje, no entanto, sai para caminhar calçadas, dobras esquinas, ultrapassar quarteirões e quando dei por mim, meus passos em pares tinham me conduzido ao Espaço Itaú de Cinemas — o antigo “Espaço Unibanco” que passou por reformas e exibe novo traço…

A peça “Camille Claudel 1915” estava em cartaz. Fui direto à fila… e quando estou a pedir o meu ingresso fui interpelada por essa senhora recém-saída de seu mundo cor de rosa com suas falas agudas e completamente dispensáveis: “não vale a pena, é uma peça muito triste. Nem dá pra entender direito. Achei tudo tão horrível”. Achei que num gesto indócil, ela fosse retirar o ingresso das minhas mãos e num rompante, iria fazê-lo em pedaços. Mas ficou apenas no discurso tolo-tosco-desnecessário. Mas a maneira agridoce como me olhava, fez parecer que eu estava insistindo em fazer algo indevido-proibitivo.

O filme começou pontualmente as 14 horas… e desde o primeiro instante percebi que se tratava de um filme sobre o tempo. A personagem em cena é uma Camille Claudel vazia — sem seu ateliê e também sem o seu talento. Sem Rodin e sem a si mesma.

Seus movimentos por aquele espaço (sanatório) são típicos de uma pessoa que não sabe onde está e tão pouco se reconhece. Talvez por isso reze tanto — porque é preciso acreditar que existe lucidez em algum canto do mundo e de nós mesmos. Precisamos acreditar — juntando as mãos em oração a algum salvador — que a tão desejada lucidez poderá enfim nos ser devolvida. Ainda que seja por esse deus que está no céu — esse lugar etéreo.

É desesperador o silêncio em cena… que de repente é quebrado por estranhos ruídos. Tudo se transforma em míseros segundos e provamos da loucura da personagem. É nesse momento que nos damos conta que a loucura é objeto comum à realidade de Camille.

Seu irmão — que a culpa, por sua loucura — é igualmente louco… ou talvez o único louco de fato na família. Mas ao contrário de Camille, ele desfruta da liberdade que falta a ela.

Em determinado momento do filme… a personagem de Juliette Binoche desce pares e mais pares de degraus, em meio a uma falsa calma que me fez questionar: “teria ela contado cada um daqueles degraus? E se o fez: quantas vezes os contou e qual seria o resultado dessa soma?” E o que me obriga a voltar a uma conclusão antiga: enlouquecer, às vezes, é tudo que nos resta.

Quando estamos enterrados até ao pescoço… precisamos — desesperadamente — nos agarrar a alguma coisa para que o ar adentre os pulmões e a vida prevaleça. É a sensação que tive ao vê-la amarrar os cadarços com tamanha facilidade. A coordenação motora que ela exibe, me fez perceber que a sanidade encontrou um meio de ser preservada dentro daquele corpo febril —mesmo estando na floresta com lobos.

E quando, em meio ao silêncio de um caminhar pelo jardim… ela busca no chão um pouco de barro — sinto que algo mais sobreviveu ao isolamento imposto por sua família.

O filme não é para qualquer um… há cenas complexas, intensas e lentas, que nos pede um olhar para nós mesmos… e não é fácil se posicionar diante do espelho e encarar essa "falsa verdade" que confeccionamos dia após dia.

Uma das cenas que mais  me incomodou… foi a caminhada de Paul — irmão de Camille — por uma colina, ao lado de um padre. A imagem do sagrado, lado a lado, a força do homem, colocado, propositalmente em primeiro plano… determinando a condição inferior do homem, inferior até mesmo… a de uma mosca, que surge com seu zumbindo imenso a zombar da podridão do homem. O irmão de Camille se mostra incapaz de perdoar a própria irmã, que não luta contra o demônio, que tem dentro de si. Ela se rende e se deixa possuir. Acusa suas fragilidades… e esse é seu maior pecado. O homem existe para travar suas batalhas, suas lutas. Existe para sobreviver em sua condição menor.

Sai do cinema com a alma em pedaços… e fui caminhar por uma daquelas galerias da Augusta. Me sentei num daqueles bancos de madeira… e fiquei a pensar na realidade de caminhos-ventos-dias-de-sol-e-palavras. Se fosse eu no lugar de Camille, talvez as minhas preces tivessem o mesmo destino que o dela: um deus que vive no céu… que, em momento algum veio em seu socorro. E implorar foi o que ela mais fez…

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Um comentário sobre “Camille Claudel 1915

  1. Tatiana Kielberman disse:

    Se antes eu já estava curiosa para assistir ao filme, agora nem preciso dizer nada, né?

    Irei sem falta…

    Gostei muito desta parte: “(…) acho que quando estamos enterrados até ao pescoço, precisamos nos agarrar a alguma coisa para que o ar adentre os pulmões e a vida prevaleça.”

    Tão eu…

    Beijos!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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