Não perdi o hábito de escrever missivas

Meu caro

…no final desta manhã dourada de agosto, escrevo-te — repetindo o velho ritual da minha infância. Mesa da cozinha, xícara de chá… e o olhar lambuzado pela paisagem de tantos “ontens”.

Lamentavelmente, meu caro… não me lembro da primeira missiva que escrevi. Vasculhei os dias, os lugares… todo e qualquer fragmento de realidade, que possa servir de Norte… Mas cá estou eu…  diante desse Sul que se esvai — por falta de memória! Nem mesmo o meu imaginário me socorre.

Gostaria de saber… o cenário, a textura e a cor do papel em mãos. Ouvir o chiado do grafite avançando seguro pela folha, as palavras escolhidas… e o destinatário.

Insatisfeita, cogitei inventar qualquer coisa… Mas desisti dessa idéia. Optei por continuar a vasculhar-me. Sinto que, em algum momento, encontrarei um pouso para esse meu vôo…

Curioso que eu me lembro do exato instante em que deixei de escrever missivas. Era uma tarde de sol quente. Estava exausta. Sem ânimo para diálogos. Não queria saber notícias do mundo das outras pessoas, que durante anos foram o meu contato com outras realidades. Ao voltar para casa, encontrei uma dúzia de envelopes na caixa de correspondência. Não tive cuidado. Arremessei tudo, de uma só vez, no lixo da cozinha.

Eu gosto de pensar que a minha primeira missiva foi escrita numa manhã de sábado chuvosa enquanto apreciava a Dama de minha infância em seus movimentos de vida. Escrevi meia dúzia de palavras dentro de uma ou duas frases, sem compromisso algum com o tempo e lugar. Apenas um “olá” satisfeito e notícias da pequena aprendiz dos gestos daquela mulher que orientou muitos de meus passos, dando-me a confiança necessária para ir em frente.

Finalizei com um “agradecimento sincero”. Anotei o dia e o horário no rodapé. Dobrei as folhas… desejando que a resposta fosse breve… e fim!

A bordo dessa manhã de sábado, amarro todas essas coisas — reais e irreais — bebo um pesado gole de chá e retomo o movimento-diálogo, elegendo-o como destino das minhas palavras, afinal, voltei a escrever…

Au revoir

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

9 comentários em “Não perdi o hábito de escrever missivas

  1. Enquanto minha escrita não retorna, fico aqui a te ler Catarina. Menina, você me encanta. Eu me sinto transportada para o seu cenário, seus aromas, seu afeto. Como é bom poder ler, compartilhar palavras que me passam serenidade e alegria. Suas insanidades são minhas euforias, viu?
    E eu posso receber seus envelopes aqui em casa, na hora em que quiser, viu?

  2. E eu que achava que correspondência era uma coisa que fazia parte da vida das pessoas mais velhas, tipo avôs e avós, sabe? Vou rever meus conceitos. hehehehe

    bj

  3. Ain Catarina, eu também trocava correspondência e não faço isso desde a juventude. Deu uma vontade de revirar minha antiga pasta de papel cartas que eu nunca usei. Ainda deve estar guardada em algum lugar.
    Adorei seu post!

  4. Caríssima, você pinta o sete no cinza e arco-íris por ai.Tuas impressões despertam e aguçam leituras e leitores – eu, por exemplo! E ainda me vem com essa para pensar na cama “voltar a escrever missivas”. Ai ai ai ai

  5. Nossa, viajei aqui minha amiga Catarina. Sempre troquei correspondência. Ainda faço isso, viu? Então pensei em me enviar um envolope de suas terras com toda a poesia que tens na ponta de teus dedos.

    beijinhos

  6. Ah, as correspondências. Eram tão magico aguardar pelo carteiro. Não sei quando parei de escrever ou quando as respostas pararam de chegar. Taí algo pra eu pensar.

    Valeu.

  7. Escrever cartas para mim é libertador. Comecei muito cedo, logo assim que aprendi as letras.
    A primeira carta foi para minha avó, com minha mãe ditando as palavras…quando veio a resposta, para mim, foi o que me moveu e move até agora quando escrevo elas. Seja virtualmente ou mesmo do meio formal.
    Encontrar você e suas missivas foi renovar o elo.

    Grazie tanto!
    Bacio

    1. Ah, eu me lembro da primeira resposta que recebi. Era apenas uma folha de papel. Estava numa colônia de férias. Estava aborrecida com o lugar e o coordenador do lugar me entregou o envelope. Foi o mais apertado dos abraços que já vesti. rs

      bacio

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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