Quase quarenta…

“Amo a regra que corrige a emoção.
Amo a emoção que corrige a regra”.

Georges Braque

 

Eu sei dos relógios e das voltas que dão os seus ponteiros — mas não sei absolutamente nada das horas que eles medem. Conheço a melodia e a ouço de tempos em tempos: aqui dentro e lá fora… junto as esquinas que eu dobro como se fosse um pedaço de papel a manusear… para compor um origami.

Há sempre um relógio com seus ponteiros em movimentos alucinados nos lugares por onde eu passo — desde a infância — e mesmo sendo apaixonada por esses mecanismos humanos… confesso que prefiro a ciência grega à essa definição humana-equivocada — onde tudo se mede e se perde.

Os gregos dividiram o tempo em dois… dos homens — Cronos e, dos deuses — Kairos. Eu sempre preferi Kairos… por considerá-lo mais poético… menos humano… mais etéreo… mais elegante… e menos dócil.

Às vezes, me assusto com o tempo e seus movimentos para frente… não sei muito sobre o tempo futuro… o dia seguinte para mim, é essa janela sempre aberta que não agrada ao meu imaginário… que prefere o tempo passado, o dia anterior… o pretérito imperfeito.

Gosto de fechar os olhos e tocar levemente todas essas coisas que, se repetem incansavelmente aqui dentro… um punhado de lembranças a saltar de minha memória que, fazem de mim, o que sou: figura humana alucinada, a ir na contramão das multidões, com as mãos dentro do bolso da calça, a espiar as silhuetas dos prédios e das casas… e os humanos em movimento ao meu redor.

Gosto de esquecer o tempo presente… abandonar as horas e suas insanidades de movimentos circulares. Coloco um disco para girar e vou para o canto do sofá ler Álvaro de Campos… esse simpático Senhor, que parece não saber sorrir. Mas sabe como poucos ralhar com o tempo que urge atitudes. Ele fica no canto, com seus versos elegantes… e de lá espia os contornos das coisas e suas causas. E quando se cansa: escreve…

Do tempo futuro espero apenas a soma que ele me deve desde a infância… nunca gostei de celebrar datas… mas gosto de completar décadas: dez, vinte, trinta… quando no intervalo dos anos… apenas digo quase vinte, quase trinta. Ontem foi a primeira vez que eu disse: “quase quarenta”. A pessoa não entendeu minha emoção, mas pela primeira vez, me dei conta que estou quase lá…

É meu Norte particular… completar “quarenta anos”. Ainda vivia os meus dias de menina quando ouvi uma mulher dizer em alto e bom tom, com a fisionomia cheia, diante do espelho, a espiar a si mesma e todos os seus pretéritos: “tenho quarenta anos”. Foi tão lindo. Uma frase inteira… Como se ela conversasse Kairos e ignorasse Chronos…

Eu ainda tenho muito para caminhar antes de chegar a essa casa… e poder anunciar essa linda idade. Enquanto isso, digo em voz alta, lua nova que sou: quase quarenta… e finjo ser cheia, em pleno eclipse das minhas emoções…

 

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2. As pessoas tristes não sabem soluçar

“Um homem se propõe a tarefa de esboçar o mundo.
Ao longo dos anos povoa um espaço com imagens de províncias,
de remos, de montanhas, de balas, de naves, de ilhas, de peixes,
de habitações, de astros, de cavalos e de pessoas.
Pouco antes de morrer, descobre que paciente labirinto de linhas
traça a imagem do seu rosto”

 Jorge Luís Borges

Caríssima T.

 

…a noite finalmente desliza por cima do meu olhar. Um avião cruza o céu enquanto eu me perco em direções intimas. Acompanho seu vôo até onde o meu olhar alcança e, recordo que amanhã começo tudo de novo… hoje, no entanto, apenas antevejo esse ensaio de vida e morte – morte e vida.

Queria amanhecer dentro do dia seguinte para não ouvir os sons que irão aterrissar em minha derme logo pela manhã. Não gosto de festa… de bolos e velas, de pessoas em pares — acho tudo cansativo demais. Prefiro envelopes, folhas em branco, calçadas, cantos da casa, da alma, da pele…

Para amanhã escolhi um filme recente… não quero visitas, nem palavras ou afagos. Quero a mim mesma, no fundo do espelho, no porta-retrato, na página da agenda, do livro. Quero a porta fechada… o silêncio dos meus pensamentos e um ensaio de ingredientes na cozinha.

No fim do dia — na última hora — quero apenas a minha voz — esse eco a dizer: “feliz ano novo” e pronto: começarei tudo de novo…

Acenderei uma vela e acompanharei a chama até o fim e enquanto oscila-inflama-vibra… escreverei um punhado de linhas e farei meu pedido. Não é segredo, é o mesmo de sempre…

Ah! Você não sabe: eu não apago velas, minha cara… considero um estranho ato. A vida quando se apaga: acaba. Certo? Por que haveria eu de apagar a minha própria chama se tenho imenso apreço por ela?

Bacio

Questão em aberto

“Eu acho que fiz muito bem, considerando que eu comecei com o nada e mais um monte de papel em branco”.

Steve Martin

questao-em-aberto

…uma tempestade se formou por volta das seis…  depois que um forte calor tornou insuportável existir dentro desse dia de amargo sabor. A tarde se perdeu e a noite invadiu a cidade com seu breu agridoce.

Assim que a chuva começou… fui revirar os meus baús — ritual antigo. Espalhei todas as coisas por cima da cama. Abri envelopes, folheei notícias antigas… revi momentos inteiros e acabei por tropeçar num calhamaço de folhas capitaneado pelo título em negrito: ‘pequenas epifanias’ — novela escrita em míseros ‘três capítulos’… a narrar a realidade de uma jovem do interior que vem à São Paulo em busca de si mesma e acaba perdida — tanto quanto a minha narrativa-rude… a viver sua fase de experimentações.

Reparei existir uma propensão a poesia naquelas linhas… a narrativa é clássica — nos moldes ingleses e francesas… com diálogos curtos — sutilmente entrecortados por fortes descrições de tempo e espaço. Em cena estão três personagens fortes e fracas, pequenas e imensas. Uma completa a outra… uma esvazia a outra.

Ler o manuscrito me fez pensar no desejo que eu alimentei durante muito tempo: escrever um romance — que resultou numa gaveta cheia de rascunho. Mas não me atrevi a publicar nada do que produzi. Preferi deixar tudo guardado… porque esperar também é uma arte — é como amar. Não acredito em sentimentalidades que despertam a primeira vista… porque sentimentos se esvaziam, se reinventam, se reescrevem… assim como as os escritos.

Eu não estava pronta… mas aprendi uma coisa desde que me sentei para rascunhar ‘pequenas epifanias’. Eu não quero estar pronta… quero apenas escrever até esvaziar-me… porque para mim: escrever é viver no escuro das minhas próprias emoções.

11 coisas…

Cadernos colegiais

A Menina Cos(Z)e… lançou em seu blogue esse desafio que me fez lembrar daqueles famosos cadernos de perguntas… que iam de mãos e mãos nos tempos do colégio. Eram os famosos cadernos colegiais… repletos de perguntas.

Eu nunca tive um desses cadernos para mim… mas vários deles vieram até minha mesa. Achava engraçadas todas aquelas perguntas que tinham um só objetivo: investigar o outro a fim de sabê-lo…

Respondia uma a uma as perguntas… sem pressa, mas nem sempre eram minhas as palavras que se orientavam entre as linhas. Lacan disse muito por mim, Campos também… era um jogo e eu gostava de embaralhar muito as cartas antes de distribuí-las aos jogadores.

Vamos as regras do jogo: dizer 11 coisas aleatórias sobre mim. Responder às 11 perguntas elaboradas por quem me indicou. Compor 11 novas perguntas e indicar 11 blogues…

Sobre mim.

1. Gosto de caminhar pelos arredores onde moro, visitando quase sempre as mesmas paisagens. Passo lento. Mãos no bolso e os cenários invadindo-me. Prédios antigos com suas múltiplas janelas. Praças e claro, adoro espiar os cenários alheios, percebendo pequenos detalhes por entre frestas.

2. Gosto de cozinhar sem compromisso. Reunir ingredientes e inventar coisas.

3. O primeiro livro que li foi um livro de contos indianos, o favorito de C.

4. Gosto de ser sozinha e ficar no canto, em silêncio – espiando as pessoas e suas coisas.

5. Sou inquieta, teimosa e autoritária.

6. Adoro Bossa Nova.

7. Queria ter uma máquina do tempo para ir viver em Paris em 1900.

8. Adoro cadernos, mas já não os compro mais como antes.

9. Não consigo entrar em uma livraria e sair de lá sem um único livro em mãos.

10. Sou uma criatura sonora, logo, há palavras que em português não me dizem coisa alguma, o mesmo acontece com o francês, italiano e inglês…

11. Adoro reticências, tanto que o meu primeiro livro em língua portuguesa tem justamente o título: “reticências“…

As perguntas da menina cos (z)e.

1. Defina-se em três palavras. Teimosa. Insana. Apaixonada.
2. Qual é a altura do dia que mais gosta? Aquele momento em que a escuridão se desfaz, mas as luzes do dia ainda não se manifestaram. O tempo parece fazer uma pausa. Já não é mais madrugada, mas também não é manhã ainda. É como se nada e tudo fossem uma mesma coisa e eu fico ali, junto a janela a espiar esse segundo que a tudo antecede. Se piscar, o perco e talvez por todo o sempre.
3. Qual o motivo pelo qual criou o blogue? O primeiro? Para brincar com a palavra, domar o idioma e tentar não pensar outra coisa que não o português. Confesso. Falhei… Mas não desisti ainda…
4. Qual o assunto que mais gosta de tratar no mesmo? Minha insanidade porque acho que a loucura nos socorre de nós mesmos. Então me deixo ser outra e saio por ai inventando cenários, pessoas – as vezes invento a mim mesma porque a vida por si só é coisa pouca. Não basta – ao menos pra mim é preciso mais…
5. Quais as vantagens e desvantagens de ter um blogue? Vantagem? Conhecer pessoas de todos os lugares, com diferentes perspectivas… Desvantagem ter pouco tempo para xícaras de café dentro da tarde. Nem sempre o outro está disponível ou perto o bastante…
6. Qual o local mais bonito que já visitou? Numa das muitas fugas praticadas por mim aos doze anos, quando eu estava a descobrir o mundo, descobri essa estrada de terra, com árvores dos dois lados e pequenas casas ao fundo que me levou de encontro à um lugarejo onde havia essa casa com apenas uma janela e uma porta – ambas abertas. Uma criança brincava no imenso jardim e uma árvore imensa deixava sua sombra espalhar-se por cima da casa que era bem menor que a frondosa árvore. Uma senhora preparava o jantar em um fogão improvisado no que parecia ser uma varanda improvisada. Fiquei horas a observar aquele cenário. Já estive em muitos lugares no mundo, mas aquele lugarejo segue aqui dentro de mim.
7. Diga qual é para si, a sua viagem de sonho. Viajar pela Europa na companhia do meu menino. Será algo novo. Conheço muitos lugares, mas ele não. Então será tudo novo pra nós dois. Quero levá-lo a Coimbra. Toscana. Barcelona. Paris.
8. Qual é o seu doce favorito? Tisamissu
9. Diga um filme que a tenha marcado. Apenas um? Sério? Tem pelo menos uma meia dúzia. Enfim: Melhor é impossível com Jack Nicholson.
10. Confidencie-nos o seu maior defeito. Tenho dúzias de defeitos e citar apenas um é quase um atentado, mas sou perfeccionista – embora eu considere isso uma qualidade (risos múltiplos)
11. Conte-nos a sua maior qualidade! A indiferença – eu explico. Não dou a mínima para o que os outros pensam e dizem sobre mim. Sou egoísta por natureza e queria que as pessoas fossem assim também porque o mundo seria mais simples. Pensar em si evita que a pessoa tenha tempo para se ocupar do outro. O egoísmo faz com que a gente seja melhor. Eu sei que muita gente não concorda com isso, mas eu me importo com as pessoas que amo, mas não me intrometo na vida delas porque é isso: é a vida delas…  Não mantenho minha existancia atrelada a vida do outro que passa ao lado. Observo pessoas o tempo todo, mas não as trago para junto de mim – mantendo-as a uma distancia segura sempre que possível. (risos)

As perguntas que faço?

Para 1. Tatiana Kielberman 2. Letícia Alves 3. Ingrid Caldas 4. Mariana Gouveia 5. Inês Nougueira 6. Edilma Maria 7. Isa Lisboa 8. Thelma Ramalho 9. JoaKim Antônio 10. Inge Lobato 11. Raquel Stanick

1. Para a cabeça? 2. Para os ouvidos? 3. Para os olhos? 4. Para as mãos? 5. Para o coração? 6. Na xícara? 7. Na mesa? 8. Na prateleira? 9. Para os pés? 10. Crepúsculo ou aurora? 11. E no fim do dia?

Novembro,

Em face de outros mil disfarces
que o tempo reassume a cada passo,
pode pensar-se em todas essas mãos
que emergem como sombras embaçadas
em milhares de quartos mobiliados.

T.S.Eliot – pág. 79

Aconteceu de repente, bem no meio da tarde... as nuvens foram chegando risonhas por cima dos prédios e, de repente, ouvi aquele estrondo gostoso que fez a casa estremecer por inteira…

Em seguida a atmosfera se deixou pratear por milhares de gotas cristalinas, que resvalavam sonoras no asfalto cinza das ruas.

Fechei os olhos… para melhor sentir na pele e na alma a chuva, o vento e repeti para mim mesma depois de um demorado suspiro: “aconteceu novembro”…

Não faço idéia do que diz o calendário, mas sei o que vai na pele, na alma e também na memória. Vontade de abrir a porta dos armários e descer as roupas de inverno…

Calma, eu sei que será verão por aqui… mas a minha matéria nunca abandonou de todo o lugar de onde vim, talvez por isso ainda seja estrangeira nessas terras. E já me conformei com a minha realidade.

Talvez por isso eu apenas vista esse silêncio… típico de quem não percebe o cenário onde se está… o dia e o mês no calendário, apenas se ocupe de sentir os aromas e provar das cores.

É novembro!