Aconteceu dezembro há pouco…

DSC_0080_thumb.jpg

Sou alheia ao calendário – desde sempre… e geralmente me esqueço das festividades que percorrem a cidade, o país, o mundo e sua realidade particular…

O Natal, no entanto, cada vez chega mais cedo… com suas luzes piscantes e enfeites estranhos. Nesse ano… chegou em meados de outubro… com os muros das casas e fachadas de prédios cobertos por luzes e enfeites mirabolantes; mas há qualquer coisa estranha no ar… e eu não sei dizer se é no mundo ou se é apenas em mim…

As luzes da cidade parecem ser as mesmas dos outros anos… parece que não foram removidas, apenas acesas. As pessoas estão a exibir qualquer coisa de indiferença em seus gestos. Nem mesmo parece dezembro… nas revistas pipocam sugestões de como sobreviver as festas de fim de ano; apontam caminhos para os solitários e deprimidos, número que cresce assustadoramente de um ano para o outro…

Talvez qualquer coisa se acenda na última hora – quando a mesa estiver posta, a ceia pronta e as pessoas reunidas para a comilança…

Anúncios

3.Não só de cafés vivem os loucos…

“Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens
enquanto a alma, no puro sopro da madrugada,
se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante
vê o que os outros viajantes,
ao passarem pelos mesmos lugares, vêem O olhar
de cada um, sobre as coisas do mundo é único,
não se confunde com nenhum outro”.

Al Berto

Caríssima J.

…cai à noite lá fora, por cima da cidade com suas ruas ainda em “movimento”. Passa das oito… o dia foi longo – aqui dentro da pele e lá fora, nas calçadas que induzem as ruas. Minha alma está em desacordo com os ritmos da minha mente que alucina cenários vários. Vasculho janelas alheias: pequenos quadrados iluminados como se fossem molduras para as histórias que seguem acontecendo em meu íntimo. Imagino o que vai além das cortinas esbranquiçadas da terceira janela no prédio da frente…

Um senhor aprecia os carros parados na Alameda. Solitário… e com os olhos embriagados, ele parece não reparar no tempo que permanece debruçado em sua janela. Há rugas bastantes em seu rosto o que me leva a medir sua idade – coisa pouco comum a mim… ele deve estar a bordo dos noventa anos.

Vive entre paredes alugadas, os móveis antigos vieram de outra casa, mais aconchegante… da qual se despediu por não suportar certos fantasmas. Há tempos ele está sozinho. Há tempos que seu refúgio é uma garrafa de Genebra para a qual sempre volta em busca de abrigo-aconchego. É a forma mais humana de abrandar as ausências que trinta e seis anos de vida incomum deixaram em sua pele…

Pronto… ele percebeu meu olhar e fechou a janela de maneira abrupta, como quem expulsa uma visita indesejada de casa. E cá estou eu a deriva novamente, a escrever-te dessa varanda de infinitas possibilidades. É quase natal… e as pessoas se apressam em compras. Não vivo esses ritmos. Está tão quente… o asfalto exala o calor dos trópicos e tudo que eu queria era uma xícara de qualquer coisa quente, mas com todo esse verão, não será possível.

Vou voltar aos rascunhos que tirei da gaveta e me atracar as linhas que seguem em paralelo a vida daquele senhor em sua janela de existir. Me fale de ti… de teu ano novo e de tuas andanças.

 

bacio