Navega-se sem mar, sem vela ou navio…

“Como se alguém realmente soubesse de minha vida um nada,
quando até eu, eu mesmo, tantas vezes sinto que pouco sei ou nada sei
da verdadeira vida que é a minha: somente uns poucos traços
apagados, uns dados espalhados e uns desvios, que eu busco
para uso próprio, marcando o caminho daqui afora”.


>> Walt Whitman

Eu não sei fazer retrospectivas.
Não sei pesar os dias — medir as horas.

Sei fechar um livro… e permanecer dentro das páginas, como se fosse um cenário-lugar, o meu café entre esquinas — a mesa ao canto, o pedido feito no caixa, o nome anotado com caneta preta no copo branco de papel e aquele tempo sagrado-necessário de espera… permeado por sons-aromas e um bocado de silêncio meu.

O olhar foge pela paisagem urbana, onde se amontoam figuras estranhas, que atravessam ruas, dobram esquinas, avançam seguras-perdidas-desorientadas por suas realidades frágeis…

Ficção e realidade sem pausas!

Dois mil e treze foi um ano estranho — não foi bom, mas também não foi ruim. Teve suas coisas — como de costume — e eu tive as minhas… nem tudo deu certo, nem todos os planos vingaram.

Catarina aconteceu
E isso deveria ser o bastante…

Dois mil e treze não foi um ano inteiro, mas teve seus trezentos e tantos dias para o calendário, com seus doze meses, suas muitas semanas e dias. Eu fiquei à deriva das minhas emoções — de novo e de novo e de novo —, a pensar uma realidade entre páginas.

Reli antigos livros.
Virei páginas conhecidas.
Bebi incontáveis xícaras de café.
Sai para andar um sem-fim de vezes.

E, enquanto tomava café ali nesse novo cenário-velho… entre esquinas — solucei esse desejo: alinhavar livros, mas é um sonho impossível nesse momento-contemporâneo… A realidade local é feita de prateleiras… Os escritores desejam ver seus leitores enfileirados para o autógrafo e os livros empilhados  na prateleira das livrarias, com um código de barros a determinar sua existência.

A grande maioria, no entanto, acaba mesmo é com caixas embaixo da cama.
Tão comum esse cenário… Não afaga as minhas necessidade, não combina com o humano que forjei neste meu corpo.

Dois mil e treze… ainda está aqui — talvez porque seja outro tempo o que vivo… alheia a forma-fôrma. Vivo o tempo de Catarina — a quem o teclado concede vida-existência — e sua escrita sem compromissos, permeada por idas e vindas… que está mais para o estilo antigo: um talhar sonoro por paredes de cimento branco.

Não é janeiro e se fosse… seria o mês regido por Janus — o deus que ousa olhar para frente e para trás… assim como um blogue, que é um dia anterior a depender — estranhamente — do dia seguinte para ser o que se é. Fosse janeiro… eu estaria a ouvir os fogos nas praias, avenidas e ruas. A escutar o estouro da rolha, o tirintintar das taças e as mesmas velhas e gastas promessas seriam feitas.

Mas é Dezembro e o ano ainda é o mesmo, o de ontem — o que começou há trezentos e tantos dias com as mesmas coisas de sempre: promessas não cumpridas e listas de coisas desfeitas, esquecidas, perdidas. Escrevi uma carta para o futuro para ser aberta minutos antes da meia-noite… e repetir o ritual iniciado na infância. Todo ano digo que não, mas faltando cinco minutos para a meia-noite, sento-me e escrevo.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

9 comentários em “Navega-se sem mar, sem vela ou navio…

  1. Nas madrugadas insones devanear entre realidades imaginárias é mesmo dos poetas e ‘loucos’. Não só de café, mas também de palavras de boas e deliciosas palavras vivemos. Gosto de olhar o mundo por outros olhos que não os de perto, e fica a sensação de estarmos juntos,

    Gostei muito florzinha, Amo seus ‘tons vermelhos’, ‘seu sótão’… e agora me divirto com Catarina e fico imaginano como surgiu

    beijocas

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