4. Dentro de uma sexta-feira, a promessa se cumpre…

São Paulo, 31 de janeiro de 2014…

 

Que ruas melancólicas! Quarteirões e quarteirões de escuridão de um e de outro lado, não de casas; aqui e ali um lampião que parece uma vela tremeluzindo sobre um túmulo. A essa hora da noite do último dia da semana, aquele bairro da cidade estava totalmente deserto. Mas afinal me aproximei de uma luz fumarenta procedente de uma construção baixa e larga cuja porta se encontra convidativamente aberta. Seu aspecto era descuidado, como se fosse destinada ao uso do público; assim que entrei, a primeira coisa que fiz foi tropeçar em uma caixa de cinza, colocada no saguão. Ah! pensei enquanto as partículas voadoras quase me sufocavam. Serão essas as cinzas da destruída cidade de Gomorra?

Trecho de Moby Dick

moby-dick-010


Caríssima R.

 

A manhã é essa coisa esbranquiçada a gritar movimentos desatentos por todos os lados… o cão, como de costume… dorme ao lado no sofá, indiferente aos movimentos do dia que segue sua sina de sexta-feira.

Eu não  sou uma pessoa de sextas-feiras… é um dia de excessos-enganos-desaforos. Eu vou para o canto do corpo, da casa… para ficar quieta, alheia a essa realidade. Prefiro as segundas-feiras… sol ameno nas manhãs coloridas, nuvens esbranquiçadas pouco depois do meio dia, um livro de poesia sobre a mesa do canto, um latte bem feito, servido no famoso copo branco com a sereia verde de duas caldas.

Sou uma pessoa comum, que gosta de ir mais devagar… acordar aos poucos… percorrer pequenas distancias, sentir as superfícies que o pé tateia… passo a passo. Tomar conta dos espaços. Sentir as texturas das paredes ou apenas me perder nas arquiteturas dos prédios e casas… enquanto o cão faz suas visitas aos postes e árvores.

Eu gosto imenso de um fim de tarde com sabores de chá silvestre… uma canção a se repetir: o som crescente e rouco de um velho blues, pouco antes das seis. A página de um caderno de capa vermelha vazia, a espera das palavras que irão moldar ‘memórias futuras’.

Gosto de ir até a prateleira e voltar com um livro… e, dessa vez, foi Moby Dick que saltou para as minhas mãos. Já li esse livro incontáveis vezes ao longo dessa minha vida, contada em um punhado de anos, devidamente acumulados nos cantos da pele. Gosto imenso das sombras que ele desenha em minha superfície. Não sei se você sabe, mas o nome do café onde trabalha é uma homenagem ao senhor Starbuck, personagem desse romance, escrito por Herman Melville…

“Ainda podemos desistir, mesmo hoje sendo o terceiro dia.
Vê! Moby Dick não te procura. És tu, que loucamente, busca por ele!”

Esse trecho me fez recordar a sua figura… em fuga, indo em direção as calçadas. Lembro-me de ter ficado alguns minutos a espiar seus movimentos de um lado ao outro… indócil e incrédula, a tragar pesado seu cigarro, como se esperasse algo diferente do que teve para si, em nosso breve encontro. Você falou de si… e eu fiz o que gosto de fazer… ouvi as palavras que soltava no ar num quase-sem-voz.

Depois que deixou comigo um abraço, rascunhei qualquer coisa sobre o momento numa folha de papel e guardei dentro de um livro… porque a minha escrita é sempre para depois. E, mesmo sem saber, você me brindou com promessas futuras, a mais preciosa de todas… a sua amizade – minha Moby Dick.

bacio

Anúncios

Condição in natura: rascunho…

questao-em-aberto

O corpo sobre a cama… a tarde a encerrar o dia e a casa cheia de luz. Lá fora o vento a cantar ‘abril’ e a varrer os cenários que chegam em pares a janela da frente. O cão veio me fazer companhia — like always.

Ele sabe como ninguém dos desesperos semeados em meu íntimo… disse a ele, em voz alta: ‘depois de tantos rascunhos acumulados ao longo dos últimos anos, chegou a hora de abandonar essa condição infeliz’.

Ele pousou seu olhar cúmplice em minha superfície e com seu sorriso-canino se mostrou disposto a participar dessa trajetória, que pode levar uma vida inteira para acontecer…

Acuso, contudo, o desconforto de não saber navegar nesse mar de águas revoltas. Voltei ao calhamaço de folhas, onde adormece essa história infeliz, dividida em míseros três capítulos. Li incontáveis vezes, as muitas cenas, que ali se amontoam… e a única certeza que floresceu em minha pele-alma: é que quero navegar. Mas ainda não consegui desatar o nó dessa embarcação, que segue presa a esse cais… que sou.

Patrick com sua genialidade canina — que não cabe aos humanos — me convidou a um passeio pelo bairro. Ele sabe — como ninguém — que quando a minha mente entra em colapso, o que me salva são os passos…

Diário das minhas insanidades

O hoje sangra, o amanhã lancina

— T.S.Eliot —


 

Comecei a fazer terapia aos doze anos… conselho de C., que percebeu minha angústia… motivada — obviamente — pela escrita em fase de enraizamento…

Era confuso multiplicar-me em tantas figuras… personagens que surgiam em mim, me transformando em outra pessoa num piscar de olhos. Um constante vestir e despir de si mesma.

Era igualmente estranho me precipitar às pessoas… sabendo-as antes mesmo que dissessem alguma coisa sobre si… interpretando-as como se fossem personagens de uma história lida milhares de vezes…

Eu não tenho — nunca tive — poderes paranormais! As precipitações aconteciam — acontecem — através dos detalhes da matéria… aos quais estou sempre atenta: o corpo fala, os olhos gritam e as mãos confessam-se… mas a maioria das pessoas são naturalmente desatentas e não percebem as migalhas que são deixadas pelo caminho a todo e qualquer momento… todas as coisas que trazemos em nós dizem muito de quem somos — hoje eu sei; ontem, no entanto, eu me sentia a andar em ruas cobertas de gelo…

…nada como a sabedoria do dia seguinte para nos fazer compreender as manifestações na própria pele. Pena que não seja algo imediato… leva-se tempo para se chegar as conclusões, tão necessárias e até lá, a loucura é o único argumento a fazer algum sentido.

É tão mais simples concluir que estamos a enlouquecer que navegar nesse mar revolto em busca do que não sabemos e nem sempre estamos dispostos a conhecer…

É verão e tudo arde por aqui…

Veja-capa-mentira

 

…sim, é noite lá fora e para pôr um fim nesse dia, coloquei Led Zepelim para girar na vitrola… e me afastei gradativamente da realidade. porque nos últimos dias, o mundo lá de fora, anda chato demais. E com o Verão a fazer arder tudo o que toca, fica mais difícil respirar…

Durante as compras no supermercado, dentro do fim de tarde… enquanto aguardava minha vez na imensa fila do caixa… espiei rapidamente a capa da revista Veja dessa semana, que exibe a chamada para uma matéria sobre a ciência ter descoberto: “as faces da mentira”. Sorri e solucei ao mesmo tempo…

E depois de pensar uma dúzia de coisas… reparei, no alto da página, em tamanho reduzido outra chamada: “a estética do choque, a ousadia dos artistas num tempo em que tudo ofende e nada espanta“. Solucei de novo…

Eu vivo em estado permanente de espanto… basta sair as ruas e tropeçar em humanos. Não dá para ser diferente.

Me lembrei de um punhado de coisas que vi essa semana no “face book“… esse não lugar no mundo, para pessoas, que gostam de se exibir: é um cenário demasiadamente barulhento, que desconhece a arte de fazer silêncio e, que, comumente, me faz pensar em um açougue… com aquelas carnes penduradas, os cartazes coloridos a anunciar o tipo e o preço… e o cheiro forte da realidade-humana-indigesta…

Todo mundo entende de tudo ali e estão aptos a julgar e condenar o outro a partir de si mesmos. Um bando de gente sem espelhos, que não quer ser criticada-questionada e quer apenas viver na ‘face book land’…

Já desliguei a televisão, aboli os jornais e revistas… meu próximo ato será o de cometer ‘facebookcidio‘.

Realidade demais… me causa azia.

 

Escrevo enquanto percorro calçadas…

escrevo-enquanto-caminho.jpg

Sai com o cão para fazer a minha caminhada habitual pelas ruas do bairro, que é esse lugar estranho… casas sem alma, praças sem bancos… com estranhos contornos, calçadas sem passos… e pessoas sem pele.

É um cenário que me lembra cidades fantasmas, pelas quais passei rapidamente durante viagens de reconhecimento. Não consigo me encontrar nesse bairro com ruas em pares, vielas escuras-obtusas e esquinas vazias.

Desde 2010 que ando por aí… a praça Alzira Ferraz é o meu limite a Sul. Percorro seus contornos de um lado para o outro, com as mãos enfiadas nos bolsos da calça e o cão ao lado. Ele ronda o caule de todas árvores enquanto eu piso o chão de cimento irregular…

Foi ‘tateando’ esse cenário que me ocorreu as primeiras linhas dessa história que voltou a minha pele na última chuva. A cada passo dado… um capítulo foi se desenhando naturalmente. Escrevi na própria pele, no chão, nas árvores… enquanto o cão confeccionava seu mapa particular de movimentos.

Voltamos para casa, conscientes de que ‘vida não nos falta’… e a realidade é essa coisa composta por horas e mais horas que alimentam o meu imaginário. Depois veio a parte ‘mais fácil’: transbordar-sangrar-vivenciar-escrever…

Tudo que de fato preciso é de um canto a parte de tudo… dois cigarros, uma xícara de café, um pouco de silencio e a nudez de minha alma.

Eu disse que era a parte mais fácil… não disse?