5. Tenho uma almofada feita de memories…

São Paulo, dentro da madrugada e seus espaços seguros…

 

“Nós somos os homens ocos | os homens empalhados
uns nos outros amparados | O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas, | Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas |Como o vento na relva seca”

– T.S.Eliot

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Caríssima M.,

 

Essas linhas surgiram durante o ‘nosso pequeno diálogo entre janelas’ — é o que seu blogue é para mim: uma janela aberta para a sua realidade, que daqui… me parece singular e deliciosa… eu tenho paixão por janelas, desde a infância. Não para espiar realidades alheias, e sim para imaginá-las. Lembro-me que na infância, certa vez… um forte vento fez voar as cortinas pelos ares e essa cena me encantou. Fiquei a observar aquele movimento enquanto pude, arrastada que eu era pelas ruas por A., sempre ligeira em seus passos.

Enquanto lia suas linhas, em movimento pela cidade — dentro do ônibus — embaralhei as realidades… e, me pus a tatear algumas de minhas lembranças. Recordei, e não sei dizer a razão, duas personagens ‘folclóricas’ de minha infância.

Elas eram irmãs-vizinhas-e-tagarelas… abriam suas janelas para as ruas — todas as manhãs — sempre no mesmo horário… para fazer o que mais gostavam: tomar conta da vida alheia. Eu acenava para elas — sempre que passava por lá — com minha mão direita e seus cinco dedos pequeninos. E elas devolviam — em pares — o aceno. Pareciam felizes por ter a quem acenar.

C., por sua vez, não se dignava a fazer movimento… não tinha nenhum tipo de sentimento pelas “velhas alcoviteiras”. Fingia não percebê-las em seus espaços particulares. Olhar reto, passos mais firmes e no ar a indiferença de quem não se importa com a figura do outro. Eu, enquanto menina de meio metro – se tanto – achava aquelas duas senhoras, muito engraçadas. Mas, era a única na rua a me divertir com elas.

Elas causaram muitas desavenças… por ouvir o que lhe interessavam e contar apenas o que que desejavam. Muitas de suas falas eram inventadas-aumentadas… e os estragos contabilizados na vizinhança.

Eu gosto de me ocupar dessas lembranças, como se estivesse a transitar pelos espaços urbanos, a caminho do cinema para mais um filme no melhor estilo ‘sessão da tarde’. Aliás, adoro ir ao cinema no meio da tarde… como se nada mais tivesse eu para fazer, apenas tomar o meu lugar numa confortável cadeira. O cinema praticamente vazio. A realidade guardada no bolso… e a ilusão a se propagar a estibordo.

Quando vier a Sampa, vou te levar para essas caminhadas… será como refazer os passos, numa espécie de re-viver. Você vem?

Bacio

Os cafés da cidade…

 

Passa da uma — a cidade arde — e tudo parece banhado por um falso dourado, que desenha sombras pelas calçadas do bairro. Arrastei o meu corpo para fora, levando-o até o café entre esquinas… aquele com sua sereia de duas caudas, que herdou o nome do personagem do livro Moby Dick.

Sentada na mesa mais ao canto — lugar que gosto e prefiro — aprecio alguns movimentos até me distanciar totalmente deles. Algo em mim se desliga… e, as palavras povoam os meus hemisférios todos.

É sobre esse ato de escrever em cafés… a matéria da Revista literária Plural. Tornou-se um hábito comum na cidade da garoa: trabalhar-estudar-escrever nos famosos cafés descolados, que ocupam as principais esquinas da cidade. Ainda há muitas pessoas que não compreendem a “nova mania”, que desembarcou na Paulicéia do Mário… ainda que tardiamente.

Quando cheguei por aqui, trouxe esse ‘velho hábito’ na bagagem… me lembro de alguns cafés europeus, onde escritores tinham cadeira cativas e ‘seus donos’ — como cães abanar a cauda — anunciavam eufóricos os livros, que ali haviam sido concebidos… exibindo eufóricos as fotografias de seus ‘clientes famosos’.

Eu ainda me lembro do desconforto demonstrado por alguns garçons — em um velho café do Alto da Lapa — que se incomodavam com a minha presença. Eles passavam inúmeras vezes pela minha mesa e pareciam contar as inúmeras xícaras de café — machiatto, ristreto, com ou sem gengibre… sempre sem açúcar. 

Passado algum tempo, a minha ausência passou a ser motivo de preocupação. Se mostravam aliviados quando eu ultrapassava a porta. Não demorou para se mostrarem satisfeitos em antecipar-se ao meu pedido. Bastava levantar o dedo para ouvir  a voz rouca-satisfeita do rapaz indagar: ‘machiatto?’…

Certa vez um deles — ao trazer minha xícara de café — quis saber: “o que tanto escreve nesse computador?”… e, a resposta espalhou-se pelos quatro cantos do lugar — trazendo a gerente a minha mesa. Acabou o sossego…

Em formato artesanal, meu primeiro livro foi lançado ali mesmo… os “amigos do café” receberam exemplares em mãos e diziam, com estranho prazer, que iriam ler e comentar.

A gerente já não é mais a mesma, mas antes de embarcar para sua viagem, fez questão de me apresentar ao ‘novo diretor’… e, dizer a ele, que a minha mesa (reservada) é a do canto junto a janela — de onde posso observar as pessoas, colher pedaços de diálogos e, descobrir personagens…

E sempre que alguém me pergunta: como consigo trabalhar em um lugar assim… recordo esses momentos singulares. Minha escrita pressupõe movimento e me pede essa ‘viagem atemporal’, que me leva de encontro a esse lugar confortável… a mesa da cozinha nas férias de verão, com seu horizonte particular e o cheiro delicioso do café feito pelo nono a transbordar sensações.

Me organizo por inteira… dou rumo aos meus personagens, escrevo minhas linhas em pares, traço diálogos entre nós duas — a criança que eu fui e a adulta que finjo ser.  Tudo isso… entre um gole e outro de café…

Virginia Woolf disse, em suas linhas, que todo escritor precisa de um quarto para organizar suas palavras — mas eu vou na contramão de sua voz aguda, porque eu só preciso de um café numa das esquinas da cidade…

Status atual: personagem em gestação…

Pouco depois do lanche… com um livro em mãos — o jogo do anjo — fui me sentar — estrategicamente, no canto oposto ao de minha hóspede… que disse com a voz-rouca-pouca, que gostou da casa, do bairro, das pessoas e também {ela deveria dizer principalmente} do cão… que não demonstrou interesse algum no carinho que ela lhe oferece. E sinto que fica ao lado dela, apenas para que eu possa fingir que estou a observá-lo e não a ela… ele é um menino terrivelmente delicioso.

…naveguei por cada um dos movimentos inquietantes de S., …que parecia em chamas. Percebi sua necessidade, baseada no vicio. Suas falas erráticas — todas as sílabas saltavam de sua boca, como se caíssem diretamente num abismo. Suas mãos tremiam descontroladas, presas de histeria… e as baforadas se multiplicavam, ao mesmo tempo em que as angústias se agigantavam em sua mortalha. Quando amassou a bituca de cigarro — jogada no chão num gesto de fúria — foi como se estivesse a atacar a si mesma, num desespero de auto-destruição.

S., encontrou um canto para seu corpo… do lado de fora, no primeiro degrau, perto do portão. Ali, passou a traçar uma rota de fuga… como se as grades do portão fossem as mesmas que engaiolam a sua alma.

Ela evitou as conversas desde a sua chegada, apenas ouve e exibe um sorriso forçado. Sente um terrível medo do que poderia deixar escapar de si. E o meu olhar também… do qual foge insistentemente por sentir que estou a desbravá-la, como se fosse uma mata selvagem, sem trilhas e com mato alto.

Mas, nisso ela está certa. Cada vez que esbarro em sua anatomia, aprendo algo novo e demoro a retornar de lá. Me coloco em estado consciente de ebulição… foi assim que percebi que sua vida é uma farsa, narrada centenas de vezes, numa inútil tentativa de convencer a si mesma e obrigar-se a uma realidade que não lhe desce.

Ela está aqui porque deu um passo — inesperado — para fora de si… e não tem certeza de que pisou em chão firme. Ela colheu promessas em seus lábios, em seu corpo… que fizeram a ‘bela adormecida’ despertar. Mas ela não acredita em conto de fadas… e consciente de que está a se afundar em águas desconhecidas… repete constantemente para si, as palavras da mãe — é a sua prece para momentos de desespero…

S., permanece fechada em manhãs inexistentes, onde se obriga a despertar com pesados goles de café — adormecidos nas xícaras. Embala qualquer coisa de tristeza na pele… sua vida… sua história… sua carta náutica… e diante do espelho repete seu desespero: ‘é apenas mais uma fase difícil’… mas não é a primeira e nem será a última. Ela respira fundo, engole as lágrimas e entoa seu mantra: ‘sou uma mulher realizada e feliz’… não se convence, mas vai repetir até esgotar as incertezas.

Diario das minhas insanidades, 03

“Enche-se de novo o silêncio de vozes despertas,
e de poços, e de portas entreabertas,
e sonham no escuro as coisas acabadas”.

Manuel António Pina

 

…durante os anos vividos em Coimbra, conheci D., homem de quase cinquenta e dono de um belo olhar enigmático. Figura obscura-abstrata… seu desenho não cabia dentro do corpo que habitava. Era um homem de poucas palavras… com talento para ouvir o outro…

Seu ambiente de trabalho era um porão, onde os cheiros se multiplicavam… do café que ele bebia antes de começar a sessão… ao uísque que o ajudava com as notas que tomava em um caderno de couro marrom…

Em suas prateleiras se multiplicavam os livros de grandes pensadores… clássicos da literatura — velhos e gastos. Os mais novos eram de autores desconhecidos do público, que ele recebia para cinquenta minutos de conversa.

Cheguei até ele… indicada que fui por um professor, com quem comentei que precisava urgentemente retomar a terapia.

Assim que me sentei na velha poltrona de couro gasto… ele se posicionou em seu lugar, cruzou as pernas e disse vamos primeiro as respostas porque as perguntas sempre chegam depois, como as aves que voltam para casa no final da tarde“…

Reconheci de imediato a fala… era um verso de Manoel Pina e foi o que me fez ficar!

D., tinha um cão — um Labrador negro chamado Jerry — que se sentava ao seu lado e ganhava afagos durante as sessões… os dois me espiavam com atenção e cuidado, mas confesso que era com o cão que eu traçava o meu diálogo. Era em seu silêncio-canino que eu confiava minhas falas…

Me despedi de D., e de seu cão… no verão de dois mil e dois… ele me disse com sua voz rouca-pouca: “eu sei o que você procura, mas lhe aviso: não existe cura, tratamento ou remédio… para a loucura. O mais saudável é se deixar enlouquecer. No entanto, é preciso algum cuidado: são poucos os que são de fato capazes de se permitir a loucura. A maioria de nós teme enlouquecer porque não é todo mundo que consegue sonhar no escuro”…

Guardei a frase no bolso e, atravessei o oceano!

Roteiros de vida…

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Pouco depois das quatro a campainha soou pelos cômodos da casa… tínhamos visita, foi o que ‘disse’ Patrick — o mais humano dos cães — com seus resmungos de ocasião. Sempre me divirto com suas interferências caninas.

Sometimes, ele dispara pelos cômodos da casa, assim que o um barulho qualquer o alcança… mas, sometimes, ele apenas levanta a cabeça e reclama, como se dissesse: ‘vai embora, não estou disposto, não quero ser incomodado’. Foi exatamente o que fez hoje… como se soubesse da febre em minha pele. Estou doente de saudades ‘de meu homem’ e não há nada que possa a fazer quanto a isso… escolhi me repetir: combinar ingredientes e escrever missivas, enquanto folheio livros de Campos e Cecília — insólita combinação…

A ‘visita’ veio para a cozinha — trazida pelo mio bambino, que também tem suas curiosas formas de sonoridades. Introduziu S., e sua amiga de viagem, que me atravessou com sua falta de expressão.

Tomamos uma xícara de chá fumegante, comemos uma fatia generosa de bolo e os diálogos distribuíram as novidades. A., parecia não ter voz, apenas um sorriso sem moldura na face dourada de sol. Mas, bastou que seu corpo sentisse qualquer coisa de aconchego na velha cadeira de madeira para que as consoantes e vogais se encadeassem em incontáveis frases. Soube de sua ‘profissão’, do motivo de sua vinda à São Paulo, dos seus planos e projetos de vida… dos dois filhos, do marido maravilhoso e de sua realidade colorida. E fez questão de ressaltar, como se desenhasse aspas na frase: ‘sou uma mulher realizada e feliz‘. Não me convenceu… mas eu sorri, como sempre faço nessas horas.

Me interessei muito mais pelo que ela não disse… A., nasceu e cresceu numa cidade pequena, com pessoas igualmente pequenas. Mudou-se um sem fim de vezes depois do casamento, um arranjo entre famílias para curar o desassossego da menina. O corpo-alma só conheceu um pouso depois do nascimento dos filhos, quando finalmente teve uma casa para si.

Ela fez questão de exibir a foto dos filhos, do marido, dos dois cachorros, da casa… e ressaltou em voz alta, em meio a um sorriso falsificado, a bênção que é ter uma família.

Ah, os benditos roteiros de uma vida…