Os cafés da cidade…

 

2017-03-05 14.12.58-1


Sentada na mesa mais ao canto — lugar que gosto e prefiro — aprecio movimentos em pares até me distanciar totalmente deles… algo em mim se desliga e, eu escrevo no ar,  antes de ser palavra no papel

É sobre esse ato de escrever em café a matéria da Revista Plural — volume de março. Tornou-se um hábito comum na terra da garoa: trabalhar, estudar, escrever, conversar, ler… numa aconchegante mesa de um dos muitos cafés descolados que brotam pelos quatro cantos da Paulicéia.

Na Europa e na América do Norte… é comum os escritores terem uma cadeira para chamar de sua… e ‘os donos’ — como cães abanar a cauda — anunciam eufóricos os livros, escritos-concebidos entre um gole e outro de latte e exibem satisfeitos as fotografias de seus ‘clientes famosos’.

Eu me lembro — não faz muito tempo —, do espanto que causei em alguns garçons, que não entendiam a minha presença diária. Eu escolhia a mesa — ritual que se repete — e tomava conta do espaço com o notebook-cadernos-livros e dúzias de xícaras de café. Eles passavam inúmeras vezes pela minha mesa e pareciam contar as xícaras de café consumidas — machiatto, ristreto, com ou sem gengibre… pareciam não se conformar.

Passado algum tempo, a minha ausência passou a ser motivo de preocupação. Se mostravam aliviados quando eu ultrapassava a porta. Não demorou para se mostrarem satisfeitos em antecipar-se ao meu pedido. Bastava levantar o dedo para ouvir  a voz rouca-satisfeita do rapaz indagar: ‘machiatto?’ — como se houvesse uma sequência natural em meus atos de degustadora de café.

Certa vez um deles — ao trazer minha xícara de café — quis saber: “o que tanto escreve nesse computador?”… e, a resposta espalhou-se pelos quatro cantos do lugar — trazendo a gerente a minha mesa. Acabou o sossego…

Em formato artesanal, meu primeiro livro foi lançado ali mesmo… os “amigos do café” receberam exemplares em mãos e diziam, com estranho prazer, que iriam ler e comentar. Eu me divertia ao tentar imaginar o que seria pensamento a meu respeito depois disso. Era apenas um experimento. Um escrito para agradar a mim e a ninguém mais. Não tinha preocupação com absolutamente nada… e, confesso que sinto saudades desse tempo em que a escrita era livre, sem amarras e acontecia por acontecer somente, entre goles.

Virginia Woolf disse, em suas linhas, que todo escritor precisa de um quarto para organizar suas palavras — mas eu vou na contramão de sua voz aguda, porque eu só preciso de um café numa das esquinas da cidade…

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