Status atual: personagem em gestação…

Pouco depois do lanche… com um livro em mãos — o jogo do anjo — fui me sentar — estrategicamente, no canto oposto ao de minha hóspede… que disse com a voz-rouca-pouca, que gostou da casa, do bairro, das pessoas e também {ela deveria dizer principalmente} do cão… que não demonstrou interesse algum no carinho que ela lhe oferece. E sinto que fica ao lado dela, apenas para que eu possa fingir que estou a observá-lo e não a ela… ele é um menino terrivelmente delicioso.

…naveguei por cada um dos movimentos inquietantes de S., …que parecia em chamas. Percebi sua necessidade, baseada no vicio. Suas falas erráticas — todas as sílabas saltavam de sua boca, como se caíssem diretamente num abismo. Suas mãos tremiam descontroladas, presas de histeria… e as baforadas se multiplicavam, ao mesmo tempo em que as angústias se agigantavam em sua mortalha. Quando amassou a bituca de cigarro — jogada no chão num gesto de fúria — foi como se estivesse a atacar a si mesma, num desespero de auto-destruição.

S., encontrou um canto para seu corpo… do lado de fora, no primeiro degrau, perto do portão. Ali, passou a traçar uma rota de fuga… como se as grades do portão fossem as mesmas que engaiolam a sua alma.

Ela evitou as conversas desde a sua chegada, apenas ouve e exibe um sorriso forçado. Sente um terrível medo do que poderia deixar escapar de si. E o meu olhar também… do qual foge insistentemente por sentir que estou a desbravá-la, como se fosse uma mata selvagem, sem trilhas e com mato alto.

Mas, nisso ela está certa. Cada vez que esbarro em sua anatomia, aprendo algo novo e demoro a retornar de lá. Me coloco em estado consciente de ebulição… foi assim que percebi que sua vida é uma farsa, narrada centenas de vezes, numa inútil tentativa de convencer a si mesma e obrigar-se a uma realidade que não lhe desce.

Ela está aqui porque deu um passo — inesperado — para fora de si… e não tem certeza de que pisou em chão firme. Ela colheu promessas em seus lábios, em seu corpo… que fizeram a ‘bela adormecida’ despertar. Mas ela não acredita em conto de fadas… e consciente de que está a se afundar em águas desconhecidas… repete constantemente para si, as palavras da mãe — é a sua prece para momentos de desespero…

S., permanece fechada em manhãs inexistentes, onde se obriga a despertar com pesados goles de café — adormecidos nas xícaras. Embala qualquer coisa de tristeza na pele… sua vida… sua história… sua carta náutica… e diante do espelho repete seu desespero: ‘é apenas mais uma fase difícil’… mas não é a primeira e nem será a última. Ela respira fundo, engole as lágrimas e entoa seu mantra: ‘sou uma mulher realizada e feliz’… não se convence, mas vai repetir até esgotar as incertezas.

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10 comentários sobre “Status atual: personagem em gestação…

  1. Mariana Gouveia disse:

    Seus textos sempre me comove e quando leio de ti, imagino que tu deve enxergar entre as paredes e pronto!
    Sou eu a personagem.
    bacio

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