Nem sempre a alma volta para casa,

Bairro Recoleta - Buenos Aires

 

Meia dúzia de passos até a varanda… com uma xícara de chá em mãos e um bom punhado de silêncio na pele… embriagada por esse sentir que não se orienta.

O olhar esbarra em um sem-fim de coisas e não gruda-fica em nada. Tudo abstrato a liquefazer-se… quadros, prateleiras, o velho relógio verde, que insiste em dizer as horas, sempre em pares.

Sinto a textura das coisas na ponta dos dedos… refaço os passos, contando-os. Da varanda a cozinha, para o quarto e o banheiro.  A vida e suas muitas formas variáveis…

Voltei há pouco… mas — like always — parte de mim ficou pelo caminho. Ainda está lá a atravessar a Corrientes… a entrar e sair de teatros-livrarias-e-cafés. A descobrir cenários, que não estavam lá, no ano passado… porque tudo é sempre novo-e-velho a minha passagem.

Gosto de deixar um pouco para depois… não gosto de beber de uma só vez todos os lugares. Prefiro tragar as geografias, sorvendo-as lentamente para que no dia seguinte exista qualquer coisa de saudade.

Ainda estou sentada no meio da tarde… naquele jardim dos fundos com suas mesas coloridas e o verde a crescer pelos cantos que encontra. A degustar um doce chá de maçã enquanto “abano” o calor… e desejo o que existe de ameno no outono.

Ainda estou a sentir os aromas de fim de tarde… a vida mais lenta, os diálogos em língua estrangeira e os sorrisos eternizados nas fotos instantâneas… enquanto risco meia dúzia de palavras numa folha de papel e penso em alguém.

Ainda estou por lá…

…amor a segunda vista!

“Só pense no passado quando
as lembranças lhe trouxerem prazer!”

“Orgulho e preconceito”

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Faz algum tempo que considero ‘orgulho e preconceito’ um cúmplice do meu outono… basta acontecer a estação das folhas secas para eu buscar o livro na prateleira e sentir em minha pele a velha {conhecida} sensação… de primeira vez.

Devoro o livro com a ansiedade típica de quem torce para que, na última página, Mr. Darcy conquiste a teimosa Elizabeth Bennet. Eu sei, que esse é o desfecho da trama, mas é o caminhar pelas páginas até o ‘happy end’ que me fascina… a maneira como Jane Austen alinhavou uma das mais fascinantes histórias de amor… que sobrevive e parece se reinventar.

Os fatos se misturam… os desenhos se formam… os olhares se atravessam… as palavras e todas as formas de silêncios se precipitam! Os acenos ficam presos nos dedos das mãos… e o beijo que nem mesmo foi escrito acontece… para o leitor mais atento, que o enxerga nas entrelinhas de uma trama, que não tem pressa de acontecer. Podemos sentir todas as precipitações que antecedem ao toque.

Às vezes, o ensejo do beijo é muito mais interessante e fascinante que o próprio beijo. Quantas vezes não somos tragados pela vontade que se encerra? A pele anuncia a premissa e nós a vivemos, apenas do lado de dentro… é como fumaça, que num instante está lá e no outro é levada pelo vento, para longe dos olhos…

Jane Austen soube dosar as reações de seus personagens. Até um vilão entra em cena para desviar por alguns instantes a atenção de uma Elizabeth Bennet… ferida em seu orgulho, pela fala aguda de Darcy — ‘ela é bonita, mas não o bastante para mim‘. O troco vem algumas páginas depois, quando ele completamente apaixonado se declara — ‘em vão tentei lutar contra o que sinto. Mas de nada adiantou. Não posso reprimir meus sentimentos. Permita que eu lhe diga como são ardentes os meus sentimentos e a minha admiração por você’.

Ler Orgulho e Preconceito é lembrar que o amor não é para os dias de hoje… onde tudo é para ontem. A pressa se estabeleceu nos olhos, nos movimentos, nas falas de todos nós, por toda a parte.

Amor é coisa para depois… amanhã, como no filme ‘e o vento levou’. Pede dedicação, entrega… cuidados e, sobretudo, tempo para existir. Pede que a gente desperte sem o outro e ainda assim no outro. Pede que a gente silencie e suspire e conte os passos até estar diante do olhar que te despe e veste ao mesmo tempo. Pede um pouco mais de alma-calma… que a gente se acostume ao que é defeito-qualidade-efeito.

Ler ‘orgulho e preconceito’ é aprender que o dia seguinte está a um minuto de nós, mas esse breve instante pode ser como aquele estranho que passa por nós, sem tempo para ficar nos nossos olhos.

Alamedas com nomes de pássaros…

Mudar de bairro em uma cidade como São Paulo é o mesmo que mudar de cidade… ainda mais quando você se encontra no meio de um processo de escrita em que a rotina é um dos elementos essenciais.

Estava acostumada a caminhar pelas ruas em pares, longas, entrecortadas por vielas do Alto da Lapa… esbarrando diariamente nas silhuetas envelhecidas das casas e suas janelas sempre fechadas.

Gostava de ouvir o ‘meu menino’ a narrar ‘a outra Era’… quando as ruas eram habitadas por humanos conhecidos, que sabiam acenar e partilhar a vida em diálogos matinais. Agora é apenas um punhado de casas e ruas vazias, rostos envelhecidos, humanos indispostos para o outro, a vida… e fechados em suas casas-masmorras cercadas por muros altos-eletrificados-e-vigiados.

Agora residimos numa Alameda com nome de pássaro… as ruas por aqui dificilmente se esvaziam e Patrick já desenhou seus mapas de lugares favoritos. Uma praça sem bancos, entre prédios altos, com espaço bastante para suas corridas insanas. Caminhamos os dois, a observar cada porta, janela, esquina… avançamos sem pressa e descobrimos lugares para os pés, os olhos e também a alma.

Há uma sorveteria italiana numa esquina e na outra, uma boulangerie… feira as quartas e domingos. O famoso café ‘entre esquinas’ fica algumas ruas para cima.  Cães risonhos levam seus humanos faceiros para passeios demorados…

Descobrimos pela manhã a ‘praça dos cães’, que Patrick provou e gostou. Depois de correr sem trégua pelos arredores… tombou exausto na grama, deixando seu metro de língua para fora. Fazia tempo não o via tão feliz.

Meu menino, que acusou estranhamento ao trocar de cenário, já se mostra satisfeito com os novos ares…  e passou a concorrer com o cão pelos momentos de passeios pelas ruas e alamedas do bairro.

Enquanto escrevo estas linhas, avisto uma janela aberta e percebo um senhor debruçado junto ao parapeito… a observar os movimentos lá embaixo. Me junto a ele nessa paisagem ‘impregnada pela solidão de Hopper’… por um segundo — e quase imponho a mão o movimento de um aceno. Respiro fundo e volto a escrever minhas linhas… preciso me ater a minha trama, antes que volte a condição de rascunho e acabe novamente abandonada dentro de uma maldita gaveta.

6. Um elogio a sombra…

As ruas de Buenos Aires | já são minhas entranhas.
Não as ávidas ruas | incômodas de turba e de agitação,
mas as ruas entediadas do bairro, quase invisíveis

 Jorge Luiz Borges

Caríssimo,


Tenho para mim, que todas as cidades são iguais… com suas ruas estreitas ou longas, uma esquina depois da outra. Suas vitrines iluminadas… e seus muitos cafés “presos” às esquinas.

Uma cidade tem casas, prédios… e nesse cenário milhares de janelas se perfazem. Os diálogos se proliferam à sombra, que emerge nas calçadas, bem debaixo de suas árvores. As luzes foscas se acendem quando a noite esparrama seu abstrato surreal — quando tudo são sombras a escorrer aos nossos olhos. Os humanos deixam de ser tão assustadores… porque dentro da noite há esse aconchego inusitado…

Todas as cidades são iguais — guardam estranhezas em cada rua, que os pés descobrem. E vez ou outra exibem simpatias em acenos inesperados, que nos alcança-toca e se esfumaça no passo seguinte.

E o que mais me toca nas cidades… são os anciãos, que não acalentam a pressa tão comum aos primeiros anos de vida. Aprendo com eles a não atropelar os passos, a guardar as mãos nos bolsos da calça e sorrir a quem passa.

Eles gostam de contar as suas vivências… e folhear com raro prazer, as páginas de suas histórias. Ontem, pela manhã, ao visitar uma praça no Palermo, um signore me contou como era a cidade, em seu tempo de ragazzo. Com a voz embargada por uma melancolia gostosa que o fez inserir algumas pausas em sua fala… narrou as mudanças, acompanhadas por ele, sem alegria… mas ressaltou — com um nó na garganta — o que ainda estava preservado… demonstrando visivelmente o medo que sente em ver o que lhe resta de cidade: desaparecer.

E ao me despedir — depois de um bom par de horas de conversa — ele se mostrou satisfeito com a prosa… ‘seria tão bom se os jovens tivessem mais tempo para ouvir’. Seria bom concordo. Mas temos pressa porque a maioria de nós os vê como destino de si mesmos e querem fazer tudo que não fizeram e acabamos a deriva e reclamamos da falta de tempo.

Ah meu caro, as cidades são todas iguais — mudam os nomes das ruas, bairros e o próprio nome que as orientam nos mapas humanos. Mas no fundo… são apenas um combinado de símbolos, que alinhavados — faz de nós meros personagens em movimentos insensatos.

Buenos Aires é apenas mais um capítulo nessa trama real dos meus dias, com prefácio assinado por Jorge Luiz Borges — um item a  mais para a ‘minha caixa de sapato’…

 

Au revoir