Alamedas com nomes de pássaros…

Mudar de bairro em uma cidade como São Paulo é o mesmo que mudar de cidade… ainda mais quando você se encontra no meio de um processo de escrita em que a rotina é um dos elementos essenciais.

Estava acostumada a caminhar pelas ruas em pares, longas, entrecortadas por vielas do Alto da Lapa… esbarrando diariamente nas silhuetas envelhecidas das casas e suas janelas sempre fechadas.

Gostava de ouvir o ‘meu menino’ a narrar ‘a outra Era’… quando as ruas eram habitadas por humanos conhecidos, que sabiam acenar e partilhar a vida em diálogos matinais. Agora é apenas um punhado de casas e ruas vazias, rostos envelhecidos, humanos indispostos para o outro, a vida… e fechados em suas casas-masmorras cercadas por muros altos-eletrificados-e-vigiados.

Agora residimos numa Alameda com nome de pássaro… as ruas por aqui dificilmente se esvaziam e Patrick já desenhou seus mapas de lugares favoritos. Uma praça sem bancos, entre prédios altos, com espaço bastante para suas corridas insanas. Caminhamos os dois, a observar cada porta, janela, esquina… avançamos sem pressa e descobrimos lugares para os pés, os olhos e também a alma.

Há uma sorveteria italiana numa esquina e na outra, uma boulangerie… feira as quartas e domingos. O famoso café ‘entre esquinas’ fica algumas ruas para cima.  Cães risonhos levam seus humanos faceiros para passeios demorados…

Descobrimos pela manhã a ‘praça dos cães’, que Patrick provou e gostou. Depois de correr sem trégua pelos arredores… tombou exausto na grama, deixando seu metro de língua para fora. Fazia tempo não o via tão feliz.

Meu menino, que acusou estranhamento ao trocar de cenário, já se mostra satisfeito com os novos ares…  e passou a concorrer com o cão pelos momentos de passeios pelas ruas e alamedas do bairro.

Enquanto escrevo estas linhas, avisto uma janela aberta e percebo um senhor debruçado junto ao parapeito… a observar os movimentos lá embaixo. Me junto a ele nessa paisagem ‘impregnada pela solidão de Hopper’… por um segundo — e quase imponho a mão o movimento de um aceno. Respiro fundo e volto a escrever minhas linhas… preciso me ater a minha trama, antes que volte a condição de rascunho e acabe novamente abandonada dentro de uma maldita gaveta.

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Um comentário sobre “Alamedas com nomes de pássaros…

  1. Frasco de Memórias disse:

    Ainda bem que não ficou na gaveta, Lunna!
    Todos nos ressentimos com a comparação com a “outra Era”: passámos a escrever mais no computador mas a falar muito menos.
    Vamos continuar a escrever mas temos de pôr a língua a falar.
    Bacio!

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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