Diário das minhas insanidades, 04

Não, não rezes por mim.
Nenhum deus me perdoa a humanidade.
Vim sem vontade
E vou desesperado.
Mas assinei a vida que vivi.
Doeu-me o que sofri.
Fui sempre o senhorio do meu fado.

Miguel Torga

 

Sai de casa pouco depois das cinco… mergulhei nos contornos conhecidos da cidade.. Atropelei algumas figuras estranhas. Esbarrei em anatomias muitas e cheguei ao destino do dia:  um luxuoso prédio na Avenida Paulista, onde W., me recebeu… pontualmente as dezoito horas e cinquenta e sete minutos.

A decoração de seu espaço é clássica… com móveis escuros, pesadas cortinas igualmente escuras, tapetes pelo chão… alguns vasos a preencher os cantos com galhos secos artificiais. Visivelmente coisa alheia. Foi pensada para ser parte da psicanalista — não da mulher.

O divã foi colocado — intencionalmete — junto à janela… para os que gostam de se deitar enquanto narram seus dramas. Duas poltronas de couro preto estão bem posicionadas de frente uma para a outro bem no meio do ambiente — junto à uma mesinha que repousa serena em um belo tapete de fios. Uma luminária com luz amarela acolhedora completa o cenário. Está ali para inspirar os amantes do diálogo-café-e-espaço. Na prateleira, atrás da mesa de vidro, há um punhado de livros em estado in-to-cá-vel, alguns retratos, objetos pequenos. Uma sequência de elefante — item que parece fazer parte de uma coleção particular da psicanalista…

W. é uma senhora elegante… seu nome se exibe — seguido de dois sobrenomes — numa plaquinha prateada na porta. Cinco diplomas estão fixados na pela parede cor de creme — corr serena, terapêuta…

A mulher não tem espaço no ambiente de trabalho… ela se fecha em concha: sem filhos ou marido. Mas o gato está presente em duas fotos em cima da mesa…  ao lado de anotações sobre os que entram e saem de suas análises…

Ela tem os cabelos bem cortados… usa roupas caras e um punhado de jóias douradas nos dedos, braços, pescoço e orelhas. Tem o olhar atento às coisas frágeis; sua fala é cuidadosamente planejada e, às vezes, deixa existir um sorriso ávido-arisco em seus lábios vermelhos.

Sua especialidade é saber decifrar o outro através do combinado de vogais e consoantes, que podem ou não, ser separados por vírgulas-pontos-exclamações-e/ou-interrogações…

Ela toma nota de tudo… nada escapa de sua fiel companheira: uma linda caneta Parker, que foi dada a ela — certamente — pelo marido… o homem que lhe deu um dos brilhantes que ostenta na mão esquerda.

Escolhi a poltrona por razões óbvias… coisas que eu trouxe da infância. Gosto da maneira como meu corpo se acomoda e relaxa. Nunca gostei de divãs… que me coloca de frente para o teto e seu branco nada singular.

Enquanto sentia a textura do coro preto junto ao meu corpo… tentava imaginar uma canção qualquer para ser a trilha sonora do momento… porque eu sou o tipo de pessoa que precisa de música para existir, como se minha existência fosse parte integrante de uma cena de filme ou novela, onde a música conduz os acontecimentos.

W. se sentou imediatamente à minha frente, com seu bloco de notas e caneta em mãos. Olhou-me por alguns segundos, numa espécie de varredura da minha matéria. Parecia esperar que eu dissesse alguma coisa… e como não o fiz, ela se precipitou a mim: “a pessoa que te indicou me disse que tem apego pelo abismo, mas não me disse se você ensaia o salto ou se vive em queda“…

O meu sorriso, decerto, denunciou a tempestade que sou…  acredito desde sempre que, se uma pessoa vai abandonar o silêncio e se dedicar ao barulho… é preciso ser como o Albatroz na poesia de Baudelaire “busca a tempestade e ri da flecha no ar“…

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Uma lua… no papel!

uma lua no papel

…depois de descobrir uma livraria numa dessas ruas com nome de pássaros e relembrar os meus dias em Coimbra, quando ao sair nos intervalos longos-e-demorados das aulas… descobria cenários inusitados — vasculhei as poucas prateleiras do lugar e, curiosamente, acabei por esbarrar em um livro de poesias portuguesas… da poeta Ana Luíza Amaral. Provei de seus versos ali mesmo e foi como viajar-vagar no tempo e espaço, voltando as manhãs de minha infância.

De posse do livro, o cão e eu fomos para o ‘café entre esquinas’ ocupar nossa mesa a sombra. E enquanto ele observava os movimentos e ganhava afagos dos baristas — que foram seduzidos por ele… eu virava as páginas com a calma típica de quem observa a si mesma no espelho.

Alguns goles de latte mais tarde… descobri um poema-pele, que ficou em mim, grudou na pele feito tatuagem. Tomei nota de seus versos em meu velho-amigo-diário, na pele, na alma e no ar, enquanto avançava calçadas, na volta para casa…

Sim, eu voltei a escrever… em diários de papel também!

 


Poema: ‘lua de papel’
Ana Luísa Amaral

Se eu cantasse o amor sem resultado ou sem causa,
seria mais sensata: chegava-me uma lua de papel,
um par de braços lisos, conformados

Se eu cantasse o amor sem causa ou resultado,
tinha muito mais paz: fingida em lua-cheias,
seria mais sensata e decerto poeta bem melhor

Assim o que me resta é lua cheia a
transbordar de tridimensional. A paz a falhar toda
e eu resolvida em causa a insistir papel. E amor.