Lançamento | Lua de Papel {livro um}

Por Tatiana Kielberman

 

projeto paralelo, in lançamento lua de papel

07 de agosto de 2014. Quinta-feira, 20h. Noite aparentemente comum nas ruas de São Paulo. Trânsito, caos, trabalho, assuntos rotineiros, compromissos, cansaço, cara amassada, chega-logo-por-favor-final-de-semana!

Mas… não era este o clima que envolvia os amigos mais próximos de Lunna Guedes, que se reuniram para conferir e prestigiar o primeiro livro da escritora — “Lua de Papel” — lançado pelo selo Plural Scenarium, em modelo artesanal, com costura oriental.

O cenário escolhido não poderia ter sido mais próprio: a Starbucks da Alameda Santos – sua segunda casa — onde grande parte do enredo foi pensado, idealizado e construído… sempre com café, é claro!

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Ao adquirirem o livro, os presentes receberam um “misterioso” pacote envolto por papel branco, que só poderia ser aberto em instante posterior — diante da Lunna, para o tão esperado autógrafo…

Ao desfazerem o embrulho, qual a surpresa? O livro não estava costurado… mas é possível dizer que grande parte dos convidados já aguardava algo surpreendente assim.. afinal, se tudo já viesse pronto, não seria mesmo uma obra de Lunna Guedes…

Enquanto costurava cada um dos livros — de maneira personalizada, como já é praxe em seu trabalho —, Lunna aproveitou para tecer diálogos, trocar sorrisos e sentir a emoção contagiante em seu entorno. Olhares e abraços denunciavam o calor do momento — único não apenas para Lunna, mas para todos que acompanharam os detalhes do projeto, desde o início…

A atriz Carla Martelli também marcou presença no evento, interpretando um belíssimo trecho da novela, que deixou os presentes ainda mais curiosos para degustar as páginas de “Lua de Papel”…

Foi, enfim, uma noite de completude, onde estivemos ali, como fãs e admiradores de Lunna — e agora de Lua — para aplaudir mais uma conquista.

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09 – Eu me lembrei de você… em mim!

Imaginar não é lembrar-se. Certamente uma lembrança,

à medida que se atualiza, tende a viver numa imagem:

mas a reciproca não é verdadeira, e a imagem pura e simples

não me reportará ao passado a menos que seja

efetivamente no passado que eu vá buscá-la,

seguindo assim o pregresso contínuo que

a trouxe da obscuridade à luz

Henri Bergson

 

 

08 DE AGOSTO

 

Caríssima C.,

 

Fui para a cozinha preparar um pão na chapa… e enquanto cortava o pão ao meio e passava a manteiga, para em seguida debruçá-lo na frigideira quente dourando-o dos dois lados, como me ensinou a fazer… me lembrei de nossas conversas no meio da tarde, do seu silêncio e seu olhar agudo-guloso-sempre-atento.

Gosto quando você chega sem avisar, com seus rituais de vida — que repito no automático — e se mistura a minha realidade… feito tempestade — a me ocupar-povoar… sem escolher dia-hora-lugar. Apenas me pega pelo braço e me leva pelos seus caminhos primaveris… caminhar a sua cidade, espiar suas pessoas, tragar do ar úmido e perfumado por suas flores de laranjeira. Te ouço falar em mar, céu azul enquanto planeja o fim de semana e aprecia os movimentos humanos-urbanos.

Recordo nós duas… sentadas à mesa daquela padaria na rua de seu trabalho… e, você a pedir dois pães na chapa. Foi preciso desprender tempo e palavras para explicar como deveria ser feito. O rapaz em seu primeiro dia de trabalho se atrapalhou todo… e você, com sua paciência rotineira ensinou a nós dois a ser sempre gentil com as pessoas: “não importa o quanto elas te desafiem, sempre ofereça o seu melhor sorriso. Do lado de dentro você esbraveja e, pronto”.

Nunca consegui imaginar o seu interior em estado de fúria. Raiva nunca foi uma palavra sua. Seu corpo sempre transbordava paz… e seus movimentos uma calma invejável. Enquanto eu era tempestade, você sempre foi calmaria. Até o meu silêncio fazia imenso barulho perto de ti, que sorria… como se reconhecesse todos os meus tumultos herdados de ‘seu menino’. Você me dizia com a voz, os gestos e o corpo inteiro: ‘menos’ e eu latejava fúria — bufava.

Sempre que estou prestes a perder a calma e transbordar… me lembro de sua lucidez e acabo por me perder em incontidos sorrisos. Me reorganizo em míseros segundos. Acho que você acharia graça de meus movimentos dentro do dia e por saber-me: ‘menina das palavras’, como disse que eu seria, e eu retrucava — insistia no contrário. Você tinha razão… mas, não me arrependo por ter tentado outros caminhos — porque aprendi com você que o importante é caminhar… e foi exatamente o que eu fiz. Aprendi lugares. Desaprendi pessoas… fui barco a deriva, em busca de cais. E sempre que atraco em algum porto, me lembro de ti…

 

À tout à l’heure!

 

Diário das minhas insanidades, 06

ORAÇÕES E POEMAS SÃO A MESMA COISA:
PALAVRAS QUE PRONUNCIAMOS A PARTIR DO SILÊNCIO,
PEDINDO QUE O SILÊNCIO NOS FALE.

Rubem Alves


Atravessei a Paulista com meus passos lentos — sem pressa — como tanto gosto… a galope — como sempre digo… ou imagino! Alcancei o edifício de vidro com suas figuras múltiplas — janelas sempre azuis… quarenta minutos depois.

Adentrei o elevador no térreo e pouco depois cheguei ao último andar, onde eu era esperada  para cinquenta minutos de diálogo… mas o que gostaria mesmo era de pagar por cinquenta minutos de silêncio…

É tão difícil permanecer muda, calada… todos me pedem palavras, às vezes, até eu mesma me cobro diálogos inteiros: absolutos-únicos… definitivos! Me cobro pelo que não suporto ou tolero. Se eu pudesse permaneceria em meu íntimo — calada… durante dias-semanas-meses-anos… talvez!

Mas o silêncio incomoda, fere… obriga o outro ao lado de dentro — esse lugar estranho, impossível de permanecer para as pessoas contemporâneas, que emitem todos os tipos de sons. E de tão acostumadas aos sons, já não são capazes de ouvir ao outro, tampouco a si mesmas — como se tivessem desaprendido a arte de ouvir…

Quer enlouquecer alguém? Fique muda… o humano a sua frente se converte em um prédio de cinco andares e desmorona. Comumente acontece comigo. Causo incômodo nas pessoas a minha volta, que não se detêm em perguntar : ‘por que está tão quieta, hoje?’… e eu apenas exibo o meu sorriso de sempre que parece perguntar ‘hoje?’…

Eu pagaria com imenso prazer por ‘cinquenta minutos de silêncio‘…para permanecer na sala de W, em silêncio… a observar seus gestos e tomá-los para mim, como fez Hopper ao apreciar suas paisagens urbanas para traçar seus ensaios de solitudine.

Mas assim que me sento na velha poltrona de couro ouço a pergunta: ‘como você se sente, hoje?‘… eu sempre respiro fundo, observo o cenário, os espaços entre os móveis, me certifico que os porta-retratos estão nos mesmos lugares. Verifico os títulos dos livros e quase me esqueço da pergunta feita….

onde gosto de permanecer a salvo da realidade diária das pessoas e suas tolices… a colecionar imagens, paisagens… aglutinar frases inteiras e, quando em movimento pelas calçadas da cidade… notas mentais se organizam em linhas retas — deliciosamente imaginárias… entrego a ela meu tradicional sorriso branco-morno… que vai num crescente agudo pelos meus lábios, acomodando-se num canto qualquer da pele-alma… e, embora deseje permanecer em silêncio… respiro fundo e, me arremesso nesse mar bravio de palavras…