Diário das minhas insanidades, 06

ORAÇÕES E POEMAS SÃO A MESMA COISA:
PALAVRAS QUE PRONUNCIAMOS A PARTIR DO SILÊNCIO,
PEDINDO QUE O SILÊNCIO NOS FALE.

Rubem Alves


Atravessei a Paulista com meus passos lentos — sem pressa — como tanto gosto… a galope — como sempre digo… ou imagino! Alcancei o edifício de vidro com suas figuras múltiplas — janelas sempre azuis… quarenta minutos depois.

Adentrei o elevador no térreo e pouco depois cheguei ao último andar, onde eu era esperada  para cinquenta minutos de diálogo… mas o que gostaria mesmo era de pagar por cinquenta minutos de silêncio…

É tão difícil permanecer muda, calada… todos me pedem palavras, às vezes, até eu mesma me cobro diálogos inteiros: absolutos-únicos… definitivos! Me cobro pelo que não suporto ou tolero. Se eu pudesse permaneceria em meu íntimo — calada… durante dias-semanas-meses-anos… talvez!

Mas o silêncio incomoda, fere… obriga o outro ao lado de dentro — esse lugar estranho, impossível de permanecer para as pessoas contemporâneas, que emitem todos os tipos de sons. E de tão acostumadas aos sons, já não são capazes de ouvir ao outro, tampouco a si mesmas — como se tivessem desaprendido a arte de ouvir…

Quer enlouquecer alguém? Fique muda… o humano a sua frente se converte em um prédio de cinco andares e desmorona. Comumente acontece comigo. Causo incômodo nas pessoas a minha volta, que não se detêm em perguntar : ‘por que está tão quieta, hoje?’… e eu apenas exibo o meu sorriso de sempre que parece perguntar ‘hoje?’…

Eu pagaria com imenso prazer por ‘cinquenta minutos de silêncio‘…para permanecer na sala de W, em silêncio… a observar seus gestos e tomá-los para mim, como fez Hopper ao apreciar suas paisagens urbanas para traçar seus ensaios de solitudine.

Mas assim que me sento na velha poltrona de couro ouço a pergunta: ‘como você se sente, hoje?‘… eu sempre respiro fundo, observo o cenário, os espaços entre os móveis, me certifico que os porta-retratos estão nos mesmos lugares. Verifico os títulos dos livros e quase me esqueço da pergunta feita….

onde gosto de permanecer a salvo da realidade diária das pessoas e suas tolices… a colecionar imagens, paisagens… aglutinar frases inteiras e, quando em movimento pelas calçadas da cidade… notas mentais se organizam em linhas retas — deliciosamente imaginárias… entrego a ela meu tradicional sorriso branco-morno… que vai num crescente agudo pelos meus lábios, acomodando-se num canto qualquer da pele-alma… e, embora deseje permanecer em silêncio… respiro fundo e, me arremesso nesse mar bravio de palavras…

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