Oração para esse dia em catarse

Sony 044

A mesa ao canto a minha espera… o livro que carrego comigo para as horas em que a mente já não deseja mais organizar uma única frase. O copo branco de café. A esquina a dizer a pressa dos homens que nada sabem de si mesmos e tampouco dos caminhos que tem para os pés.

O azul cru no céu… com suas nuvens esbranquiçadas a chegar — promessa de chuva? Talvez — o vento frio, vindo do norte a espalhar folhas da estação pelo chão… E as flores? Pelo visto ficaram para depois. O outono finalmente resolveu se aconchegar, mas pode ser coisa de momento… tudo muda tão rapidamente por aqui.

A jabuticabeira — atrapalhada com o desmando das estações — não fez frutos esse ano, mas permitiu um ninho em seu galho. A futura mamãe espia de longe os movimentos humanos de um lado para o outro. Parece tranquila-segura…

Hoje eu fumaria um cigarro se tivesse vícios… culpa da autora que insiste em mim, com sua figura esfumaçada. Vontade que passa… Amém!

Escrevo o meu passado para não perdê-lo de vista…

…”uma memória tão clara, tão linda, tão além das possibilidades.
Sei disso.
Minha mente é clara como vidro”…
Sebastian Barry, os escritos secretos

veronica petrova

 

A casa ficou vazia pouco depois das seis, quando – finalmente – todos os destinos já estavam definidos. Foram saindo um a um, com olhares apertados e cabeças baixas – a maioria: desgostosa… não acenou, tampouco disse uma única palavra de afeto! Apenas foi embora, sem ao menos olhar para trás.

As malas estavam prontas: calças, camisetas, meias, lingeries… tudo em pares. Janelas e portas trancadas, móveis cobertos por finos lençóis brancos  – como se fazem nos filmes antigos – onde vivem os fantasmas… sobraram apenas duas pessoas, as últimas a deixarem o lugar na manhã seguinte, imediatamente no primeiro horário.

Ficaram para trás os rastros… deixados pela família, que viveu no velho casarão ao final da rua – alguns gostam de dizer ser o começo, mas, como sempre vieram da outra ponta, era para eles o fim… contudo, para quem vem de outros caminhos, é mesmo o começo, afinal, a casa guarda o número quatro…

Restaram também as inúmeras vozes… Dizem sorrisos aos montes, frases entrecortadas por sons de beijos, abraços… dizem uma alegria infinita e também uma tristeza miúda. Dá para ouvir o toque fino dos cristais em brindes festivos, músicas antigas se repetindo num sem-fim que agrada e páginas sendo viradas em certos cantos encantados, onde poltronas velhas sabem ser o destino de corpos dentro da noite. Na cozinha, há o som das panelas, xícaras e talheres. Há um sem-número de sons que se pode ouvir se deixar as orelhas grudadas junto às paredes por um só minuto… mas ninguém se aventura a fazer tal coisa!

Existe um medo de que a doença que assolava a família se espalhe… eram todos loucos os que ali viviam, porque estranhamente viviam sorrindo. Eram pessoas satisfeitas… que repetiam rituais estranhos, como se sentar à mesa da cozinha para as refeições… ocupar a varanda para o café da manhã e, nos finais de semana, quando recebiam parentes e amigos – a casa estava sempre cheia – e eles celebravam como se a vida fosse uma grande festa.

A matriarca da família se sentava nos degraus da casa ao final da tarde para ler contos indianos e esperar por aquele que vinha assobiando do norte, como se fosse o próprio vento… as crianças voavam pelos ares nos braços do homem da casa… e encontravam biscoitos coloridos nos potes de alimentos. Nos jardins se brincava de roda e jogos de amarelinha. Todos os membros da família da casa número da quatro da Via Cantore esperavam pelas mudanças das estações com euforia, reconhecendo os aromas dentro dos dias. Certa vez, foram surpreendidos em pleno outono, esperando pelo voo de uma folha. Ninguém – obviamente – compreendia essas coisas.

Mas, passado tanto tempo, ainda consigo encaixar meus pés nas pegadas que seguem grudadas no chão… percorro os mesmos espaços da casa, como se o dia de ontem continuasse existindo – em segurança – aqui dentro de mim. Eu ainda consigo ouvir as mesmas vozes a dizerem conselhos comuns: “não esqueça a blusa, vai esfriar…” – “leva o guarda-chuva, porque vai chover…”. Frases que não foram consideradas nas primeiras vezes, mas que hoje são ecos sonoros a conduzirem meus movimentos, aonde quer que eu vá… ainda ouço as mesmas perguntas seno feitas, como se o tempo tivesse feito uma pausa: “chá de menta ou camomila?” – “qual livro vamos ler hoje?” Vez ou outra, ainda vejo passar por mim uma menina-miúda-risonha com seus sons de infância feliz… ela para, olha para mim e sorri, estende a mão e faz o convite: “você não vem?”…

… é quando me lembro de que alguém disse – no dia seguinte – que eu iria esquecer… seria apenas uma questão de tempo. Foi o bastante para o pânico grudar em minha anatomia. Já havia tanta coisa esquecida-perdida dentro de mim e tinham se passado tão poucas horas. As coisas já não estavam mais onde costumavam estar. Minha mente estava uma bagunça… um tremendo caos – cartas embaralhadas – um tabuleiro sem damas –, porta-retratos sem fotografias, paredes sem quadros… absolutamente tudo fora de lugar!

Repetia a frase alheia, incansavelmente: “será apenas uma questão de tempo”… e, como promessa que se cumpre, as feições foram perdendo a nitidez, cobertas por uma fina camada esbranquiçada – neblinas vindas de algum canto de minha própria existência – eu já não sabia seus traços e, no fundo do espelho, acontecia um rosto que não dizia os meus. De repente, havia me transformado em uma estranha com olhos pequenos, cabelos castanhos encaracolados e a pele branca… objeto impróprio, verbo que não se conjuga, substantivo comum.  Desapareci de mim mesma naquela manhã de agosto!

O medo é uma catarse definitiva, aguda… que sepulta vivos no lugar dos mortos e deixa os mortos à deriva, como se estivessem confusos com sua condição.

Foi preciso atear fogo em meus diários, rasgar todas as fotografias e cruzar o oceano. Foi preciso acabar, desfalecer e me desorganizar inteira… para saber se tratar de uma falácia.

Certas coisas a gente não esquece!

Diario das minhas insanidades, 07

“In the name of the Bee — And of the Butterfly
And of the Breeze — Amen!”

Emily Dickinson


“vamos na mesma direção” anunciou para meu desconforto quando eu passava pela porta.  Precisei respirar fundo para não dispensar o convite e seguir meu caminho de passos estreitos e lentos. Chovia fortemente na cidade — chuva de verão dentro da noite — e eu lhe causaria preocupações desnecessárias — foi o que me fez ficar e esperar. Conheço bem tais alegações… elas gritam em meu íntimo: ‘leva guarda-chuva, vai chover’ — ‘não esquece a blusa de frio’…

Enquanto esperava… apreciei o céu da Paulicéia ‘nada’ desvairada… que se iluminava de tempos em tempos — com seus múltiplos relâmpagos, seguidos de agudos trovões. Um belo espetáculo da natureza para os meus olhos mas, principalmente para a minha alma.

A bordo do carro, seguimos pelo Corredor Norte e Sul — caminho de casa.  W., fez questão de dizer em voz alta e com um sorriso sarcástico nos lábios “não se preocupe, não seremos amigas e você nunca irá para a sua cozinha preparar um daqueles pratos típicos, como presente de aniversário para mim”.  — ela parecia satisfeita por, supostamente, se antecipar o meu pensamento.

Ela ligou o rádio como se o movimento fosse uma continuidade de sua fala, permitindo que Turandot se precipitasse entre nós… e foi o bastante para o silêncio se acomodar em nossos corpos — enquanto nos apoderávamos do que acontecia ao nosso redor: o asfalto molhado, poças largas pelo caminho, os veículos em alta velocidade, os faróis vermelhos de um lado e brancos do outro……

W., dirige com calma e segurança… segura firme o volante com as duas mãos. Não tira os olhos da pista e do retrovisor. É atenta a si mesma e aos outros… e não se importa de ser ultrapassada por outros veículos. Ela não gosta de dirigir, mas também não suporta a idéia de que alguém conduza seu carro do ano — com cor e modelo escolhidos de acordo com o seu perfil.

Vinte e dois minutos depois… ela estacionou em frente ao prédio em que moro. Segundos antes de eu me despedir, ela fez a pergunta que embalou em seu íntimo durante todo o percurso: “ainda não sei por que a noite é tão importante para você! Pode me dizer?”…

W., me olhou com seus olhos de águia no escuro… tudo muito rápido — e esperou. Uma vida inteira atravessou a minha matéria. Pensei em Cecilia Meireles, que esperava o filho dormir para escrever suas linhas. Em Jane Austen que aguardava pelos últimos instantes da madrugada para começar a escrever… porque gostava de amanhecer. Em Emily Dickinson, que saboreava o silêncio da casa, dentro das noites insones.

Investiguei a mim mesma rapidamente: lembrei-me da falta de sono… dos livros-palavras — e do fascínio pelo silêncio-escuro-embriagado que a noite sempre me ofereceu e sorri ao recordar a fala de uma personagem que reinou em minha infância ‘é quando caí a noite que a realidade vai dormir‘. Respirei fundo e me abriguei na canção…

W., fez questão de ressaltar que não tinha pressa, logo, esperaria por minha resposta — entreguei a ela um sorriso em sépia, abri a porta do carro, agradeci pela carona e destilei meu veneno: “cada um de nós reza para o ‘deus’ que melhor lhe convém. Amém”.