Diario das minhas insanidades, 07

“In the name of the Bee — And of the Butterfly
And of the Breeze — Amen!”

Emily Dickinson


“vamos na mesma direção” anunciou para meu desconforto quando eu passava pela porta.  Precisei respirar fundo para não dispensar o convite e seguir meu caminho de passos estreitos e lentos. Chovia fortemente na cidade — chuva de verão dentro da noite — e eu lhe causaria preocupações desnecessárias — foi o que me fez ficar e esperar. Conheço bem tais alegações… elas gritam em meu íntimo: ‘leva guarda-chuva, vai chover’ — ‘não esquece a blusa de frio’…

Enquanto esperava… apreciei o céu da Paulicéia ‘nada’ desvairada… que se iluminava de tempos em tempos — com seus múltiplos relâmpagos, seguidos de agudos trovões. Um belo espetáculo da natureza para os meus olhos mas, principalmente para a minha alma.

A bordo do carro, seguimos pelo Corredor Norte e Sul — caminho de casa.  W., fez questão de dizer em voz alta e com um sorriso sarcástico nos lábios “não se preocupe, não seremos amigas e você nunca irá para a sua cozinha preparar um daqueles pratos típicos, como presente de aniversário para mim”.  — ela parecia satisfeita por, supostamente, se antecipar o meu pensamento.

Ela ligou o rádio como se o movimento fosse uma continuidade de sua fala, permitindo que Turandot se precipitasse entre nós… e foi o bastante para o silêncio se acomodar em nossos corpos — enquanto nos apoderávamos do que acontecia ao nosso redor: o asfalto molhado, poças largas pelo caminho, os veículos em alta velocidade, os faróis vermelhos de um lado e brancos do outro……

W., dirige com calma e segurança… segura firme o volante com as duas mãos. Não tira os olhos da pista e do retrovisor. É atenta a si mesma e aos outros… e não se importa de ser ultrapassada por outros veículos. Ela não gosta de dirigir, mas também não suporta a idéia de que alguém conduza seu carro do ano — com cor e modelo escolhidos de acordo com o seu perfil.

Vinte e dois minutos depois… ela estacionou em frente ao prédio em que moro. Segundos antes de eu me despedir, ela fez a pergunta que embalou em seu íntimo durante todo o percurso: “ainda não sei por que a noite é tão importante para você! Pode me dizer?”…

W., me olhou com seus olhos de águia no escuro… tudo muito rápido — e esperou. Uma vida inteira atravessou a minha matéria. Pensei em Cecilia Meireles, que esperava o filho dormir para escrever suas linhas. Em Jane Austen que aguardava pelos últimos instantes da madrugada para começar a escrever… porque gostava de amanhecer. Em Emily Dickinson, que saboreava o silêncio da casa, dentro das noites insones.

Investiguei a mim mesma rapidamente: lembrei-me da falta de sono… dos livros-palavras — e do fascínio pelo silêncio-escuro-embriagado que a noite sempre me ofereceu e sorri ao recordar a fala de uma personagem que reinou em minha infância ‘é quando caí a noite que a realidade vai dormir‘. Respirei fundo e me abriguei na canção…

W., fez questão de ressaltar que não tinha pressa, logo, esperaria por minha resposta — entreguei a ela um sorriso em sépia, abri a porta do carro, agradeci pela carona e destilei meu veneno: “cada um de nós reza para o ‘deus’ que melhor lhe convém. Amém”.

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