Escrevo o meu passado para não perdê-lo de vista…

…”uma memória tão clara, tão linda, tão além das possibilidades.
Sei disso.
Minha mente é clara como vidro”…
Sebastian Barry, os escritos secretos

veronica petrova

 

A casa ficou vazia pouco depois das seis, quando – finalmente – todos os destinos já estavam definidos. Foram saindo um a um, com olhares apertados e cabeças baixas – a maioria: desgostosa… não acenou, tampouco disse uma única palavra de afeto! Apenas foi embora, sem ao menos olhar para trás.

As malas estavam prontas: calças, camisetas, meias, lingeries… tudo em pares. Janelas e portas trancadas, móveis cobertos por finos lençóis brancos  – como se fazem nos filmes antigos – onde vivem os fantasmas… sobraram apenas duas pessoas, as últimas a deixarem o lugar na manhã seguinte, imediatamente no primeiro horário.

Ficaram para trás os rastros… deixados pela família, que viveu no velho casarão ao final da rua – alguns gostam de dizer ser o começo, mas, como sempre vieram da outra ponta, era para eles o fim… contudo, para quem vem de outros caminhos, é mesmo o começo, afinal, a casa guarda o número quatro…

Restaram também as inúmeras vozes… Dizem sorrisos aos montes, frases entrecortadas por sons de beijos, abraços… dizem uma alegria infinita e também uma tristeza miúda. Dá para ouvir o toque fino dos cristais em brindes festivos, músicas antigas se repetindo num sem-fim que agrada e páginas sendo viradas em certos cantos encantados, onde poltronas velhas sabem ser o destino de corpos dentro da noite. Na cozinha, há o som das panelas, xícaras e talheres. Há um sem-número de sons que se pode ouvir se deixar as orelhas grudadas junto às paredes por um só minuto… mas ninguém se aventura a fazer tal coisa!

Existe um medo de que a doença que assolava a família se espalhe… eram todos loucos os que ali viviam, porque estranhamente viviam sorrindo. Eram pessoas satisfeitas… que repetiam rituais estranhos, como se sentar à mesa da cozinha para as refeições… ocupar a varanda para o café da manhã e, nos finais de semana, quando recebiam parentes e amigos – a casa estava sempre cheia – e eles celebravam como se a vida fosse uma grande festa.

A matriarca da família se sentava nos degraus da casa ao final da tarde para ler contos indianos e esperar por aquele que vinha assobiando do norte, como se fosse o próprio vento… as crianças voavam pelos ares nos braços do homem da casa… e encontravam biscoitos coloridos nos potes de alimentos. Nos jardins se brincava de roda e jogos de amarelinha. Todos os membros da família da casa número da quatro da Via Cantore esperavam pelas mudanças das estações com euforia, reconhecendo os aromas dentro dos dias. Certa vez, foram surpreendidos em pleno outono, esperando pelo voo de uma folha. Ninguém – obviamente – compreendia essas coisas.

Mas, passado tanto tempo, ainda consigo encaixar meus pés nas pegadas que seguem grudadas no chão… percorro os mesmos espaços da casa, como se o dia de ontem continuasse existindo – em segurança – aqui dentro de mim. Eu ainda consigo ouvir as mesmas vozes a dizerem conselhos comuns: “não esqueça a blusa, vai esfriar…” – “leva o guarda-chuva, porque vai chover…”. Frases que não foram consideradas nas primeiras vezes, mas que hoje são ecos sonoros a conduzirem meus movimentos, aonde quer que eu vá… ainda ouço as mesmas perguntas seno feitas, como se o tempo tivesse feito uma pausa: “chá de menta ou camomila?” – “qual livro vamos ler hoje?” Vez ou outra, ainda vejo passar por mim uma menina-miúda-risonha com seus sons de infância feliz… ela para, olha para mim e sorri, estende a mão e faz o convite: “você não vem?”…

… é quando me lembro de que alguém disse – no dia seguinte – que eu iria esquecer… seria apenas uma questão de tempo. Foi o bastante para o pânico grudar em minha anatomia. Já havia tanta coisa esquecida-perdida dentro de mim e tinham se passado tão poucas horas. As coisas já não estavam mais onde costumavam estar. Minha mente estava uma bagunça… um tremendo caos – cartas embaralhadas – um tabuleiro sem damas –, porta-retratos sem fotografias, paredes sem quadros… absolutamente tudo fora de lugar!

Repetia a frase alheia, incansavelmente: “será apenas uma questão de tempo”… e, como promessa que se cumpre, as feições foram perdendo a nitidez, cobertas por uma fina camada esbranquiçada – neblinas vindas de algum canto de minha própria existência – eu já não sabia seus traços e, no fundo do espelho, acontecia um rosto que não dizia os meus. De repente, havia me transformado em uma estranha com olhos pequenos, cabelos castanhos encaracolados e a pele branca… objeto impróprio, verbo que não se conjuga, substantivo comum.  Desapareci de mim mesma naquela manhã de agosto!

O medo é uma catarse definitiva, aguda… que sepulta vivos no lugar dos mortos e deixa os mortos à deriva, como se estivessem confusos com sua condição.

Foi preciso atear fogo em meus diários, rasgar todas as fotografias e cruzar o oceano. Foi preciso acabar, desfalecer e me desorganizar inteira… para saber se tratar de uma falácia.

Certas coisas a gente não esquece!

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