Diario das minhas insanidades, 08

“O LUGAR FUGAZ É TÊNUE E É ETERNO
NÃO HAVERÁ OUTRO CÉU NEM OUTRO INFERNO”

jorge luis borges

ponto-de-onibus

Enquanto esperava pelo ônibus no ponto da Avenida Ibirapuera media a ansiedade que atravessava meu íntimo. Ao meu lado aconteciam figuras indômitas, a viver a pressa comum de um final de tarde… todos abstraídos por uma realidade estranha: a tela de seus smartphones… feitos zumbis de uma série estadunidense.

Sai apressada do café entre esquinas, levando comigo os últimos goles de meu latte… avancei esquinas, atravessei ruas — tudo em linha reta. Faltava pouco para as sete horas noturnas e atrasar não era uma possibilidade porque eu queria — desesperadamente — os meus cinquenta minutos com W.

Eu sou — desde a infância — uma criatura voltada para o silêncio. C., me disse certa vez, que eu demorei a me manifestar em falas… e isso causou preocupação em muitas pessoas, que a aconselharam a me levar a um especialista. Repetiam — incansavelmente — que era impossível saber que havia uma criança na casa 141.

…ela, no entanto, preferiu respeitar o meu tempo. Não sei qual foi a primeira palavra proferida por mim. Mas gosto imenso de imaginar possibilidades. É um dos prazeres que embalo naqueles momentos de cansaço. Enfrento o teto branco e ali desenho palavras soltas, figuras minhas. Tenho imenso apreço por algumas palavras: xícara, cuore, giornata, promise, anyway, au reovir, café, pretéritos…

Gosto de observar cenários e degustá-lo, como faço quando tenho em mãos uma bebida bem feita. Gosto de passar algum tempo com as coisas aqui dentro de mim. É como preparar um banquete: escolher os melhores ingredientes, as panelas, os pratos e talheres. Preparar a mesa, o ambiente… escolher a música. E depois de todo esse processo, eu transbordo em frases cuidadosamente preparadas, que mais tarde são convertidas em textos, que tem como destino essa página, onde eu converso com estranhos-e-conhecidos ao mesmo tempo…

Hoje, no entanto, eu não queria escrever… queria falar… ouvir o som de minha própria voz. Mas eu não sou bom com diálogos e por isso, às vezes, me esqueço que tenho voz e, comumente, me esqueço como e fala — como se nem mesmo tivesse aprendido o som das palavras nos dias de menina…

Me acomodei na velha poltrona de couro, de frente para W., e antes que ela fizesse qualquer pergunta, me inaugurei em falas. Meu discurso durou cinquenta preciosos minutos.

Existe uma coisa boa em fazer terapia… ela me garante o que a realidade nem sempre permite: o direito a ser ouvida!

Das coisas que eu gosto…

tento perder a memória
única tarefa que tem a ver com a eternidade
de resto… Creio que nunca ali estivemos
e nada disto provavelmente se passou aqui

Al Berto

De palavras sonoras e fim de tarde com sol resvalando sem força na silhueta dos prédios vizinhos. De vento frio junto a pele causando arrepios. De chuva branda dentro da noite. Da primavera e seus tapetes de flores pelo chão. Do outono e seus ventos frios no final da tarde deixando nus os galhos… Do verão e suas tempestades insanas. Do inverno e suas mantas vermelhas, canto do sofá e meias brancas nos pés…

Da cidade e sua Avenida Paulista em linha reta a dizer sempre coisas modernas. Da pressa de sua gente e da lentidão dos meus movimentos. Das esquinas. Alamedas. Cafés e Boulevares. Das vitrines sem graça. Dos amigos que não reconheço, mas que estão lá em meio aos humanos em movimento. Da volta pra casa… Das janelas entreabertas e dos carros parados nas grandes avenidas. Das sombras que crescem com a noite e da solidão que percebo quando olho para cima…

De barba roçando minha pele e a xícara de chá quente entre as mãos nos dias frios. Envelopes vermelhos, amarelos em cima da mesa ao lado das folhas esperando palavras e janelas abertas pela manhã. Ingredientes sobre a mesa. Taças cheias. Gargalhadas dentro da noite. Brindes. Diálogos inteiros – pela metade até a madrugada alta – escura. Densa… Picar cebola, alho, tomates. Ouvir a chaleira apitar. Mesa posta. Olhares. Os muitos cantos da casa. Da cama. Do sofá. A noite inteira. Meia noite – a alma em repouso e o relógio gritando as horas junto com os pássaros cantando dentro da madrugada.

Livros espalhados em cima da cama. Filme antigo na televisão – tabuleiro de xadrez – as peças em movimento. Cheque mate. Os últimos instantes da tarde. A lembrança sonora de um velho carrilhão dizendo as seis horas. Mesa posta. A noite se precipitando pelas ruas. As luzes acesas no alto dos postes. As sombras se espalhando ao longo das alamedas. Semáforo vermelho… Lembranças. Saudades. Baús antigos. Chaves perdidas. E o refrão de uma música se repetindo aqui dentro “maybe in the future, you´re gonna come back, you´re gonna come back”. Ficar parada no mesmo lugar, equilibrando-se. Observando pessoas. Sabendo-as. Imitando-as – deixando de ser o que sou, para ser o que nunca fui…

Meia noite. Meia vida. Meio dia. Meia hora. Metade da laranja. Metade de mim. Metade do filme. Metade – apenas metade… Nunca inteiras.