Das coisas que eu gosto…

tento perder a memória
única tarefa que tem a ver com a eternidade
de resto… Creio que nunca ali estivemos
e nada disto provavelmente se passou aqui

Al Berto

De palavras sonoras e fim de tarde com sol resvalando sem força na silhueta dos prédios vizinhos. De vento frio junto a pele causando arrepios. De chuva branda dentro da noite. Da primavera e seus tapetes de flores pelo chão. Do outono e seus ventos frios no final da tarde deixando nus os galhos… Do verão e suas tempestades insanas. Do inverno e suas mantas vermelhas, canto do sofá e meias brancas nos pés…

Da cidade e sua Avenida Paulista em linha reta a dizer sempre coisas modernas. Da pressa de sua gente e da lentidão dos meus movimentos. Das esquinas. Alamedas. Cafés e Boulevares. Das vitrines sem graça. Dos amigos que não reconheço, mas que estão lá em meio aos humanos em movimento. Da volta pra casa… Das janelas entreabertas e dos carros parados nas grandes avenidas. Das sombras que crescem com a noite e da solidão que percebo quando olho para cima…

De barba roçando minha pele e a xícara de chá quente entre as mãos nos dias frios. Envelopes vermelhos, amarelos em cima da mesa ao lado das folhas esperando palavras e janelas abertas pela manhã. Ingredientes sobre a mesa. Taças cheias. Gargalhadas dentro da noite. Brindes. Diálogos inteiros – pela metade até a madrugada alta – escura. Densa… Picar cebola, alho, tomates. Ouvir a chaleira apitar. Mesa posta. Olhares. Os muitos cantos da casa. Da cama. Do sofá. A noite inteira. Meia noite – a alma em repouso e o relógio gritando as horas junto com os pássaros cantando dentro da madrugada.

Livros espalhados em cima da cama. Filme antigo na televisão – tabuleiro de xadrez – as peças em movimento. Cheque mate. Os últimos instantes da tarde. A lembrança sonora de um velho carrilhão dizendo as seis horas. Mesa posta. A noite se precipitando pelas ruas. As luzes acesas no alto dos postes. As sombras se espalhando ao longo das alamedas. Semáforo vermelho… Lembranças. Saudades. Baús antigos. Chaves perdidas. E o refrão de uma música se repetindo aqui dentro “maybe in the future, you´re gonna come back, you´re gonna come back”. Ficar parada no mesmo lugar, equilibrando-se. Observando pessoas. Sabendo-as. Imitando-as – deixando de ser o que sou, para ser o que nunca fui…

Meia noite. Meia vida. Meio dia. Meia hora. Metade da laranja. Metade de mim. Metade do filme. Metade – apenas metade… Nunca inteiras.

Anúncios

11 comentários sobre “Das coisas que eu gosto…

  1. Juli Pallmer disse:

    Estou a cá lendo mais de ti, pois não? Sim, tenho cá os meus 65 indo rápido para os 66 LOL e foram bem vividos e escritos em páginas de minha historieta.

    Fiquei a pensar em teus gostos e mais ainda nesta imagem, não é paisagem aqui do Brasil, pois não? Penso que seja de tua terrinha… LOL a Bela Itália.

    Já que tu dizias tudo que gostas eu vou dizer-te algumas também.

    Gosto de fazer meus pastéis de santa clara, colher minha ervas na horta e receber alguns frutos gratuitos do meu pomar.

    Ler é favoritismo sabes? Aprecio um bom café coado na hora com biscoitos amanteigados e me aconchegar em almofadas para assistir a um bom filme do gênero romance, ou drama, ou mesmo uma boa ficção me domina as vezes LOL.

    Observar no silencio e ouvir os sons da vida. Por hoje acho que dei conta de falar-te algo, pois não?

    Teu espaço é qualidade, sabes bem disso e eu aprecio.
    Tenha uma noite com muitas surpresas como vejo que é tua vida.

    un bisou per te signorina

  2. Tatiana Kielberman disse:

    Foi curioso ler e sentir o seu gostar, ao mesmo tempo me reconhecendo a cada nova frase.

    Somos sempre metades intercladas de ilusão e real. Isso se houver realidade de fato…

    Talvez existam múltiplas delas.

    Um dos posts que mais apreciei aqui. Mexeu com meu coração.

    Beijos!

  3. Maria Claúdia Martins disse:

    Gosto de ouvir os sinos da igreja tocando às seis da tarde, de ver o sol se pondo, a lua nascendo. De sentir o cheiro de terra molhada, capim queimado, a quentura da brasa, sua cor e suas faíscas. Gosto de ouvir o barulho de uma folha seca de outono sendo quebrada com o peso do meu pisar sobre ela, dos coloridos dos Ipês, roxos, vermelhos, amarelos, brancos…qualquer cor que o valha. Gosto das estações. Dos meus temperos, de ver cair o fio do azeite em meus pratos, das taças de vinhos e seus aromas, dos brindes olho no olho, das conversas interessantes, agradáveis e alegres. Das gargalhadas dos meus amigos, do carinho e amor que sinto por eles e eles por mim. Gosto dos meus livros e das minhas artes e de todas as artes, esse universo maravilhoso. Gosto da minha filha, da minha casa, das minhas viagens, do meu conhecimento. Gosto de viver. Bjinhos caríssima e tão querida amiga.

  4. Madalena Barranco disse:

    Ai, minha querida Lu, antigamiga linda!! Eu me identifiquei com muitas das coisas que você gosta, especialmente tomar chá, de varandas e picar tomates – hehehehe… Eu gosto de viver com o vento no rosto e ouvi-lo uivar num prenúncio de tempestade. Gosto de descascar uvas verdes do tipo Itália para comê-las sem pele e sem pressa, gosto de ignorar horários marcados… e tantas coisas que você me fez pensar com seu texto maravilhoso!! Beijos, com carinho ♥

  5. Suzana Guimarães disse:

    Eu gosto do prazer de estar só. Gosto de cinema, de mar, de bares. Gosto de música e de livros, aprecio as artes. Gosto de quem gosta de mim. Gosto de espelho, de maquiagem, perfume, saias e vestidos. Gosto de falar, de tomar café ralo, de queijo branco. Gosto de sentar para apreciar o nada. Gosto de me apaixonar, gosto tanto que até invento amor.

    Beijos,

    Suzana/Lily

  6. lis disse:

    Bem diz Ferreira Gullart que os poetas tem a virtude de acender uma luz que não nasce só das mãos ..é um texto singular e em cada pedacinho um sentimento .As metades se encaixam.
    Obrigada pelo blog tão bonito!
    e um abraço

  7. Sandra Cajado disse:

    Bom mesmo é poder ler coisas assim e poder sentir que precisamos de tão pouco para sermos felizes. Eu gosto da minha cama imensa que cabe quatro pessoas(me sinto numa espécie de grama num jardim) Mas ainda assim adoro o cheiro da grama, de mato mal cortado pelo parador de gramas. Adoro sentir um cheiro de café, de livros novos. Essa coisa de cheiros muito me atrai e como dizem por aqui que uma boa comida nos arrebata feito aquela fumacinha de pica-pau ( o desenho) Sou chocólatra e me sinto realizada com barras esquecidas pela casa quando penso que não tem mais e acabo achando, parece até coisa de novela mas é mais satisfatório pra mim do que achar uma nota de dinheiro e olha que não dispenso um sorriso quando acho notas perdida das em bolsos, bolsas e casacos rs.
    Gosto das minhas cores renascentistas, gosto também de cada tinta amassada na maleta de pintura. O cheiro de linhaça sempre me remete á casas antigas tipo velhos antiquários no centro da cidade. Gosto de saber que minha cachorra sorri e fica ao meu lado quando está com medo e olha que a reciprocidade é compatível viu. É uma troca e devo confessar tão bem que essa linguagem, esse dialeto canino tem se tornado um dos meus idiomas favoritos. Gosto das minhas manias, dos meus livros e de tudo que tenho que julgo ser um pedacinho do céu em minha vida. Não como objetos materiais e etc…Mas sim com que cada coisa em seu devido lugar me preenche e nisso vou construindo minha história, meu mundo em cores pela qual me massageia e me enche de satisfação pessoal.
    Ah…Sou apaixonada pela solidão de espaço … Esse intervalo que fico. Eu não dispenso por nada! É um encontro comigo mesma. Uma boa música, um livro, internet e pintura só funcionam pra mim com a solidão. Nessas horas sinto-me incomodada até mesmo com telefones e por isso a maioria deles ficam desligados neste horário!

    Obrigada por esta conversa em letras…Tu arrancas cores de dentro de nós e em meio a sorrisos conversamos através da tela do computador vivenciando momentos simples mas que mexe com o nosso íntimo e nos faz bem…Fiquei bem pra caramba depois de ler esse post…Me senti ai na tua cozinha bebendo uma xícara de chá enquanto você prepara esse delicioso jantar . Acabei de receber seu livro. Escrevendo Pretéritos chegou na ilha do amor…Começando a ler alguma coisa nos intervalos embora esteja um pouco corrido por aqui.

    Valeu! 🙂

  8. Manuela disse:

    Como é aconchegante chegar aqui com uma xícara de chá em mãos, observar seus movimentos, e gole a gole beber tuas palavras bem lentamente para a satisfação da minha imaginação!
    Amei a janela!

    Afugentam-me as casas degradadas. Lembram-me as mansões que foram palacetes e hoje são moribundos morrendo em agonia… Mas esta janela vi-a diferente. Aliei-a ao pão e bolo da avó com o chocolate quente. Depois a forma com saboreavas as tuas delícias, fez nascer uma certa nostalgia.

    Baci, cara mia

  9. Loba disse:

    Adorei esse post. Tão adocicado. Eu gosto de tomar café na cozinha da casa de uma velha amiga e vê-la brincar com os ingredientes enquanto falamos nossas coisas. Besteiras tantas. Sorrisos tantos. A hora voa e o dia fica sendo uma coisinha tão pequenininha. É muito bom!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s