Cartas a dezembro, #5

Caríssima Catarina,

Sei que esta carta teria dezembro como destinatário original, mas peço licença a tal mês – que me é tão precioso – para dirigir algumas palavras a você… figura que esteve presente ao meu lado durante cada dia do ano que se passou, seja física, mental ou emocionalmente…

Hoje eu queria falar-te sobre o espaço que surge, no real e no simbólico, quando deixamos de nos ocupar com aquilo que pensávamos ser necessário, mas que – a bem da verdade – não passava de um acúmulo de ideias mal formuladas… pensamentos desajeitados, coisas fora de lugar em meio às gavetas da vida.

Sabe… eu nunca gostei de usar a palavra “sobra”, pois me lembra resto, coisa pouca, o que ficou após a partida… Prefiro pensar no que renasce: nas oportunidades que brotam diante de nossos olhos e que antes pareciam indisponíveis, pois estávamos muito ocupados com o nada… que não nos levaria a lugar algum!

Dezembro – este ano, para mim – significa essa possibilidade de enxergar a vida de novo, após retirar o entulho que antes me ofuscava o olhar. E, mais do que isso: 2014 foi um ano de muitas mudanças, em cada um dos meses, porque tive o privilégio de sua amizade.

Você reacendeu em mim o gosto pela leitura, a vontade de escrever… o anseio por novos projetos, a capacidade de ser mais… em um momento no qual nem eu sabia o quanto precisava de uma injeção de ânimo para retomar as rédeas da minha própria vida.

Por tudo isso, só posso dizer: grazie tante.
Que 2015 nos traga muito mais… com café, claro!

Bacio,
Tatiana Kielberman

Cartas À Dezembro, #4

Norte, à 5 km de um pôr-do-sol esperando ser visto, dezembro de 2014

Cara Catarina,

Que teus passeios matinais desemboquem sempre em meu endereço virtual, pois me alegra muitíssimo ver-te em linhas por aqui.

Chegaste de surpresa em um sábado quente, de ventos delicados. Eu estava distraída com a valsa alegre das folhas quando ouvi tuas batidas a minha porta a me falarem de paixão, como se fosse assunto fácil. E a dança das folhas me pareceu um prenúncio de tempestades próximas. 

O sábado por aqui foi inquieto devido as tuas linhas retas – como gosta de dizê-las-, mas te sabia apenas mensageira. Era o assunto que me incomodava.

Eu não sei falar de amor, paixão ou como as pessoas se apaixonam, cara Catarina. Desses assuntos eu sei apenas os avessos – o que não são – e, por eliminação, vou intuindo o que talvez sejam. Há tempos, aprendi a usar o instinto para andar, e ele nunca me foi ingrato, apesar de eu, muitas vezes, ter cerrado os olhos para ele.

Porém, hoje, aos trinta e poucos, ando com os olhos abertíssimos, a acompanhar o badalar das horas que pulsam em minhas veias.

Aqui no Norte, é tempo de colher frutos na mangueira, de ouvir o trinado harmônico dos passarinhos vários, que em minha ansiosa pressa de viver, não lhes conferi identidade. Sabiá, rouxinol, azulão, canário, tesourinha, todos aqui a fazerem festa aos meus ouvidos, e eu a confundi-los, sem saber diferenciar penugem e canto… tal como o amor, cujo gorjeio soube separar tardiamente da cegueira, da loucura e da paixão, porque me pareciam todos iguais, em um primeiro momento.

Um verde desgrenhado adorna meu quintal. São verdes novos, da renovação das folhas. Não sei em qual estação do ano vivo atualmente, pois o calor daqui me lembra sempre o verão, embora as chuvas várias – que serão cada vez mais constantes até meados de março -, me ajudem a recompor a nostalgia de um outono próprio, guardado comigo no peito.

"Longe um trinado, o rouxinol não sabe que te consola."
(Jorge Luis Borges)

Beijos meus, cara mia, volte sempre!! 
Inge

Cartas À Dezembro, #3

Porto Alegre, sábado, dezembro, noite

Caríssima Catarina,

Hoje acordei muito cedo. Luiz embarcou às oito horas de volta para São Paulo. Como sempre, a bagagem dele ficou pronta lá na cozinha na noite anterior. E como sempre quando ele está de partida, dormi e acordei melancólica. Tenho um coração alegre dentro de um coração delicado. Então, hoje, diferente dos sábados em que o Luiz está aqui, não tomei café, nem banho, nem me vesti para descer com minha dupla de quadrúpedes com a energia habitual. Dei a volta na quadra, dizemos quadra e não quarteirão aqui no sul, um pouco alheia ao sol, calada e sem ouvir música. Meus enormes fones de ouvidos ficaram jogados sobre a mesa da sala de jantar. Eu sou uma pessoa extremamente caseira e ligada aos objetos da casa. No Lavoura Arcaica, o Raduan diz que o quarto em que o André está é um quarto catedral. Você já leu o Lavoura? Eu perdi a conta da quantidade de vezes. Pois minha casa é em seu todo uma oração. Sou zelosa, organizada e contemplativa. Meu lar, de certa forma, é uma extensão do acalento que conheço. Minha mãe me criou repetindo frases de efeitos. Era uma figura a minha mãe. Uma de suas frases favoritas era bem simples: a casa é a mãe. Acredito que ela dizia isso um pouco para que meus irmãos e eu fossemos cuidadosos com os enfeites, mas também por compartilhar desse sentimento amoroso por nossas caverninhas contemporâneas. Esta em que vivo agora desde março, é a que sempre sonhei. Estou no alto, décimo andar, com 180 graus de vista. Vejo o rio, a ponte velha e a nova, e vejo a linha do horizonte. A linha do horizonte é a linha com a maior possibilidade de ideias e palavras que conheço. Dependo muito dessa linha para continuar inteira em todas as outras. Eu vim de uma cidade rural, os campos de cima da serra. Você sabia? E lá o céu nos era generoso. Talvez as pessoas de interior tenham fama de acolhedoras por causa disso: porque o horizonte está sempre ao nosso alcance. O horizonte é uma linguagem que não pode ser perdida!

Beijo,
Helena Terra

Cartas à Dezembro #2

 

dois e 2 são cino

Catarina,

…dezembro chegou e com ele todas as lembranças e saudades. Se pudesse escolher pular um mês do ano, seria este.

Antes o esperava ansiosamente, era o mês das férias, das praias, do primos, dos presentes. O mês do Papai Noel! E com ele a minha primeira dor, a de saber que ele não existia. A realidade nunca é melhor que o sonho.

Já teve gosto de volta pra casa, quando fui morar longe: dezembro de sons e cores. As flores amarelas dos ipês que generosamente formam tapetes pela cidade, dos sons das músicas natalinas que acompanham as compras dos presentes.

Na família a tradição das crianças montarem os presépios e árvores de natal. Desde que me lembro foi assim. Dezembro era reza e ladainha.

Panetones, queijo do reino, fio de ovos, peru que sempre sobrava porque ninguém realmente gostava do seu sabor, mas sempre nas mesas da família. Nunca entendi porque sacrificar o bichinho !

E num dezembro ela se foi e me deixou aqui com gosto de lágrimas e guardados. Acabou a festa. As cores se apagaram. A fé foi perdida pelo caminho. A árvore encantada foi guardada para sempre. Suas fitas de desejos de ano novo ficaram na lembrança doce de dias que jamais voltarão.

Dezembro se foi…

Thelma Ramalho

12. Um belo frasco de memórias…

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Caríssima A.,

…por vezes atravesso o oceano apenas para me sentar numa dessas mesas bem merecidas, de frente para as paisagens de teu sítio. Vejo pouco e ouço muito… sou uma dessas figuras em que vigora a saudade, embora essa palavra, para mim, tenha um sabor estranho. Soa como café frio- amanhecido… ou pior, café americano-carioca. {urgh}

Aprendi — em meu idioma — a dizer “mi machi”…  que quer dizer “sinto sua falta”…  ou “gostaria de sua presença”.

A palavra saudade, no entanto, parece ir na contramão disso… no Brasil, a maioria dos cemitérios se chamam “saudade”. Nada tenho eu contra esses espaços urbanos reservados para os mortos… mas é como se o sentimento por trás dessa combinação de consoantes e vogais se reservasse apenas aos mortos e, não para os vivos.

…sinto falta de muitas coisas, a cada minuto do dia sou invadida por essa sensação gostosa que apenas a ausência é capaz de provocar. E quando leio seus escritos… mergulho no fundo de minha anatomia: esse baú de perdidas chaves… e reviro tudo! Espalho todas as minhas coisas por sobre a cama… tocando o passado como se fosse uma caixa de sapato guardada em baixo da cama.

Eu tive uma infância agridoce… povoada por alegrias e tristezas. Creio que seja assim para a maioria de nós. Não me lembro de todos os momentos e creio que nem poderia, afinal, há coisas que pertence aos outros… mas há um punhado de coisas, que a minha memória, mantém intacta: o primeiro dia de aula está lá — em total segurança… e acena com o desconforto de quem estava acostumada a existir entre meia dúzia de pessoas: todas iguais e conhecidas. Fiquei emburrada por ter que deixar o ambiente confortável do quarto para frequentar — diariamente — uma sala de aula… onde vinte e duas crianças tentavam aprender o alfabeto e depois a combinar as consoantes e vogais. Foi qualquer coisa aborrecida para uma criança que já sabia escrever um belo punhado de palavras.

Os passeios pelas carrugi nas manhãs de domingo também tem seu espaço assegurado… eu tinha lindas botas vermelhas para os dias de chuva e como adorava usá-las. Pedia por chuvas a semana inteira.

Com ela nos pés… eu podia pisar poças e fazer minha própria algazarra — imitando os pássaros em meu quintal. C., achava graça dos olhares assustados das outras mães, que pedia as filhas, para se comportarem feitos meninas — ao contrário de mim. Ela nunca me repreendeu! Nem mesmo quando as botas ficavam cobertas por lama…

Também me recordo o dia em que ganhei meu primeiro livro de poesias. Um belo exemplar comprado em um sebo, com capa verde musgo e páginas amareladas. Emily Dickinson… em inglês — idioma que eu ainda não dominava, e passei a aprender nas noites de terça e quinta…

…mas existem muitas coisas perdidas cá dentro de mim. Vez ou outra uma foge e se precipita, como as famosas chuvas de maio a gritar seus trovões — como se a minha matéria quisesse valer a afirmação, que fiz ainda na infância: “eu sou toda tempestade” com a qual C. sempre assentia com seu sorriso primaveril.

abraço-te… ritorno a casa e, vou a cozinha combinar ingredientes, venha mais tarde provar um pão de ervas.

L