12. Um belo frasco de memórias…

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Caríssima A.,

…por vezes atravesso o oceano apenas para me sentar numa dessas mesas bem merecidas, de frente para as paisagens de teu sítio. Vejo pouco e ouço muito… sou uma dessas figuras em que vigora a saudade, embora essa palavra, para mim, tenha um sabor estranho. Soa como café frio- amanhecido… ou pior, café americano-carioca. {urgh}

Aprendi — em meu idioma — a dizer “mi machi”…  que quer dizer “sinto sua falta”…  ou “gostaria de sua presença”.

A palavra saudade, no entanto, parece ir na contramão disso… no Brasil, a maioria dos cemitérios se chamam “saudade”. Nada tenho eu contra esses espaços urbanos reservados para os mortos… mas é como se o sentimento por trás dessa combinação de consoantes e vogais se reservasse apenas aos mortos e, não para os vivos.

…sinto falta de muitas coisas, a cada minuto do dia sou invadida por essa sensação gostosa que apenas a ausência é capaz de provocar. E quando leio seus escritos… mergulho no fundo de minha anatomia: esse baú de perdidas chaves… e reviro tudo! Espalho todas as minhas coisas por sobre a cama… tocando o passado como se fosse uma caixa de sapato guardada em baixo da cama.

Eu tive uma infância agridoce… povoada por alegrias e tristezas. Creio que seja assim para a maioria de nós. Não me lembro de todos os momentos e creio que nem poderia, afinal, há coisas que pertence aos outros… mas há um punhado de coisas, que a minha memória, mantém intacta: o primeiro dia de aula está lá — em total segurança… e acena com o desconforto de quem estava acostumada a existir entre meia dúzia de pessoas: todas iguais e conhecidas. Fiquei emburrada por ter que deixar o ambiente confortável do quarto para frequentar — diariamente — uma sala de aula… onde vinte e duas crianças tentavam aprender o alfabeto e depois a combinar as consoantes e vogais. Foi qualquer coisa aborrecida para uma criança que já sabia escrever um belo punhado de palavras.

Os passeios pelas carrugi nas manhãs de domingo também tem seu espaço assegurado… eu tinha lindas botas vermelhas para os dias de chuva e como adorava usá-las. Pedia por chuvas a semana inteira.

Com ela nos pés… eu podia pisar poças e fazer minha própria algazarra — imitando os pássaros em meu quintal. C., achava graça dos olhares assustados das outras mães, que pedia as filhas, para se comportarem feitos meninas — ao contrário de mim. Ela nunca me repreendeu! Nem mesmo quando as botas ficavam cobertas por lama…

Também me recordo o dia em que ganhei meu primeiro livro de poesias. Um belo exemplar comprado em um sebo, com capa verde musgo e páginas amareladas. Emily Dickinson… em inglês — idioma que eu ainda não dominava, e passei a aprender nas noites de terça e quinta…

…mas existem muitas coisas perdidas cá dentro de mim. Vez ou outra uma foge e se precipita, como as famosas chuvas de maio a gritar seus trovões — como se a minha matéria quisesse valer a afirmação, que fiz ainda na infância: “eu sou toda tempestade” com a qual C. sempre assentia com seu sorriso primaveril.

abraço-te… ritorno a casa e, vou a cozinha combinar ingredientes, venha mais tarde provar um pão de ervas.

L

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8 comentários sobre “12. Um belo frasco de memórias…

  1. sp1109br disse:

    Cada vez que leio sobre (e) as missivas que você escreve, bate uma sensação de que deixei de fazer algo importante. Hábito que não adquiri, mesmo tendo parentes do outro lado do oceano. Talvez por ser ainda criança quando eles retornaram a sua Lituânia de origem, e minha encarregar-se da correspondência, isso não aconteceu. De qualquer maneira fica uma pontinha de frustração. Senti o perfume do pão de ervas =)

  2. Frasco de Memórias disse:

    Lunna,

    fiquei tão feliz com esta missiva!
    Li e reli e vi as botas vermelhas da Lunna pequenina a saltarem nas poças de água, tal e qual como as de uma menina pequenina que anda aqui por casa!
    Irei reclamar o pão de ervas, sim!
    Obrigada 🙂

    Bacio e um abraço apertado,

    Ana

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