Ano novo… de novo!

livros artesanais, autora e editora, scenarium

Pensei um bocado de tempo na refeição que escolheria para esse dia… que é o último do ano. Amanhã será outro… Ano novo de novo. Eu não sigo os calendários humanos. Desconectei o meu corpo desses fios há algum tempo e a vida seguiu ritmo próprio. O meu tempo é outro. Minha soma tem outros significados. Mas, foi engraçado pensar no fim… como se o ano fosse um livro.

Depois de um dia absolutamente disciplinado, movido a pequenos goles de latte, sentada no meu canto-mesa de mundo, entre esquinas, a espiar os poucos movimentos — o bairro esvaziou-se depois do natal — a virar páginas de um livro que releio para minha satisfação… e nos intervalos da leitura, dedilhei algumas notas dessa escrita minha…

Quem me conhece… sabe que não teria outra maneira de comemorar — esse secondo anno — porque gosto imenso de ir para a cozinha, combinar ingredientes e ver a alquimia acontecer ao inventar aromas, provocar sabores e atiçar lembranças, como se pudesse — ao manipular das panelas — reviver certas cenas minhas, que trago na memória. Um filme em preto e branco, com atores conhecidos-preferidos — meus.

Enquanto picava a cebola e o alho… deitava um fino fio de azeite na caçarola — pensava. Ralei a abobrinha… cortei os tomates em cubo e fui revendo os momentos de Catarina. Coloquei água para ferver e revisitei os dias de escrita-diálogo. Peguei o pote de fubá no armário e a colher de pau na gaveta… enquanto vagava pelos dias-semanas-meses — um ano inteiro. Não sei dizer quantos textos escrevi… quantas linhas pontuei — foram muitas reticências…

Escrever um texto acaba por ser como preparar um prato… Seleciono os ingredientes. Não faço uso de receitas… sou movida pela possibilidade do inusitado. Aumento o volume e me deixo levar pela música do dia — lavo-descasco-corto-pico-ralo…

O prato de hoje — a última refeição — foi polenta com ragu — que é coisa de outros ontens… dos dias de verão, da casa com seu chão de madeira a ranger passos e o carrilhão a cantarolar nossa infância de hora em hora. A colher em movimento dentro da panela a misturar aquela grossa massa de fubá, a formar crosta no fundo — disputada pedaço a pedaço por crianças em fase de crescimento.

Enquanto lidava com a massa de polenta na panela, recordava o dia em que descobri que no último dia de vida de um prisioneiro condenado a morte, é oferecido a ele uma última refeição e ele tem o direito de escolher o que quiser. Não fez sentido algum para mim essa bobagem. A pessoa fica no corredor da morte… uma vida inteira e em seu último dia, recebe afagos. Contradições humanas…

Para esse meu último dia, polenta com ragu… e a companhia dos meus.
Feliz ano novo para vocês e até para o ano… esse depois que atende pela alcunha de amanhã.

Publicado por Lunna Guedes

Sou sagitariana... degustadora de café. Figura canina e uma típica observadora de pássaros, paisagens, pessoas e lugares. Paciência é algo que me falta desde a infância. Mas sobra sarcasmos para todas as coisas da vida que fazem mais barulhos que cigarras nos troncos das árvores. Aprecio o silêncio e falas cheias, escreve-se em prosa por apreciar a escrita em linha reta. Tenho fases como a lua... sendo a minguante a minha preferida!

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