Diário das minhas insanidades, 09

 

ela gostava de sofás compridos, e eu de longos navios ela gostava
de sussurrar e suspirar nos cafés eu gostava de saltar e gritar
nas ruas e, apesar de tudo, os meus braços vastos
como o universo estão à espera dela.
Muhammad Al-Maghut

 

reallity

 

Comentei com W. que recomeçar me causa cansaço… numa obvia referência a maldita mania de festejar o ano novo, que tem os humanos. Ela se acomodou na cadeira num movimento novo, como se soubesse que a observo enquanto falo — antes ela apenas cruzava as pernas, acomodava o cotovelo  no braço da poltrona e o queixo sobre a mão.

Exibi uma espécie de sorriso nos lábios e continuei minha fala segura: “eu não gosto de deixar certas coisas para trás, de maneira definitiva. Gosto de levá-las comigo para os lugares que visito: a mesa do canto do café entre esquinas”…

Trocamos olhares silenciosos sometimes… e, como se fôssemos espelho uma da outra, nos encaixamos dentro dos mesmos movimentos sometimes. Aprendemos muitas coisas sobre nós duas nesses meses de visitas – sempre nas noites de terça – mas nem sempre ela me brinda com falas — curtas ou longas — às minhas introduções. Isso não me incomoda… pelo contrário, prefiro o silêncio à intromissão… porque sou como um velho e bom livro! Preciso de uma epígrafe antes de começar a contar a história, mas não de um prefácio, que eu nunca leio… se fossem como uma missiva, mas são apenas o que são, uma espécie de mapa impreciso e totalmente desnecessário…

W., pela primeira vez olhou para o relógio em seu pulso – presente de natal – com seus ponteiros pontuais a dizer as horas, os minutos e também os segundos. Foi um olhar rápido, sem qualquer ansiedade, como quem observa a certeza… e não o tempo. O relógio estava no lugar certo, assim como os móveis, as paredes e seus quadros, a estante, os livros e seus porta-retratos.

Nada mudou naquele cenário bucólico depois desses meses… eu continuo a ocupar o meu lugar e ela o dela, que segue a fazer pequenas anotações, em seu caderno de capa cinza-chumbo. E vez ou outra, o meu sorriso arisco, põe um ponto final em algum pensamento seu…
Passados alguns minutos… um novo olhar para o relógio dourado… a dividir espaço com uma pulseira onde adormece seu nome, desde os quinze anos… igualmente dourada. Ela passa mais tempo no conserto, que em seu pulso… graças a um fecho, que vive a causar problemas. É tão frágil quanto suas vontades.

E depois de conferir as horas, W. levantou a sobrancelha esquerda e se pronunciou: ‘você tem tanta coisa guardada dentro de si, que me faz pensar constantemente em uma tarde de chuva, xícara de chá e em uma velha caixa de sapatos escondida embaixo da cama

Suspirei, sorri… e me lembrei, quase que instantaneamente, do primeiro baú, que ganhei do nono… onde costumava guardar meus cadernos, diários, folhas avulsas e uma caixinha com folhas, gravetos e pedras recolhidas durante a caminhada. Mas eu nunca tive uma caixa de sapato embaixo da cama… não é o tipo de argumento que combina comigo.

Cinquenta minutos concluídos em mais uma noite de terça… soubemos que o tempo e as palavras vêm à boca, mas guardamos tudo em nós duas para a próxima semana…