Sou um naufrago da tua lembrança…

A distância dos teus olhos não a sei abreviar,
o latido dos teus sonhos não me deixa adormecer

José Miguel Silva

lettera

…a juventude chegou até mim como se fosse um interruptor, que alguém toca sem cuidado, e pronto: uma lâmpada se acende no meio desse cômodo que somos, sem móveis ou cantos para a alma… que se ilumina sem prejuízo da sombra.

Eu existia de maneira contida, indiferente ao que era realidade, imersa em um mundo particular sem me ocupar de tempo, espaço ou lugar. Em meu canto de mundo, cercada por paredes brancas e uma janela sempre aberta para os dias de chuva e fechadas para os dias de sol… ocupava-me dos filmes em preto e branco que eu assistia – em segredo – dentro das madrugadas. Das páginas dos muitos livros que devorava nas primeiras horas das manhãs, onde o silêncio acontecia dentro e fora da pele. E, fundamentalmente, das palavras que deixava junto as folhas dos cadernos que eu aprendi a colecionar ainda na infância.

Não me misturava porque não fui forjada para existir em bandos… acontecia em minha anatomia uma espécie de prazer quando me permitia lugares vazios. A mesa do canto. A sombra distante de uma árvore em algum lugar obtuso ao fundo. O espaço entre prateleiras na biblioteca da escola… era desses lugares que partia meu olhar, indo tropeçar nos excessos humanos.

E foi a bordo de um desses “cantos para a minha alma” que eu a descobri… com suas mãos em movimentos perfeitos e sua boca de silêncio preciso. Decorei sua anatomia imediatamente no primeiro toque… escrevi seu nome na superfície lisa de madeira vermelha da mesa – com a ponta dos dedos – como se sua pele fosse e, o movimento empenhado, uma carícia de contato primeiro.

Nossos diálogos eram mínimos, devido a distância natural que existia entre nossos corpos. Cumprimentos rápidos. Acenos lentos e questionamentos naturais, motivados pelas frases que ela deixava no ar propositalmente a partir de seu discurso sempre eufórico em língua estrangeira. Aprendi outros nomes, outras palavras… reaprendi a mim mesma! Fui outra ao misturar sua geografia a minha. Seu olhar era sempre mais manso para mim, enquanto para os outros mais severo.

Foi com ela que aprendi o efeito calmante de uma xícara de chá e o prazer de sorver pequenos goles espaçados… a chegar primeiro aos lugares, antecipando-me as pessoas. A cheirar as páginas dos livros antes de iniciar a leitura. Sentir a textura das paredes e das superfícies dos móveis junto a ponta dos dedos. A me esparramar em diálogos amenos, sem precisar pensar a melhor pontuação, ponderar os hiatos ou escolher com algum cuidado os verbos.

Foi através dela que percebi o quão delicioso é ouvir o outro… sua voz era suave, amena, quase como um canto. Um verdadeiro cálice de brandy degustado antes do jantar, que ela nunca me ofereceu porque tinha pouca idade, ao contrário dela, cuja maturidade suas rugas confessavam sem cerimônia alguma.

Ela era ousada nos gestos, nos passos e sobretudo, nas vontades. Citava Woolf, escrevia à Auden e Dickinson… dormia na companhia dos russos e acordava ao lado dos portugueses. Calçava os óculos feitos sob medida para se encaixar em suas orelhas pequenas. Não usava maquiagem, pois não gostava de máscaras, preferindo apenas o que lhe era espelho e sentia imenso prazer em cobrir suas vestimentas com seu velho avental azul.

Quando dizia poesias de Borges – um estranho até então – me fazia eclipse… e quando empilhava os livros que me oferecia, em cima da mesa, para que eu provasse de seus sabores… eu a amava um pouco mais, porque o primeiro amor não é oferecido a nós como sendo coisa entre homem e mulher ou mulher e homem. É apenas um crepitar do fogo junto a acha recém-chegada… esse coração de batidas irregulares acontecendo dentro do peito.

Z. foi, sem dúvida alguma, o amor da minha juventude. A mulher que se aconchegou em meus olhos, permanecendo ali até o final do colégio, quando deitou em meu corpo um abraço demorado e meia dúzia de palavras em meus ouvidos: “eu fiz a minha parte, agora é com você”.

Lembro-me que segurei firmemente em suas mãos, com algum receio, porque não tinha até aquele momento, pensando na força do dia seguinte… não tinha me atentado para o fato de que ela iria permanecer no mesmo lugar de sempre, causando amor e ódio em outras meninas iguais ou diferentes de mim, enquanto eu seguiria outras direções.

A manhã seguinte… salvaguardou, inalterada, a fisionomia da mulher para quem meu olhar sempre se volta quando penso em iniciar-me em linhas!

A ouvir…

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