Reticencias | Inverno

 

1.

Cinco horas – diz o relógio. Vinte e um de junho – diz o calendário… E quanto a mim? – o que eu digo? Um punhado de silêncios enquanto deixo escorrer dos lábios qualquer coisa de sorriso imerso em qualquer coisa de ironia. Encaro a parede branca a minha frente, respiro fundo e penso nos anos que se acumulam junto à soleira da minha alma que de certa maneira é uma porta e nem sempre está aberta…

Já confesso sentir o peso de um arrependimento que ainda não existe, mas que de certo irá se precipitar junto a mim amanhã ou depois. Por enquanto tudo que sinto de fato é esse precipitar de sensações. Olho a minha volta e questiono os objetos todos: como começar? O que dizer? – e nenhuma resposta me alcança de fato. A única coisa que de fato me alcança é essa sensação de fracasso porque já tem algum tempo que eu insisto nessa história de voltar a escrever um diário e não satisfeita inventei de transformar isso num projeto de vida – como forma de afrontar a minha própria recusa…

Foram seis tentativas até agora – o que faz dessa a sétima e mesmo gostando muito desse número que sempre se precipita junto a minha anatomia – tenho pra mim que o dia seguinte, desde já é minha maior dicotomia e, confesso que já percebo em minha derme o cansaço, o descaso e consequentemente o abandono…

E o amanhã distribui suas ironias dentro do tempo presente do qual me afasto para buscar aconchego em qualquer coisa de memória. Houve um tempo anterior a esse em que tudo se orientava sem demora. Hoje, as coisas são um combinado de equívocos – nada a minha volta se completa. Tudo converge no sentido de esvaziar-se antes do derradeiro fim… Ao depois pertencem todas as minhas coisas que já nascem fadadas ao fracasso – fadadas a serem figuras em branco. Incompletas. Um comboio a descarrilhar-se depois da segunda curva…

Confesso que comprei um caderno qualquer, sem muitas folhas. Não tive cuidado. Não houve preocupação alguma da minha parte. Peguei o primeiro que vi. Deixei-no ali no canto da mesa para onde olho sempre, mas até agora nenhuma palavra e o inverno segue sua marcha. Acho que desisti antes mesmo de iniciar-me nessa aventura e está é minha carta de demissão regada com uma bela quantidade de frases imprecisas.

 

 

Eu só queria entender
porque eu sempre
desisto dos meus diários.

 

— Lunna Guedes, in: Reticências —

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