Reticências | Outono

1.

 

Chove lá fora, talvez por isso eu tenha arrastado minha carcaça humana até esse canto da casa. Acomodei minha anatomia no sofá e fiquei a observar a chuva por alguns minutos, até me perder totalmente de mim mesma… gosto imensa dessa premissa que soa como prece que faço aos ares que respiro. Em dias de chuva fica tudo mais leve…

Conto os dias nos dedos das mãos… como no tempo da infância — uma brincadeira de pedras — e me perco. Erro a soma — respiro fundo — o tempo segue seu destino metódico e os ponteiros contam sua prosa infernal. O riso vai surgindo — arteiro — no canto dos meus lábios e sem saber se cedo ou tarde, vou até a cozinha preparar uma xícara de chá…

O meu silencio hoje é de brisa no meio da tarde "orvalhada"… em mim, é sempre assim: acontecem diferentes tipos de silêncios. Dos passos junto às calçadas, de uma janela fechada, de uma madrugada a desaparecer, de uma casa branca no meio do quarteirão em estado de abandono, da página de um livro que esqueço de virar, afastando-me das palavras por uma pequena eternidade, do outro que vem em minha direção e pensa me entregar um aceno, mas prefere — no último segundo — reter o movimento em seu corpo, ignorando-me.

E com a xícara de chá em mãos, volto ao canto do sofá, ao olhar pela janela junto as ruas e as páginas desse caderno velho — meu diário — onde escrevo outonos, reinventando-o já que por aqui faltam folhas-cores-galhos-nus-e-pesadas-sombras…

 

— Lunna Guedes, in: Reticências —

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