Caderno de Receita…

caderno-brancoA imagem veio daqui

 

Em tempos contemporâneos as pessoas vivem em busca de receitas e, a mais procurada, visa uma única coisa: a felicidade. Que coisa mais estranha — penso eu…

Eu que nada sei de receitas, visto meu melhor sorriso e levo meu corpo para espiar paisagens junto a varanda e, imediatamente lembro, que vivo meus últimos dias junto a esse cenário… hoje havia neblina. A paisagem de árvores em fila ao longo da alameda parecia ter chamado pelas nuvens e, lá estavam elas: misturando cenários.

Lembrei-me imediatamente de que certa vez, quando menina de poucos anos, estava a ouvir coisas alheias, em plena sala de aula, quando a professora disse: "quando a pessoa morre vai para o céu" — arregalei os olhos e procurei pelas nuvens do lado de fora — me senti tão incomodada, porque para mim, aquele era um lugar para os pássaros e para onde eu ía quando fechava os meus olhos. Por sorte, o silêncio orientou-se em mim dentro daquele segundo e eu nada disse… o mundo dos religiosos e de quem acredita, é cheio de reticências e é preciso respeitá-las, mas não tragá-las!

Ao sair da escola naquela manhã, de mãos dadas com C. meus olhos encontraram aqueles pássaros em um vôo natural de leste para o oeste, percorrendo o caminho do sol, voltando a casa, no final do dia… Eu tinha a ilusão de que eles existiam apenas dento daquele instante… já que não sabia para onde iam. Duas vezes por dia. Seus sons e movimentos atravessavam os meus e isso era tudo…

Aqui em São Paulo não há, pelo menos nunca vi, pássaros em vôo de oeste a leste pela manhã e de leste a oeste ao final da tarde. Mas há o canto dentro da madrugada para incomodo de alguns… e, eu apenas me divirto ao ouví-los quando minhas letras ganham ritmo. Gosto da poesia que existe nesse canto, pois nunca antes tinha ouvido pássaros madrugadores!

E, foi justamente dentro da última madrugada, revisando "lua de papel" que me lembrei de M. — mãe do mio amore — que tinha dois cadernos de receitas. Sua caligrafia era antiga, dessas que se aprendia no colégio: uma espécie de desenho, legível até certo ponto… bastando apenas aprender a decifrar os símbolos, porque não existe letra bonita, existe símbolo e, são eles que identificamos…

Pois bem, lá tinha dúzias de receitas, algo que eu nunca soube apreciar… ela, contudo, sempre que precisava fazer uma sobremesa ou um prato qualquer, recorria ao seu velho caderno, porque a memória já não era a mesma e o auxílio se fazia cada vez mais necessário…

Certa vez, estava em sua cozinha, vendo seus movimentos entusiasmados, por estar a fazer um doce para o “nosso menino”… quando M. disse: "pega o branquinho, vamos colocar uma colher de café bem rasa apenas para ficar macio".

Ela tinha aprendido ao longo de seus dias o que era preciso para melhorar aquela mistura de ingredientes. Nona também tinha esses "segredos"… pequenos detalhes. Coisas que nenhum caderno de receita revela, porque se ocupam apenas dos ingredientes e, suas quantidades… como na vida, em que nos dizem: "viver se trata de nascer, crescer, aprender, amar, envelhecer e morrer". Parece tão simples, agora vai lá fora fazer isso…

Quando vou para a cozinha, separo os ingredientes todos — hoje a noite quero fazer um jantar para dois — e minha alegria começa com a escolha do prato… vou ao mercado, seleciono o que quero e, automaticamente rememoro as coisas que aprendi com a nona para escolher os legumes: aperta, sente… me apodero da sensação e pronto: sou feliz por alguns segundos, mas confesso que eu nunca soube dizer-me feliz ou infeliz, alegre ou triste. Eu tenho os meus momentos… os melhores sempre foram vividos em estado de melancolia…

Talvez seja assim porque ser feliz nunca tenha sido uma preocupação… eu sempre achei que felicidade fosse objeto comum. Há dias alegres e tristes. Dias felizes e infelizes. A vida não pode se resumir a um único ingrediente… afinal, para fazer uma bela pasta, é preciso: tomates, cebola, azeite, alho, cenouras e a massa que também se divide em muitas opções. É preciso escolher a maneira como lavar, cortar, descascar, picar e, quando se leva os ingredientes para a panela, existe uma ordem natural que aprendemos com o passar dos dias…

Então se quer mesmo ser feliz — penso eu — é melhor seguir a ordem natural das coisas que trago em mim: acordar tarde e dormir cedo… abrir as cortinas quando a noite acontece e fechá-las quando o sol insiste em dizer suas cores. Tomar banho de chuva… fazer chá com ervas maceradas entre as mãos. Caminhar por calçadas lilases. Pôr a mesa. Colher flores. Chupar laranja. Ler Borges, Eliot, Emily. Escrever missivas. Lembrar coisas antigas — da infância-juventude — porque o tempo passa e os ponteiros estão lá apenas para te avisar do obvio: “que o tempo passa” e, não para te dizer o que fazer… mas, você se esquece disso em algum momento, e deixa que ele determine seus passos! Então, um dia, você desperta querendo receitas para todo tipo de coisa…

E num susto… acaba percebendo que já se passou um quinhão de anos. É tarde demais! Não existe uma só receita que dê jeito nisso, mesmo assim você insiste e passa a usar as regras inventadas por essa gente que chegou lá antes de você.

Tal e qual Borges,
“Às vezes sinto medo da memória”.

 

— Lunna Guedes, in: Retratos da Alma —

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