Reticências | Verão

1.

— é noite lá fora e eu repito pra mim mesma, como se fosse um mantra: “é preciso calma para não perder o rumo”. Trago em meus músculos (cansados de não parar) o cansaço de um dia inteiro a andar por aí…

Enquanto penso no cardápio para mais tarde — risoto branco, insallata romana — repasso o punhado de imagens de um dia que começou com chuva. Manso e Lento. Impreciso, com a janela umedecida pelas chuvas de verão que, começaram mais cedo esse ano… e de repente, se apressou por todos os cantos da casa, me expulsando do lugar. O sol invadiu as frestas, se apoderou da sala e me mandou sair… dizendo — com sua voz rude — para eu me perder em diversas direções.

Eu apenas obedeci porque conclui pouco antes de abrir a porta, que um escritor, precisa alimentar-se diariamente das coisas — todas — que a vida oferece, renovando todo os dias os seus argumentos…

Me deixei conduziu pelo olhar… percebi no meio do passo vago-sem-pressa-ou-mapas, os diferentes cenários da cidade: poças que ninguém lembrou de pisar. Um homem a arrastar seu passo, sua carcaça, seu descanso consigo mesmo, sua tristeza mais imunda, sua dor mais ingrata por um traço conhecido. Um cachorro sujo a seguir-me com sua calda em movimento e seu olhar mais humano. Sua alegria mais simples. Sua emoção mais sincera. Ele queria afago, companhia, um canto no sofá, uma vasilha com água, outra com comida e eu não lhe pude oferecer, nem mesmo o olhar, pois seria um aceno-convite… tropecei nessa mulher rude, a esbravejar contra o vento seus lamentos. Ela sujava o mundo com suas palavras equivocadas. Rasgava o ar com sua faca cega. Chutava o que encontrava para longe sem se importar se atingiria ou não alguém. Esbarrei em um pássaro em seu voo lúcido-lúdico-sereno pelo meio da rua, como se fosse pousar, mas foi preciso repensar a trajetória. Deixou comigo seu canto intenso-agudo-perfeito…

E por assim dizer, o presente que eu degustei há pouco já se desfez… virou passado em frações milimétricas de segundos, mas permanece aqui dentro — a salvo — e eu sigo embaralhando-as numa tentativa de abotoar as imagens à minha matéria, negando-as o inconveniente de não serem nada mais pela manhã… porque sou desde sempre, como um velho álbum de fotografias sempre as mãos…

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