O livro é seu — não meu…

Ao correr meus olhos por cima de uma revista especializada em literatura — uma das últimas no gênero mundial — me deparei com um excelente artigo, escrito por um Editor… à inglesa! Confesso que, desde que mergulhei no mundo literário, sempre me senti propensa mais ao estilo inglês e francês de escrita e edição que aos demais… gosto de pensar a literatura como sendo um diálogo para com o outro.

No cenário literário europeu prega-se a idéia de “editing“… o que significa que por lá, o editor é alguém que corrige, anota, sugere alterações, risca e rabisca sem receios e, às vezes, muda “todo” o conteúdo, dando nova forma e, sobretudo, melhorando as linhas que compõe o escrito. E não apenas, seleciona títulos e subtítulos para publicação, função específica de um publisher.

No artigo que chegou aos meus olhos, o Editor divide com o leitor… algumas de suas experiências com autores… e apresenta uma conclusão necessária, porém, muito difícil, a qual chegou depois de muito esforço: “o livro é seu, não meu“… mas em seguida, Ele diz em voz alta: “mas sem mim, não existe livro, porque exageros não vendem e escritores tendem a ir em frente, sem saber quando é o melhor momento de parar”.

Achei interessante a necessidade do Editor — e também autor do texto — de afirmar seu pranto, mas superá-lo como quem respira profundamente, tendo total conhecido de suas habilidades. Eu me lembrei — imediatamente — das inúmeras reclamações que eu já ouvi desde que escolhi alinhavar palavras com agulha e linha, exigindo sempre o melhor conteúdo de meus autores para publicar… recentemente uma autora — após enviar seus escritos —  me disse: “mexe, mas não mexe muito, porque eu tenho ciúmes das minhas coisas”… o que me fez ligar o alerta com relação ao material recebido. Respirei fundo e tracei minha estratégia a fim de fazê-la enxergar que o conteúdo precisava de cuidados. Sugeri mudanças, como se fosse uma vendedora dessas lojas de roupas: “olha, essa não ficou bem em você, quer tentar outro modelo?”.

Mas já houve susto-espanto-desconforto-e-outros-tantos-punhados-de-reações quanto as sugestões por mim apresentadas, porque o autor trabalha com sua idéia — sem ressalvas ou cuidados. Muitas vezes, trabalha a exaustão física… e quando entrega suas linhas a alguém, acredita ter feito o seu melhor… e na maioria das vezes, ele quer receber apenas afagos — elogios —  para amenizar o cansaço…

É um fato bastante complicado/delicado quando o Editor se apodera de um material para “lapidar“… muitos afirmam que editores são em sua maioria, escritores frustrados: “falta-lhe o dom da concepção —  dizem os mais revoltados.  São úteros vazios — afirmam com veemência os mais alterados — resta-lhes apenas a adoção do que é alheio”.

Eu comecei no universo paralelo da escrita muito jovem… a lembrança mais antiga que tenho comigo acerca de rabiscos inventivos, me leva de encontro aos meus sete anos. Eu era uma “inventora” de histórias. Sempre tinha algo a contar para entreter minhas páginas em branco… um velho caderno de capa vermelha, onde escrevia com algum prazer a minha trajetória de maneira mais aguda, escolhendo o que descartar e também o que melhorar. Riscar e rabiscar sempre foi um exercício bastante natural…

Aos quinze anos, eu já tinha inúmeros rascunhos de gaveta. Qual escritor não vivenciou essa fase em sua vida? Mas o universo da edição só passou a ter espaço em mim quando minhas notas mais secretas chegaram aos olhos de um professor que, sem nenhuma piedade, saiu atropelando as linhas expostas ao seu olhar.

…ele riscou com alguma vontade — munido de uma caneta-pincel-preta — diversas palavras enquanto repetia: “excesso-excesso-excesso”. Engoli seco, cerrei os punhos e tentei não estrangulá-lo. O remendo feito por ele foi meu primeiro aprendizado. Ler incansável vezes — em voz alta — para agradar o próprio ouvido foram o segundo e terceiro…

Percebi ao final daquele difícil exercício, que as técnicas são vazias e destrutivas para os escritores, mas para os Editores são absolutamente necessárias. E de um tempo para cá, venho percebendo que quando mais cru o escritor, mais simples a escrita se revela tornando muito mais agradável o tato… e mais próximo de um diálogo natural para com o leitor ela se mostra.

O fato é que raras são as vezes em que o material vem pronto para as mãos de um Editor… contudo, é preciso respeitar a voz que lhe chega em intermináveis frases. Um bom editor precisa saber calar a si mesmo, ter bom senso e, saber exprimir o melhor do material literário que tem em mãos e, que pertence totalmente ao seu autor que, receberá todos os louros das linhas escritas, restando ao editor, o anonimato… as sombras! O seu nome escrito, sem destaque, em algum canto do livro…

Um editor precisa, sobretudo, ser uma pessoa totalmente descontente. Precisa estar disposto a exigências fazer… e lembrar que seu nome estará preso a de seu autor e, se ele fracassar, não o fará sozinho. O Editor não prova do sucesso, mas, infelizmente… saboreia todo o fracasso e vai para o limbo com o seu autor, afinal, você o disse pronto para encarar o universo editorial e o entregou aos leões — os leitores…

E para encerrar, acredito que, fundamentalmente, um Editor precisa ser possuidor de imensa compreensão, afinal, os excessos na escrita são como tempestades de verão e, os autores, quando escrevem, enxergam apenas a realidade de suas palavras… onde tudo é infinitamente azul.

Tirar uma vírgula, acrescentar uma palavra, sugerir cortes… pode fazer do Editor um vilão para o autor e nem sempre ele será compreensivo e conseguirá entender que, para ser um diamante, uma pedra bruta precisa ser lapidada.

Pequeno trecho de lua de papel…

Lua de Papel Starbucks 3

…”guardei na memória o aceno breve de Raissa de dentro do carro. Agora, sempre que me lembro daquele dia, é ela que vejo, a dizer-me distâncias. Fiquei junto a calçada até não mais conseguir vê-la.

Segundos antes a sua partida, caminhamos juntas, até o portão de casa, passando por entre as plantas de Maria, pisando firme aquele caminho cinza. Quis enlaçar-me a ela e, confesso que eu pensava em sua nudez a cada vez em que meu braço resvalava junto ao dela.

Ela me deu a chance de dizer alguma coisa, mas eu sou feita de silêncios, então não o fiz, e não sei se me arrependo, mas ainda guardo aqui dentro de mim, seu olhar dentro dos meus e a proximidade entre nós duas: tão pequena — praticamente inexistente — e sua firmeza de gestos… sinto saudades das horas vividas em sua companhia!

Depois que ela se foi, corri para dentro de mim…
Fechei-me naquele quarto, tirei a roupa, e me vi, pela primeira vez, junto ao espelho. Num primeiro momento, vi apenas o seu corpo nu, branco, perfeito e, senti tudo de novo numa precipitação singular.

Meu corpo inteiro vibrou como nunca antes… não nego que não reconheço essa euforia, mas classifico como sendo medo. Que outra coisa seria?

Acariciei meus seios, minha pele morena… toquei meu sexo, ainda com algum pudor. É estranho a consciência que o saber lhe oferta, às vezes, recuso tudo que sei e sinto…

Revi meu rosto e seu desenho meio quadrado, com sulcos bem feitos e, para minha surpresa, não reconheci muitos dos meus… nos desenhos que tenho.

Não encontrei ao meu pai e muito menos a minha mãe.
É como se eu não viesse deles… mas enxerguei qualquer coisa de beleza, contudo, não sei se é a mesma, que Rodrigo diz enxergar em mim. Ele diz gostar dos meus cabelos, da minha cintura que cabe em suas mãos…

Ele e eu ainda nos encontramos na cozinha — numa insistência que alimento como se fosse um vício maldito. Uso apenas a pele como vestido quando estamos juntos.

Seu corpo não se expõe como o meu.
Ele continua me consumindo com os olhos e prova do meu veneno como um leão que devora a caça no meio da savana…

As mãos de Rodrigo ainda avançam entre as minhas pernas, alcançando aquele espaço onde ninguém mais ousou tocar… mas eu não sinto nada! Absolutamente nada. É apenas movimento repetitivo — idas e vindas dentro da noite — na cozinha e, agora também no quarto, na cama que já não é mais minha, nem dele —  estranhamente — é “nossa”…

(…) continua

 

Meu desassossego…

“É uma vontade de não querer ter pensamento, um desejo de nunca ter sido nada, um desespero consciente de todas as células do corpo e da alma. É o sentimento súbito de se estar enclausurado na cela infinita. Para onde pensar em fugir, se só a cela é tudo?”

Bernardo Soares

 

Emprestei na noite do último sábado… um dos livros que trago comigo desde a juventude e, que não posso afirmar já o ter lido por inteiro… por não se tratar de um exemplar que peça o olhar — imediato — por cima de cada uma de suas páginas.

É um desses livros para ser lido de acordo com a vontade-necessidade-desejo manifestados na pele-alma-memória… porque há livros que são assim: nos pedem espaço, nos impõe pausas e tem ritmo próprio. Em alguns casos, nos pedem pequenas viagens: do criado-mudo à mesa da cozinha, do canto do sofá a um móvel qualquer no banheiro… pela cidade a bordo de um ônibus, trem ou metrô…

O meu “livro do desassossego” já percorreu cenários diversos… recebeu várias marcações e  centenas de anotações… atravessou o oceano e vive comigo pelos diversos cantos da cidade. Aversão que emprestei é recente… foi adquirida há pouco mais de dois ou três anos. Se trata de um desses lançamentos que ocorrem de tempos em tempos, quando alguém inventa um motivo qualquer — a capa, o aniversário do autor ou algum modismo bobo — para trazer de volta as prateleiras das livrarias… como se dessa maneira, fosse possível evitar o esquecimento da obra.

Na “nova edição” da Companhia das Letras… Richard Zenith estabeleceu uma espécie de nova ordem e ainda acrescentou trechos ‘recém-descobertos’ no espólio de poeta. No entanto, na qualidade de pesquisador de Fernando Pessoa, se sentiu a vontade para descartar alguns trechos — que existia em versões anteriores.

O desassossego de Pessoa foi creditado ao senhor Bernardo Soares — um dos muitos heterônimos do poeta português — e mais parece um combinado de “notas mentais” que nos entregam — como se fosse uma confissão — o estado psíquico, apaixonado e todo o conhecimento de Pessoa, que segundo consta, vivia o seu auge criativo…

Esse livro poderia muito bem ser uma espécie de diário do autor… já que é composto por anotações feitas ao longo de dias-semanas-meses — ou como tanto gostam de denominar as editoras e seus editores: são fragmentos de sua realidade insana.

Fernando Pessoa gostava de se refugiar em personalidades inventadas — fato exaustivamente investigado e metodicamente explicado. De loucura a patologia… o que me surpreende é o aspecto que se busca para explicar sua condição. São tantas analogias absurdas… e, no entanto, o mais simples nem mesmo é mencionado. Ninguém afirmar que, na condução de autor, lidar com todas as suas dissonâncias ficava mais fácil se colocadas em segundo plano, no caso, na condição de personagem.

Não somos os mesmos… a vida, a realidade, as pessoas mudam… o autor acompanha todos esses movimentos-ciclos. Morre-se milhares de vezes. E se volta a vida — centenas, talvez milhares de vezes até não mais ser possível…

Pessoa disse que conheceu Bernardo Soares numa pequena casa de pasto — café — frequentada por ambos e teria sido justamente nesse cenário, que Bernardo teria dado à Fernando os escritos de seu: “Livro do Desassossego”…

Foi uma liberdade que o Poeta deu a si mesma…  de oscilar entre a inquietação-o-tédio-a-angústia-e-uma-imensa-lucidez. Nomeou suas sombras e tagarelou com elas, talvez por saber que ninguém além dos seus ‘fantasmas’ o entenderia.

“A solidão desola-me. A companhia oprime-me.
A presença de outra pessoa desencaminha-me os pensamentos.”

Fernando Pessoa/Bernardo Soares