Diário de minhas insanidades, 11

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Caminhei pela avenida em linha reta, sem pressa… a contar os passos e medir as distâncias. Fui pontual… passei pela nova moça, de quem nada sei — as dezenove horas — e fui direto ocupar o meu lugar de sempre.

W., atravessou a porta pouco depois… enxugava as mãos em uma toalha de papel e finalizava um gole de qualquer coisa — um chá, provavelmente. Disse ‘boa noite’ num tom monocórdio… e tomou seu lugar, a minha frente.

‘como está a sua semana? Voltou a escrever?’… respirei fundo, pausado e demorado. Nem era preciso dizer que não. Meu corpo era todo silêncio. Minha matéria estava anestesiada e a alma embrulhada para viagem.

Faz alguns dias que o cansaço — essa entidade bizarra — se apoderou de minha anatomia… se espalhando por meus músculos e nervos, como um vírus.

Queria ficar em silêncio… com o olhar detido num ponto qualquer — atravessar a matéria humana de W., saborear a quietude de meus gestos, a ausência de sons… e foi o que fiz. Fiquei em transe absoluto… sem dizer palavra, emitir som ou ouvir a própria voz, tampouco a dela.

Foi como fechar os olhos e adormecer… mergulhar no oceano, cessando os sons da vida como a conhecemos. Afundar na própria memória… e ouvir um único som, que para mim é sempre estranho e novo, agradável e manso — uma espécie de trilha sonora: os passos por cima de folhas secas, em pleno outono, ao lado do nono, pelo bosque de minha antiga cidade… o meu porto seguro, o cuore do meu mundo — o lugar onde mio cuore pulsa mais forte, fazendo vibrar a pele, palpitar as têmporas. Minha própria morte e vida e falência e ausência e fim…

Foi como desaparecer por um punhado de segundos… um piscar de olhos — o tempo de um sorriso.

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3 comentários sobre “Diário de minhas insanidades, 11

  1. Mariana Gouveia disse:

    Quando visito minha W, que na verdade é T, ela me silencia e a voz calma parece ganhar força. Vendo ela no dia a dia não parece que é esse vendaval de palavras.
    Fico a olhar para as mãos dela que dançam…
    ela só acalma quando eu falo de borboletas…
    deve ser a sintonia de asas…

    • Lunna Guedes disse:

      A imaginar a sua T., confesso que passeei por nuvens altas, brancas… feitas de algodão e com desenhos a se desmanchar de minuto a minuto a frente do azul. Sorri, claro… como de costume. Gosto de mãos, você sabe… gosto de apreciar o movimento delas, o tamanho dos dedos, os nos e as unhas. Gosto quando brincam no diálogo de maneira inquieta e inventam diálogos como esses, quase uma missiva… rs

      bacio amore mio

      • Mariana Gouveia disse:

        Minha T é sardenta. Tirando as quase invisíveis são 44 manchinhas alaranjadas – contei – em um dia em que ela resolveu mudar de posição comigo e devo confessar que foi daí que nasceu Corredores.
        Bacio, bambina mia

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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