Pequeno trecho de lua de papel…

Lua de Papel Starbucks 3

…”guardei na memória o aceno breve de Raissa de dentro do carro. Agora, sempre que me lembro daquele dia, é ela que vejo, a dizer-me distâncias. Fiquei junto a calçada até não mais conseguir vê-la.

Segundos antes a sua partida, caminhamos juntas, até o portão de casa, passando por entre as plantas de Maria, pisando firme aquele caminho cinza. Quis enlaçar-me a ela e, confesso que eu pensava em sua nudez a cada vez em que meu braço resvalava junto ao dela.

Ela me deu a chance de dizer alguma coisa, mas eu sou feita de silêncios, então não o fiz, e não sei se me arrependo, mas ainda guardo aqui dentro de mim, seu olhar dentro dos meus e a proximidade entre nós duas: tão pequena — praticamente inexistente — e sua firmeza de gestos… sinto saudades das horas vividas em sua companhia!

Depois que ela se foi, corri para dentro de mim…
Fechei-me naquele quarto, tirei a roupa, e me vi, pela primeira vez, junto ao espelho. Num primeiro momento, vi apenas o seu corpo nu, branco, perfeito e, senti tudo de novo numa precipitação singular.

Meu corpo inteiro vibrou como nunca antes… não nego que não reconheço essa euforia, mas classifico como sendo medo. Que outra coisa seria?

Acariciei meus seios, minha pele morena… toquei meu sexo, ainda com algum pudor. É estranho a consciência que o saber lhe oferta, às vezes, recuso tudo que sei e sinto…

Revi meu rosto e seu desenho meio quadrado, com sulcos bem feitos e, para minha surpresa, não reconheci muitos dos meus… nos desenhos que tenho.

Não encontrei ao meu pai e muito menos a minha mãe.
É como se eu não viesse deles… mas enxerguei qualquer coisa de beleza, contudo, não sei se é a mesma, que Rodrigo diz enxergar em mim. Ele diz gostar dos meus cabelos, da minha cintura que cabe em suas mãos…

Ele e eu ainda nos encontramos na cozinha — numa insistência que alimento como se fosse um vício maldito. Uso apenas a pele como vestido quando estamos juntos.

Seu corpo não se expõe como o meu.
Ele continua me consumindo com os olhos e prova do meu veneno como um leão que devora a caça no meio da savana…

As mãos de Rodrigo ainda avançam entre as minhas pernas, alcançando aquele espaço onde ninguém mais ousou tocar… mas eu não sinto nada! Absolutamente nada. É apenas movimento repetitivo — idas e vindas dentro da noite — na cozinha e, agora também no quarto, na cama que já não é mais minha, nem dele —  estranhamente — é “nossa”…

(…) continua

 

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