E vivemos no tempo do amor inventado numa indústria de lábios

(…)

“esta carne frágil este dia vasto
esta vida feita no que é morte nela
este amor sujeito ao que é sempre efémero

este ódio ao mundo que é amor eterno”

António Carlos Cortez

— a cena entre Fernanda Montenegro e Natália Timberg —  na pele de suas respectivas personagens na novela das nove — me fez voltar no tempo e recordar uma cena antiga, que parece ter ficado guardada aqui dentro de mim, para esse momento.

Estava em um shopping de São Paulo, a esperar pelo meu menino quando um casal da intitulada “terceira idade” chamou a minha atenção. Ocupavam uma mesa pouco a frente da minha e estavam — por causa do horário — rodeados por uma multidão… alheios ao que era presença, trocavam carícias de mãos… uma linda cena que resultou em um beijo ameno-pequeno-perfeito, que levou sorriso aos meus lábios e emoção aos meus olhos.

Me embriaguei — confesso — com a perfeição da cena e também do momento! E a novela resgatou esse sentimento em mim. A sensação de que em tempos estranhos, o amor ainda é possível porque amar é doar-se ao outro sem restrições, é acontecer dentro do dia seguinte, é ser grato a quem nos acompanha, apesar da vida, às vezes, ser indigesta e intragável…

As pessoas, no entanto, me surpreenderam com a mesma pequenez.
Quando dei por mim, o lugar — praça de alimentação — estava Vazio. Para minha surpresa, as pessoas foram deixando o local uma  a uma… incomodadas com a cena que lhes causava incômodo-horror-nojo-desconforto, porque acontecia ao alcance de seus olhos — incrédulos — algo indevido-impróprio. Houve quem se manifestasse em voz alta, contrários ao carinho entre duas pessoas… olhei com algum espanto para aquelas reações estupidas, sem sentido.

O amor, pressupõe — sempre — duas pessoas… sem citar idade-sexo-tamanho-cor e outros elementos tantos. No entanto, estranhamente, acredita-se que o amor é coisa para os jovens, que vivem a primavera da vida. Aos mais velhos cabe apenas a solidão, o declínio, o fim. Nada de amor ou alegrias. É fim da linha. O temido ponto final…

E eu que via na cena, uma vida inteira de obstáculos superados… um longo caminho percorrido lado a lado — ali permaneci com o meu encantamento. Vi quando — de mãos dadas — foram embora, com seus passos encaixados uns nos outros… na lentidão que apenas a ‘velhice’ permite.

A vida a dois não é fácil… exige muito de nós. É um eterno aprendizado… um constante deixar-se para depois. E aquele casal — ultrapassados todos esses ingredientes nem sempre fáceis de digerir — ainda nutria carinho nos gestos e cuidado nas ações. Amavam-se depois de tudo. Estavam juntos e queriam o toque dos lábios, das mãos, da pele, da alma!

Lindo — sem dúvida — mas tão assustador para os outros… a distância entre as duas cenas — reais e inventadas — guardam aproximadamente dez anos de tempo e espaço… mas o meu espanto é exatamente o mesmo: como podemos reprovar o amor, preferindo o ódio? Porque o que eu vi depois de uma simples cena de novela — entre duas mulheres — foi apenas isso: uma demonstração evidente de que o amor foi amassado e jogado no lixo e o ódio foi estendido no varal para secar, passar, dobrar e guardar dentro de si…

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Diário de minhas insanidades, 12

‘As palavras não tinham importância. Falava pelo prazer de falar,
como se fala depois do amor, o corpo ainda sensível,
a cabeça um pouco vazia’.
— quarto azul — Simenon

la chambre bleue

As palavras, às vezes, parecem almofadas e servem de conforto para o corpo todo… são como abraços demorados, afagos dentro de uma tarde de chuva”… — foi o que disse W., pouco depois que me sentei em meu lugar comum.

…sua fala completamente inesperada, dita sem pausas, de maneira direita, me calou completamente. Cruzei os braços a frente do corpo e mergulhei no branco de seus olhos — uma espécie de mar revolto. Ela parecia ausente-distante… tive a sensação de ser um diálogo inconsciente. Uma frase solta, que escapou da boca, como se saltasse num precipício sem autorização.

Tive certeza de que se tratava de uma de suas ‘notas mentais’ quando sua voz ressoou pelo cenário novamente: ‘o silêncio não serve para todos, há pessoas que precisam do barulho‘…

Pensei imediatamente no traço que, às vezes, me permito junto ao papel… está cada vez mais raro esse gesto. Mas, às vezes, recorro ao movimento comum à minha infância, porque a escrita motivada pela lapiseira é mais lenta, e leva mais de mim… para fora. É diferente quando deito frases inteiras junto ao teclado. O papel pede tato… o computador nos é — quase — indiferente. É como se não se importasse com o que lhe entrego. O papel é mais aconchegante, uma espécie de noite de outono, com vinhos e queijos.

W., fechou rapidamente o seu caderno de notas — como se repentinamente retomasse a consciência. Exibiu um pequeno sorriso e pouco depois de um suspiro — que quis dizer muito — buscou por um livro, que eu tentei descobrir o título e autor — sem sucesso. Disse num sem voz que estava a ler pouco antes de minha chegada.

Nada me inquieta mais, que um livro desconhecido. Me comporto como os cães, viro a cabeça de um lado para o outro, como se o livro fizesse estranhos ruídos — indecifráveis.

W., consciente da atenção que o objeto em suas mãos despertou em mim, falou do livro… com singular euforia. Salientou que suas mil e uma palavras, de tão sutis e gentis, é de fácil compreensão. Se trata de 1iteratura francesa — a minha favorita, nessa seara de publicações.

Respirei fundo levando uma gama maior de ar até os meus pulmões. Sentindo atentamente todo o caminho percorrido pelo ar levemente gelado do ambiente de temperatura controlada…

W., me olhou rapidamente de soslaio, enquanto seu discurso acontecia: ‘é uma primorosa lição de bem escrever. Nem se trata de um policial, no sentido mais vulgar do género. Sobretudo, falta-lhe a presença de qualquer investigador. Ao invés, estamos perante um par de amantes que se encontram, regularmente, no quarto azul de um hotel de província’.

Nem sempre ouço as falas, que se aglomeram ao meu redor… mas, dessa vez, não apenas ouvi, como tentei entender quem lhe atribuiu a condição de crítica literária. Levantei os olhos em meio a um sorriso irônico, e me distrai com a capa do livro. Uma edição nova, recém-lançada. Uma tradução de La Chambre Bleue… “o quarto azul” de Georges Simenon.

…’conhece?’ — eu apenas sorri… e ela não ousou recomendar a leitura, apenas escondeu o livro imediatamente abaixo de seu caderno lilás, onde toma nota da vida alheia — incluindo a minha. E, onde o meu imaginário ousou escrever um pequeno trecho do livro: ‘era verdade. Naquele momento era tudo verdade, uma vez que ele vivia a cena em estado bruto, sem se fazer perguntas, sem tentar compreender, sem suspeitar que um dia haveria alguma coisa a ser compreendida. Não era tudo verdade, como real: ele, o quarto, Andrée, que permanecia deitada na cama desarrumada, nua, as coxas abertas, com a mancha escura do sexo, de onde escorria um fio de esperma‘.

Eu diria ‘cheque‘… mas não seria nada elegante, afinal, ela usou o livro — argumento infalível, no meu caso — para desviar a minha atenção de sua figura em ruínas. Ela é uma mulher interessante, não permite em momento algum que eu cruze a linha. Me mantêm distante para a segurança de ambas. E eu aprecio esse jogo de movimentos poucos. O tabuleiro sobre a mesa. Peças brancas e negras e os olhares acesos…

Abril… ‘o mais cruel dos meses’

chuva 2



“Abril é o mais cruel dos meses, concebendo
Lilases da terra entorpecida, confundindo
Memória com desejo, despertando
Lerdas raízes com as primeiras chuvas”.
T.S.Eliot

 

Senti há pouco os ventos de abril… em meu imaginário inquieto! Lá fora o dia segue sua marcha comum… de leste a oeste sem se incomodar com essas insanidades temporais que inventamos para nos guiar-comandar-incomodar.

Amassei a folha do maldito calendário humano e seus dias em fila… coloquei a água para ferver… e fiquei por um instante breve com os olhos fechados, como quem faz uma prece e se esquece de todas as coisas do mundo.

Enquanto aguardava por um dos meus sons favoritos… recordei Rubem Alves e sua escrita certeira. Quase fui a prateleira buscar por um livro dele, mas a chaleira apitou e interrompeu o pensamento-movimento. O que me permitiu recordar da pilha de livros que tenho para ‘devorar’ nesses ‘insanos’ dias de abril.

Os livros acumulam-se desde janeiro porque sempre que arrumo as prateleiras volto a páginas antigas-lidas em outras estações porque há autores-e-livros que não basta uma única leitura. É preciso apreciar as nuances da vida-realidade. A gente muda… os livros também somos todos mutantes.

E por isso o inevitável acontece… algo fica pelo caminho… a pilha cresce e se agiganta e como é Abril, vou voltar a Eliot porque ele marcou o mês com sua linguagem-feroz-de-homem-poeta ao dize-lo ‘o mais cruel dos meses’ e Mário de Andrade… e como é outono, voltarei a miss Austen, Susan Sontag e seus diários felinos e Plath. Enfim, difícil não apreciar a queda quando se conhece tão bem o abismo.

É abril… eu já disse isso?