Abril–segundo Eliot–o mais cruel dos meses…

“Abril é o mais cruel dos meses, concebendo
Lilases da terra entorpecida, confundindo
Memória com desejo, despertando
Lerdas raízes com as primeiras chuvas”.

T.S.Eliot

writing in a coffee 2

Cinco minutos apenas… e eu já sinto os ventos de abril em meu imaginário inquieto! Lá fora a lua segue seu trajeto de leste a oeste sem se incomodar com essas insanidades temporais que inventamos para nos guiar-comandar-incomodar.

Acendi uma vela verde no canto do quarto, um incenso também… e fiquei por um instante — breve — com os olhos fechados, como quem faz uma prece e se esquece de todas as coisas do mundo…

Voltei a realidade com um sorriso ameno-infantil-pequeno nos lábios e me vi imersa em saudades! Os músculos e nervos do braço latejavam e dentro dos olhos aconteciam lágrimas que não tocaram a minha face… nos lábios uma quietude de palavras. Senti tantas coisas — uma confusão sem fim de sentimentos que resultaram em frases prontas, tatuadas nas paredes dessa masmorra que sou…

Respirei fundo — como quem morre — como costumava dizer o meu homem, a quem eu dava as mãos para caminhar pelas ruas do lugar onde cresci. Íamos os dois, medindo os espaços, tateando com os olhos as mudanças e alternâncias. Sempre tinha algo fora do lugar e nos orgulhávamos de isso perceber. Olha – anunciava, apontando a parede de uma casa que trocou o sem cor pelo amarelo, causando desconforto nos moradores que não toleravam diferenças, mudanças tampouco.

Lembranças é o que eu mais tenho… talvez por isso, o livro “para sempre Alice” — lido ainda em março, pouco antes de eu fazer as malas — tenha me incomodado tanto. Nele, a personagem perde a memória gradativamente, deixando de reconhecer as pessoas e a si mesma no fundo do espelho. Acompanhei uma mente brilhante perder o seu brilho e se tornar opaca. Chorei de maneira incisiva. Me indignei e sofri com a falta de forças da personagem de pontuar sua história de maneira decente. Vê-la revirar seus pertences sem ser capaz de se lembrar o motivo de sua busca foi desesperador.

Deixar de ser… não ser! Deixar de existir e apagar a realidade dos olhos de maneira consciente… e pensar que há aqueles que dizem que se pudesse apagariam as dores, as tristezas de suas realidades. Pobres infelizes. Não sabem o quão preciosos são esses momentos. São nossos e são eles que fazem de nós o que somos.

Eu tenho as minhas dores… e, por vezes, tudo transborda! Mas tudo isso compõe esse quebra-cabeças que sou. Não faltam peças e posso me olhar no espelho sabendo que sou eu ali. Eu sobrevivi… e o dia seguinte espera por mim!

 

“Alice sabia que a jovem sentada defronte dela era sua filha,
mas tinha uma inquietante falta de confiança nesse saber.
Sabia que tinha uma filha chamada Lydia, mas, quando olhava para a moça
sentada à sua frente, saber que aquela era sua filha Lydia
mais era um conhecimento teórico do que uma compreensão implícita,
um fato com que ela concordasse, uma informação que houvesse recebido
e aceito como verdadeira” — pág. 188 — “para sempre Alice

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