Correspondência

“O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo,
é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda
não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando”.

— Guimarães Rosa; in Grande serão: Veredas —

 

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…recebi uma missiva — dessas que chegam em envelopes com selos e, são entregues em mãos, pelos carteiros — há muito isso não acontecia comigo porque abandonei o hábito de corresponder-me quando precisei deixar essa casa na década passada, sem dar satisfações aos amigos de envelopes e selos. E ao voltar — anos mais tarde — encontrei uma caixa repleta de envelopes. Não sei dizer quem a colocou embaixo do móvel, pouco depois da entrada, onde costumavam ficar os nossos sapatos de inverno…

Lembro-me que foi com algum estranhamento, que meus olhos descobriram linhas inteiras, pedindo notícias minhas… já que no ano seguinte a minha partida, senti como se tivesse sido esquecida no mundo por algum anjo endiabrado. A gente tem momentos difíceis na vida e sofre por sofrer somente, e morre porque a morte é essa prima-irmã da vida e uma sem a outra não faz sentido algum… mas quando estamos com a morte na pele e também na alma, demoramos a compreender esse nada que somos e a consequência é que cada um de nós demora “uma fatia de tempo” para esvaziar-se de sensações e emoções corrosivas. Depois da morte, voltar a vida é um desafio…

A caixa de cartas foi para o lixo, sem que uma única resposta fosse enviada. A menina à quem escreveram em busca de notícias havia se dissolvido, deixando de existir. Eu nem mesmo lembranças — da figura que procuravam em linhas — tinha em mim. Era uma total e completa estranha… a morte havia feito a sua parte. Não cabia a mim afrontá-la!

Abri a janela de meu quarto e deixei o vento entrar… senti saudades, daquelas que nos reviram a alma-a-pele, fazendo do avesso o verso e o contrário também. Recordei gestos-momentos… revi o ritual de escrita, junto a mesa da cozinha; de espera,  junto ao sofá da sala… porque naquele tempo, as respostas levavam dias para nos alcançar e as respostas não se confeccionavam em minutos porque era preciso tempo para tudo acontecer…

E enquanto isso tudo acontecia de novo aqui dentro de mim… tentava decidir o que fazer com o tal envelope branco que trazia o meu nome escrito à mão e com tinta preta. Não reconheci a caligrafia e demorei um belo punhado de minutos para estabelecer conexão entre o nome escrito em letra de forma, e a pessoa — uma antiga colega de faculdade, a quem não devia respostas, notícias tampouco.

 

— Lunna Guedes, in: menina no sótão, jun. | 2002 —

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