Quando eu ainda não sabia…

“o nosso mais belo dever é imaginar que há um labirinto e um fio. nunca daremos com o fio; talvez o encontremos e o percamos num acto de fé, num ritmo, no sono, nas palavras que se chamam filosofia ou na mera e simples felicidade”.

Jorge Luis Borges

hands

Infelizmente, eu não me lembro quando o amei pela primeira vez… não posso dizer que foi quando o percebi dentro dos meus olhos, reconhecendo-me como um transeunte de minha história particular, escrita em atos equivocados.

Quando olho para trás… percebo nossos passos pequenos pelas ruas de um antigo bairro de São Paulo, com os braços enroscados, sem pressa… sorrisos espaçados, olhares desatentos e completamente detidos um no outro. Estávamos atentos apenas aos nossos passos, que pareciam medir os espaços, sem dar pelo que era humano a nossa volta.

Lembro-me também do cuidado que ele tinha comigo… se mantendo sempre do lado de fora da calçada. Abrindo portas. Puxando cadeiras… buscando se antecipar ao outro que vinha em minha direção! Eram pequenos gestos, que eu havia visto milhares de vezes, em outra pessoa…

Havia algum tempo que eu escrevia missivas de outono para ele — sem entregá-las — porque ele era um segredo para o mundo e também para mim mesma. Era o menino de sorriso faceiro e olhos entristecidos. De músculos cansados e gestos indóceis. Era substância. Um personagem que passou a transitar livremente em minha realidade porque, desde sempre que, a minha volta não acontecem pessoas e sim personagens dessa trama que se orienta em minha pele, onde escrevo…

Ele era essa figura por conhecer-se e apropriar-se dentro das tardes de junho… onde aconteciam taças de vinho, xícaras de chá, caldo quente, lenha a crepitar, manta para os pés.

Ele era saudade quando estava longe… vontade quando estava perto. Era sentimento aconchegante para os gestos e desconforto necessário para a derme. Era metáforas ainda por usar e enredo que pede cuidados. Uma história para o dia seguinte…

Eu não me lembro em que momento de nós dois… a história passou a se escrever por conta própria. Sei que sempre acontece comigo: o personagem se rebela, a trama se desorienta e tudo acontece como se o meu corpo se deixasse possuir por uma substancia qualquer. Pessoa decerto chamaria de ópio… eu nunca soube como classificar.

Sempre me apaixono por pessoas-lugares-coisas… mas, dessa vez, quando dei por mim eu já o amava, mas não o amor do corpo, da pele… do estar um no outro. O amor que se apoia em gestos, lembranças e certezas. Que aproxima e distância. Que se satisfaz com o pouco que é muito… tudo.

Sei, contudo, que me apaixonei primeiro pelo personagem — o meu menino — e só depois pelo homem que revelou-se meu principal leitor!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s