Nota do Autor | Lua de Papel

O amor com furor, por meio do objeto amado, alguma coisa que está para além dele. E como não a encontra se desespera

D. Miguel de Unamuno

lua de papel

Lua de Papel, enquanto história… começou a nascer dentro de uma velha casa no Alto da Lapa, para onde me mudei com o “meu menino”, na década passada… eu nunca sei o que dispara em mim uma história e seus personagens. Muitas vezes, não reconheço o momento em que tudo acontece… demorando algum tempo para compreender os sinais que atravessam o meu corpo.

Mas, hoje, eu me lembro — com clareza — do olhar triste e pesado da figura encolhida que visitava a nossa casa naqueles dias… acontecendo junto à cortina da sala, provando do que era paisagem. Fiquei em suspenso. Incapaz de qualquer movimento… sorvendo a cena, me misturando a ela. Sentindo a mesma dor que atravessava a sua anatomia.

Foi assim que Alexandra veio até mim, mas ela não era uma menina… era uma mulher. Era o destino de minha personagem — o dia seguinte… contudo, obviamente eu não sabia disso naquela fração de segundo.

Raissa veio mais tarde… ela aconteceu junto à mesa de um café —  entre esquinas — me apaixonei completamente por suas expressões ousadas, determinadas… ela se espalhava e multiplicava com facilidade. Era de uma alegria infinita… um furacão de talento e frescor. O oposto de Alexandra. Eu a quis para mim, com seus cabelos coloridos, sua pele febril e sua gargalhada silenciosa… mas nunca mais a vi depois desse encontro.

Anne foi a última chegar… a história já estava pronta! Mas ela, não… era uma fotógrafa sem corpo, sem vida, sem alma… sem nada. Eu a encontrei primeiro em K., numa noite de tumultos. Depois, em R., com suas frases soltas, sempre entre um gole e outro de café, nas muitas vezes em que chegou, deitando em meu corpo os seus abraços e partindo em seguida, a deixar sempre qualquer coisa de si, como se dissesse: “eu volto, então guarda um pouco de mim em você”.  E, assim, Anne foi se deixando moldar, se permitindo ser… e acabou por ir além das premissas prometidas por mim a ela.

Nessas linhas, realidade e ficção se misturam… porque é exatamente assim que eu escrevo: com um pé em cada um desses mundos.

Lunna Guedes

Você é seu próprio autor…

Uma das coisas mais difíceis na vida de um escritor… é saber pontuar suas histórias, atribuindo ritmo a sua narrativa. Não é mesmo fácil e talvez seja uma das mais ingratas tarefas, sendo apenas superada pelo desafio da folha em branco… quando é preciso escolher a melhor das frases para lançar o leitor no abismo, colocando-o em queda permanente.

Uma história começa a existir — primeiro — dentro dessa caverna, que são os escritores. É tudo muito secreto, silencioso. A trama vai sendo — lentamente — urdida em malabarismos particulares. Nesse momento, o silêncio se acaba e começam os barulhos — alguns insuportáveis.

Mas até se sentar diante da tela para escrever, o escritor irá organizar milhares de pensamentos, traçar centenas de anotações e pesquisar milhares de informações.

E na hora em que finalmente os dedos se mostram prontos para dedilhar o teclado nessa construção insana, cada um tem seu próprio ritual — estranhos, esquisitos, surpreendentes e até mesmo inacreditáveis…

Mas o ato de se sentar para escrever, não significa que o autor alcançou seu objetivo maior. Geralmente, o primeiro escrito, é apenas uma promessa-que-não-se-cumpre. Alguns autores preferem abandonar o texto primeiro… optando por voltar a ele num tempo futuro, quando a maturidade de seus pensamentos, talvez, venha lhe permitir outro olhar.

Que uma história precisa ter começo, meio e fim, todos nós estamos cansados de saber, mas a estrutura literária vai muito além disso… é preciso pontuar os objetivos, determinar as pausas e arquitetar cuidadosamente esse roteiro onde absolutamente nada escape.

Eu tenho alguma preferência — confesso — por histórias divididas em capítulos… justamente por facilitar as interrupções da leitura em determinado momento. Como leio em coletivos, ao descer em determinado ponto, posso caminhar por todo o universo para o qual fui tragada. Alguns de meus livros favoritos, contudo, não dispunham desse artifício, e eu sempre me perguntei: “por que razão o infeliz do autor não dividiu a trama em capítulos?”

Mal sabia eu o quão difícil é organizar uma história em pequenas divisões precisas, desenvolvendo argumentos que sirvam como fios condutores para o leitor, sem que esse se sinta diante de uma rua sem saída. Cada capítulo, deve ser para o leitor, uma espécie de cruzamento, de onde se pode observar os caminhos sem saber para qual direção ir… mas avistar na figura de um transeunte qualquer, alguém a quem pedir orientações e ao indagá-lo, a única resposta possível para a pergunta feita pelo leitor — sabe onde fica a rua desse capítulo? — deve ser inevitavelmente: no capítulo seguinte.

O fim de um capítulo tem essa responsabilidade, afinal, se trata do caminho que conduzirá o leitor ao que ele tanto deseja: o final… da trama! Mas antes de chegar a esse ponto, ele tem que ser, cuidadosamente, conduzido… É mais ou menos como em um jogo de xadrez, antes de derrubar o rei, dizemos Xeque e todo o resto — sabemos — se orienta naturalmente…

* esse texto é parte integrante da Revista Plural Solombra, publicada pela Scenarium em formato artesanal e também digital…

Esta é a hora das minhas confidências,

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A você, meu menino…

 

…amanheceu junho por aqui, com todo o cuidado possível. Dia cinza, suavemente esbranquiçado, com vento agradavelmente frio a percorrer os hemisférios de nós dois.

Por entre as nuvens — lá no alto, distante — o sol insiste em aparecer, mas o dia não parece se interessar pelos raios do astro rei… que não demonstra força  nesse momento, para se fazer prevalecer. Coisas do outono/inverno… essa estação da minha alma!

Reparou que nós dois nascemos no outono? Cada qual ao seu tempo e lugar… você em junho e eu em novembro! Você cá… e eu lá! Com um oceano inteiro entre nós dois…

Quando cheguei a São Paulo na primeira vez e provou do hálito insuportavelmente quente da cidade, acusei o desespero e passei, a escrever a frase: “hoje eu só queria fechar os meus olhos e despertar dentro das manhãs de junho” em todos os cadernos e também na pele e na alma, feito tatuagem que não se apaga. 

Era uma espécie de desejo que eu acalentava dentro, como se fosse um presságio… a vida me avisando que você era o meu destino… o meu norte! Um eco, se pronunciando a partir de minhas entranhas… 

Eu  me lembro da nossa primeira vez… você desceu a ladeira, vindo em minha direção… e, enquanto caminhava, vindo ao meu encontro, com as mãos imediatamente dentro dos bolsos da calça jeans, os passos lentos, o olhar cabisbaixo e nos lábios um sorriso miúdo, quase inexistente… eu viajava — estranhamente — em minhas próprias lembranças, em busca de sua figura.

Eu o sabia muito antes daquele encontro, mas não havia memória bastante para sustentar a certeza, que eu acalentava em minha epiderme. Procurei por você… em ruas intrépidas, calçadas irregulares, esquinas várias… revisitei em poucos segundos, todos os lugares onde estive! Eu o sabia… muito antes de vê-lo mergulhar no fundo de minha pele, com seu abraço imenso… mas você não estava em lugar algum de minha matéria.

Eu insisti… revirei todas as minhas coisas. Fiz do avesso o verso… e nada! Confessei à você… em voz alta — eu te conheço de algum lugar”… foi exatamente quando vi o seu sorriso dobrar de tamanho. Seu olhar vigiar cada traço do meu rosto e ir fundo no castanho dos meus olhos. — “de onde seria?” — você quis saber, porque existíamos dentro da mesma certeza.

Ficamos em suspenso… a calcular nossos passos, movimentos, lugares, paisagens!
Eu recordei, as muitas vezes, em que estando sozinha, sentia uma sombra passar por mim, com seu perfume suave de vento e seu movimento de nuvem. A pele rasgava-se em arrepios contínuos. O coração acelerava e o ar percorria caminhos outros… eu sentia saudades, mas nunca soube de quem!

Eu  confesso: nunca acreditei em destino… mas depois de tropeçar em tua imagem — estranha e conhecida — guardar todos os teus traços em minha alma para sabê-lo mais tarde. Pensar em você durante dias inteiros, no silêncio de minhas frases, na solitudine de meus passos, no barulho das multidões, nos cantos onde eu me escondia e nos degraus onde me sentava… reconheci que existe esse lugar, onde tudo é fim e começo ao mesmo tempo… esse lugar que nos espera, como se tivéssemos partido dali, para correr o mundo, cientes que um dia retornaríamos…

Talvez o mito grego faça sentido… somos duas partes de um mesmo ser, fatiados por um Deus e (re)unidos por outro…

Hoje, a sua matéria alcança os setenta anos e eu só consigo pensar que cheguei faz pouco tempo… não me ocupo dessas somas, nem mesmo gosto de matemática. Gosto apenas de olhar para você e reconhecê-lo enquanto mar onde eu navego. O abraço no qual me deixo ficar, um pouco mais a cada novo dia. Eu não me lembro  quando o amei pela primeira vez… talvez tenha sido quando nos sentamos para festejar seu aniversário na padaria da Bela Vista, com uma fatia de bolo e uma vela que terminou por queimar os seus dedos. Ou não! Talvez tenha sido quando caminhamos de braços dados pela Liberdade, a caminho do Sesc Carmo para um almoço não planejado… sendo eu a menina a tagarelar premissas e você a recusar promessas. Você tinha um olhar triste naqueles dias e o mesmo se passava comigo. Mas quando nos encontrávamos, o mundo não se atrevia a conjugar distrações. Estávamos aprendendo, só não sabíamos ainda, a ser apenas nós dois…

Não sei como aconteceu para você, mas eu… quando dei por mim, já o amava, mas não esse amor de corpo, pele… de estar um no outro. O amor que se apoia em gestos, lembranças e certezas… que aproxima e distancia, que se satisfaz com o pouco que, também é muito — tudo.

Gosto imenso quando seu olhar encontra o meu e quando seus dedos reinventam meus traços… gosto quando você abre os braços para eu me encaixar e adoro quando seu sorriso reflete em mim, pouco antes de sentir seus lábios junto aos meus. Fecho meus olhos, como a primeira vez e sei quem sou, mas nunca onde estou…

Amanheceu junho, amore mio… e nós dois amanhecemos juntos!
E cá estou eu, amando-te com o sabor imutável da primeira vez.

 

Bacio en tuo (mio) cuore

Eu faço amor na cozinha…

 

bruschettas da lunna

 

Preciso fazer uma confissão: eu faço amor na cozinha… começa com um olhar, que narra uma dúvida, que gera um mordiscar de lábios! Ele se aconchega junto a mim, beija meus lábios com fome… e eu digo em seus ouvidos, em meio a um sorriso arteiro: “bruschettas”…

É quase uma pergunta, que ele responde, como se já sentisse o gosto entre os lábios.
Ele fatia o pão. Eu pico os tomates em cubos pequenos… ele passa manteiga no pão. Eu corto a cebola. Ele pica o queijo, enquanto come um pedaço ou outro e, me serve na boca. Mastigamos ao mesmo tempo… as nossas euforias insanas.

Eu pego as taças… ele o vinho.
Brindamos a nós dois, e entre um gole e outro, seleciono as ervas: salsa, orégano…
Ele prepara a fôrma… eu o forno!

Sentamos à mesa e, enquanto esperamos, entrelaçamos as nossas lembranças com sorrisos, olhares enviesados e saudades de coisas recentes. Rabiscamos ilusões em diálogos entrecortados por sorrisos espaçados. Brincamos com o cão, que busca por afago e um pedaço de pão para si… bebemos vinho. Contamos coisas anteriores a nós dois. Rasgamos premissas e alguns minutos depois, saboreamos bruschettas…

Eu escolho a trilha sonora… ele lava, eu guardo… ele canta e eu dou risada. O cão nos espia com seu "sorriso canino"… saímos para ruas de mãos dadas, vez ou outra trocamos de lado, o cão vem para o meu cuidado. Ele é menino antigo, só anda do lado de fora da calçada.

Voltamos a casa… a tarde acabou.
É noite e precisamos pensar o jantar… olhares, sorrisos, beijos, toques…

Somos duros um com o outro

 

obdulioCrédito da imagem. Obdulio Nuñes Ortega

 

Gosto — confesso — como as coisas acontecem em minha vida, sem pressa… apenas movimento natural das coisas e suas causas.

A caminho do trabalho, vejo a vida acontecendo nos espaços urbanos que frequento. Os cães e seus humanos, em passeios matinais por esquinas, a despertar do sono que, visita certos bairros paulistanos. O Sol de outono — que não arde e muito menos queima — acaricia a pele e também a alma… e ultimamente, me faz pensar no olhar de O., esse "amigo" recém-chegado à minha atmosfera, com suas frases inteiras e pensamentos completos. Ele me faz sentir comum, pois olha e vê… diferentes de muitos humanos nos quais tropeço diariamente, causando cansaço e fadiga.

Voltei a ler Plath na noite de ontem… ela fala em sua solidão, em poesia e escreve missivas tecendo a própria vida, essa teia de aranha, da qual escapou precocemente. Foi escolha dela — eu sei…

Alguns de nós, contudo, a acusam de covardia… porque é fácil dizer o outro, quando não vestimos as mesmas roupas. Na nossa pele é sempre coisa outra! — não corta, não arde, não dilacera, não sangra…