Quando escreve, descalça-se

…”eu gosto da sombra. porque a sombra permite
um segundo corpo onde possa ser tocado.
um desnível de realidade por vezes absurda
onde nem sempre nos conseguimos entender”…

Fernando Dinis

 

catarina voltou a escrever

 

Essa sou eu: gosto de começar as coisas pelo fim… o último dia, a última hora… eu sou — desde sempre — aquela que lê o último capítulo do livro primeiro. E assiste a filmes antigos porque já sabe o final e sendo assim… é uma espécie de caminhar seguro e bastante agradável.

A verdade é que eu tenho fases… e preciso mudar as coisas, os móveis de lugar, às vezes, até eu mesma me movo de um canto para o outro apenas pelo prazer de se sentir em movimento. Gosto de tirar o pó das prateleiras em dia de chuva — num sábado de preferência — e reorganizar os meus livros. No final do dia estou a ler páginas conhecidas, que me acompanham ano após ano. Tenho vários livros que não saem de mim e eu também não saio deles.

Mas não posso negar: eu mudei nos últimos anos… já não gosto mais de porta-retratos porque me dói ver certas fotografias, mas não recuso as lembranças daqueles que passaram por mim. Esvazie minhas gavetas — algo que eu julgava impossível — e libertei um bom punhado de escritos que perderam o sentido. Voltei a escrever diários e consegui levá-los até a última linha… sem abandoná-los, rasgá-los ou queimá-los!

Antes de me sentar aqui e voltar a escrever, eu fui a "menina no sótão"… escrevia ensaios, missivas, tentativas de diálogos com o meu homem, o meu gigante, o meu herói… era com ele que ela conversava em seus escritos matinais! Durante sete anos fomos a face de uma mesma moeda, mas como eu cumpro ciclos-fases-viro-a-página… num dia qualquer, nos perdemos uma da outra. Não houve despedida, acenos… nada disso! Apenas silêncio-quietude… foi como um livro que se empresta a alguém e nunca mais volta para casa…

Catarina surgiu dentro de um sábado… em julho de 2013! Eu vasculhava um velho baú de madeira — feito pelo meu menino — quando encontrei um envelope vermelho-sangue. Lá dentro a missiva destinada a mim… por essa figura que passou pela minha vida, feito a tempestade, que era. Com ela descobri Lacan, Mia Couto… e entendi — como nunca antes — a linha tênue que existe entre o real e o imaginário.

Com Catarina eu abandonei os rascunhos, os ensaios… foi como passar da infância à fase adulta… e a soma continua! 

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