…a pessoa que não somos!

café

“e eu sensível apenas ao papel e à esferográfica:
à mão que me administra a alma”

— Herberto Helder —

 

…esbarrei em tua figura no meio do passo — dentro da tarde quente. Quase me escapa do olhar… distraída que estava — como sempre — alheia ao mundo, a vida, as coisas todas… com meu passo errático — feito marcha que não sai do lugar — desviando dos humanos que insistem na contramão, apenas para dizer que a errada sou eu…

Como de costume, estava atenta — apenas — a todas essas coisas que trago dentro: personagens-tramas-enredos-canções-notas-para-daqui-a-pouco e o desejo de ter em mãos um copo branco — grande — de latte… que é esse meu placebo para dias de escritos envenenados.

…você seguia a passos largos — com pressa — desviando do que considerava desnecessário. Vez ou outra buscava por si mesma nas anatomias dos prédios — com o olhar enviesado para o alto — enquanto suas mãos preservavam a conhecida agitação de sempre: desenhando aspas no ar e fazendo somas improváveis.

Foi engraçado observá-la dentro da pequena distância… voltei no tempo! Recordei nós duas… dentro de uma tarde de outubro que já se perdeu tanto quanto o cenário que você, ao tomar para si… acabou tirando-o de mim. Voltei a ocupar a velha mesa no canto — do lado de dentro — com livros e folhas espalhadas. Antevi o gole de café, sentindo escorrer para dentro… numa espécie de afago entregue ao meu imaginário…

E você lá em sua mesa — do lado de fora — junto a árvore de minha infância, a embalar seu par de horas confusas… voltamos a ser o que éramos: duas estranhas. E agora me ocorre: e quando foi que fomos algo diferente disso?

Diário das minhas insanidades, 15

O real veste nova realidade, a linguagem encontra seu motivo até mesmo nos lances de silêncio. A explicação rompe das nuvens, das águas, das mais vagas circunstâncias: Não sou eu, sou o Outro que em mim procurava seu destino. Em outro alguém estou nascendo. A minha festa, o meu nascer poreja a cada instante em cada gesto meu que se reduz  a ser retrato, espelho, semelhança de gesto alheio aberto em rosa.

Carlos Drummond de Andrade

 

marionetes

...enquanto caminhava pelas calçadas da Paulista, vigiava atentamente os olhares que esbarravam nos meus. Figuras estranhas, desconhecidas… um sem-fim de possibilidades. Personagens de uma vida — supostamente — real. Marionetes num teatro particular… que não  dão pelos fios que articulam seus movimentos.

E ao vigiar cada humano que se precipitava aos meus olhos… um pensamento repentino escapou — o que é que acontece para que, dentre tantos estranhos, um único ser salte aos olhos, de tal maneira, que me invada-preencha-e-ocupe-totalmente?

Tentei articular uma resposta a cada passo… e sem sucesso, me vi obrigada a recordar as muitas vezes em que alguém saltou da realidade diretamente para dentro de minha matéria — obrigando-me a represar o passo, buscar por ar… e acalmar o mio cuore — acelerado.

A ciência já inventou respostas práticas que envolve uma insana combinação de elementos químicos da tabela periódica. Para os cientistas nós somos a própria tabela… uma mistura exótica de sessenta diferentes elementos. E suas finalidades não são exatamente conhecidas. Tudo isso em ebulição… a qualquer momento gera: atração ou repulsa.

A poesia, no entanto, nos acena com respostas muito mais interessante ‘nascer: findou o sono das entranhas. Surge o concreto, a dor de formas repartidas. Tão doce era viver sem alma, no regaço do cofre maternal, sombrio e cálido. Agora, na revelação frontal do dia, a consciência do limite, o nervo exposto dos problemas‘… foi o que escreveu Drummond e é com o poema dele ‘nos olhos’ da alma que eu caminho, atravesso ruas… ultrapasso espaços inteiros, percorro  jardins, espio a antiga fachada da casa Haroldo de Campos, ultrapasso uma porta de vidro. Aceno ao segurança… aguardo pelo elevador — enquanto o pensamento articula-se dentro da vida-história que trago em mim.

Quantos personagens perdidos por um simples gesto intempestivo. Odeio quando as pessoas se aproximam de mim. Raramente alguém se conforma com o que o meu imaginário constrói. Sempre que se aproximam, são apenas humanos forjados em moldes próprios — irregulares e impossíveis de serem ‘usados’.

Pontualmente as sete horas… me sentei na poltrona preta de couro, e depois dos tradicionais cumprimentos fiquei — por alguns segundos — em silêncio… a observar W., e a recordar nosso primeiro contato. Sou uma pessoa de primeiras impressões — como os cães — ou gosto ou não gosto. Ou me interesso e me importo ou o contrário disso.

Sorri… ao me lembrar da minha primeira vez aqui. Disse a ela… que já tinha acertado as minhas contas com a realidade — galopante. Quem precisava de ajuda era a escritora que vivia-vive em mim — “estou aqui por que me faltam certezas quanto às escolhas feitas nos últimos tempos”. Ela espiou os meus flancos… sorriu mansamente e tomou nota em seu velho caderno, devidamente acomodado na perna esquerda. Eu tomei emprestado em meus lábios o sorriso…e soube que voltaria na semana seguinte. Desde então somos personagens nessa realidade de nós duas.