É setembro no calendário da parede lá de casa…

 

Caríssima T.

 

…é setembro em São Paulo!
Com certeza é setembro em diversos lugares do mundo, mas aqui dentro de mim… nesse avesso que sou: segue sendo agosto ou julho… não sei!

Mas eu sei, com alguma certeza, que não consigo virar a página desse calendário… já tentei várias vezes, mas alguma coisa me mantem presa a esse ontem que insiste em não amanhecer.

Estou em suspenso!
Já fui e voltei de diversos lugares… me afundei em abraços, olhares, mas parti da mesma maneira que cheguei.

Sinto-me agora… como se estivesse a soprar achas velhas — sem conseguir, contudo, fazer com que o fogo permaneça aceso. Imagino, no entanto, a madeira vermelha — a arder, como tanto gosto… e o sorriso cresce em meus lábios. Por um instante me esqueço de tudo, me afundo em versos de Eliot e goles pesados de chá… me encolho-acolho em mim mesma enquanto o corpo escorre pela parede branca da sala… mas a realidade não desiste de mim — volta…

Respiro fundo — me perco!
…me deparo com esse maldito carvão sem efeito, para o qual olho enquanto repito esse mantra: é setembro!

 A bientot

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Lua de Papel | “A cidade é um chão de palavras pisadas”  

Primeiro capítulo…

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Na primeira página ela anotou o ANO em letras grandes, como tinha se acostumado a fazer ao longo dos últimos anos. Era o seu oitavo caderno… sempre de capa preta, com folhas brancas e linhas retas…

Ela ainda se lembrava do primeiro: um velho caderno de anotações, com algumas folhas arrancadas, outras dobradas… a maioria, no entanto, estava preenchida com as medidas de cada mulher da cidade de Teodoro.

Alexandra gostava de pensar que tinha sido um presente de sua mãe, mas era apenas um refugo. Meia dúzia de páginas vazias, que poderiam ser facilmente descartadas, pois não fariam falta alguma à Maria costureira.

A menina Alexandra não se coube em si depois disso… a mãe não tinha por hábito lhe dar presentes. O dinheiro era sempre pouco, sendo necessário, às vezes, fazer certos malabarismos, como deixar de pagar uma conta, para poder comprar a mistura.

Com o velho caderno em mãos, a menina do interior — a bordo de seus nove anos — começou o que seria o ritual de uma vida inteira: sentou-se em sua cama, com as costas contra a parede, os pés enfiados em um par de meias brancas e os dedos em movimentos ali dentro…

Respirou fundo, como se fosse possível escolher a melhor porção de ar e, por alguns segundos, permaneceu imóvel, com os olhos bem fechados.

Sentiu o silêncio imperfeito tomar posse de seu velho quarto escuro e a pele inundar-se de uma sentimentalidade arredia-afoita-insana…

E, no lugar das lágrimas, aconteceram as primeiras palavras… escritas como se fossem um diálogo solitário. Uma confissão, na primeira pessoa do singular…

Com o passar do tempo… ela aprendeu a revisitar seus cenários mais comuns dentro do silêncio — antes de iniciar sua escrita —, tornando-os apenas seus, numa espécie de apropriação indevida. Era tão fácil para ela velar a cidade com um suspiro próprio… conhecia tão bem aquele lugar, que mesmo com os olhos e a janela fechados, seguia revisitando-os, como se os pés pisassem suas ruas em pares.

Ela tinha suas desordens pessoais… uma espécie de mapa particular, que começava sempre na estrada de terra entre plantações que levava à represa. Já tinha percorrido aquele pedaço de chão, com suas imensas árvores se encontrando no alto — como num abraço —centenas de vezes!

…era sua rota de fuga daquele lugar!
Seus planos todos passavam por ali…

Depois… invadia o prédio da escola… porque sua vida aconteceu entre os corredores-salas-cadeiras-e-lousas daquele lugar, que se tornava silencioso quando  o sinal gritava mais alto que os alunos que, em fila dupla,  marchavam para as seis salas de aulas do prédio de dois andares…

Seu lugar favorito era a biblioteca, com suas mesas redondas sempre vazias e o cheiro de que tanto gostava, de madeira-papel-e-tinta devidamente misturados.

Era seu segundo refúgio na cidade… gostava de se sentar entre as prateleiras e devorar seus livros favoritos, sem ser incomodada por ninguém… “orgulho e preconceito”, de Jane Austen, “noite e dia”, de Virginia Woolf e “malditos paulistas”, de Marcos Rey…

E, por fim, a memória lhe acenava como os contornos da represa — uma espécie de casa-refúgio — onde passava suas horas inteiras… as mais felizes.

Alexandra sabia os cenários mínimos de Teodoro de cor: o banco da praça em frente à Igreja, o coreto… e a velha avenida — uma espécie de linha reta — com suas casas em pares, devidamente enfileiradas, um velho armazém de grãos, uma beneficiaria e a padaria. Era aquele traço mal feito que sempre a conduzia de volta para casa.

Perder-se em Teodoro era totalmente impossível e esse era seu maior lamento… todas as direções perseguidas ao longo de uma vida inteira lhe devolviam… sempre ao mesmo lugar.