Detalhes de uma escrita ficcional

“Não tenho certeza de nada,
a não ser da santidade dos afetos do coração e
da verdade da imaginação…”

— John Keats —

Detalhes de uma escrita ficcional


Outro dia alguém me perguntou como surgem os meus textos…
as minhas idéias, numa espécie de investigação particular, obviamente motivada pela curiosidade natural, que abraça as pessoas quando sabem, que o objeto a frente delas, vive numa espécie de realidade alternativa…

Eu sempre entrego uma resposta imediata — sem muito pensar até porque nunca me ocorreu investigar a mim mesma para responder algo que, sempre pareceu ser uma espécie de reflexo natural, quase involuntário: "acontece, como um estalo, quando dou por mim já está lá e pronto"…

Mas hoje, resolvi olhar para dentro, tentando encontrar uma resposta para essa pergunta que se repete em minha direção de tempos em tempos…

Tirei alguns minutos do meu dia para pensar nisso… joguei meu corpo na cama e, enfrentei o teto branco… como tanto gosto de fazer quando quero pensar em alguma coisa. Estranhamente, lembrei-me de um garoto, que passou por minha vida, nos meus dias de menina…

Éramos vizinhos e, ao longo de um ano inteiro, convivemos: de casa para a escola, em sala de aula e na volta pra casa… essa era a nossa realidade. Não me lembro como se deu o primeiro contato. Quando penso nos primeiros dias de aula: ele já está lá… a ocupar a cadeira ao meu lado, com seu sorriso imenso, engraçado e agradável e, seus olhos grandes e festivos. Ele está lá a me olhar e a dizer: "você é a menina mais legal do mundo". Algo bastante estranho para alguém como eu…

Pois bem, nós dois íamos de mãos dadas para a escola… fazíamos todas as atividades juntas: em sala de aula e também nos intervalos e, por causa disso, passamos a ser alvo das outras crianças que cantavam a nossa volta "estão namorando" numa repetição que beirou o insuportável nas primeiras vezes, mas que depois passou a ser como aqueles refrãos chatos e enfadonhos de músicas bobas…

A. se mudou no final do ano para outra cidade e, a mãe dele o levou até a casa para nos despedirmos. Entre abraços tristonhos, ele prometeu escrever todos os dias. Eu não prometi absolutamente nada, apenas disse “addio” — palavra que eu nunca mais voltaria a usar com ninguém…

Aquela foi a minha primeira despedida… a cada passo, ele olhava para trás e acenava e, eu fiquei no portão de casa enquanto podia enxergá-lo, a acenar de volta… obviamente, ele nunca me escreveu uma única linha…

…anos mais tarde, estava no primeiro ano de faculdade em Coimbra, quando vi um garoto passar por mim. Ele tinha o mesmo sorriso e exatamente o mesmo olhar. Pensei imediatamente: “é impossível, eu sei"… e segui meu caminho sem dar muita importância para aquele “encontro”…

Dias depois… o vi novamente. Dessa vez ouvi seu nome ser pronunciado em voz alta. Coincidência ou não — era o mesmo nome do menino da minha rua — e, com alguns anos de atraso, me sentei numa daquelas mesas do Campus e escrevi uma missiva…

Fazia tempos que eu não escrevia uma única linha que não tivesse relação com psicologia, assuntos teóricos, ou seja, estudos ou pesquisas. Mas naquela tarde eu escrevi linhas inteiras… não para aquele estranho que passou por mim sem dar por minha existência e, sim para o menino que adocicou meu primeiro ano escolar… tornando-o suportável!

Entreguei a ele — o estranho — a folha de caderno no dia seguinte… ele me olhou com algum espanto. Fiz questão e reparar atentamente em cada uma de suas reações. Ele parecia saber quem eu era, quase me reconhecendo… mas eu não fiquei tempo suficiente junto a ele.

Nos falamos no final daquele mesmo dia, numa dessas ironias do destino… na pele daquele estranho, de quem eu nada sabia, vivia o “menino da minha rua”. Ele me contou suas aventuras, seus passos e da faculdade de Direito. Falou suas perdas, suas conquistas, mas não deixou de ser o que era: um estranho…

Eu sou esse baú, que de tão cheio já não é possível fechar e, vez ou outra, uma lembrança salta de lá de dentro… por isso escrevo. A. é uma lembrança que transborda em meu íntimo. O garoto que segurava a minha mão e dizia em meus ouvidos aquelas coisas de criança: ingênuas e agradáveis. Coisas leves que a gente guarda para momentos de necessidade, como esse… em que o luto é minha melhor metáfora.

Em suma, é assim que tudo começa em mim… com a minha melhor lembrança, sendo a "melhor menina do mundo pra alguém"… eu me lembro de minhas paixões, não uma apenas, mas várias delas — porque não existe nada melhor que se apaixonar a cada esquina da vida — e, a partir dessas histórias minhas, que eu coleciono diariamente, vou inventando outras, até chegar na rara ousadia de esboçar uma ficção.

As idéias surgem em mim, como uma celebração a todas às vezes, em que me apaixonei… o que sou hoje, enquanto ficcionista, é por conta de todas essas histórias que embalo em meu íntimo — misturando-as em meu imaginário, onde ardem, mantendo essa “chama criativa” sempre acesa, porque escrever pra mim, é sem dúvida alguma: confessar-me apaixonada…

— texto originalmente publicado no blogue Retratos da Alma, parte integrante da Coluna Simples Assim…

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