12. Encontros & desencontros

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Caríssima A.,

Sentei-me aqui, nesse fim de tarde, nessa mesa de café… a esquerda de minhas ousadias para concluir algumas linhas. Queria escrever-te… há dias que esse desejo habita minha pele, mas aprendi — faz algum tempo — que é preciso respeitar o momento e esperar por ele sem ânsia. Embora nem sempre seja fácil.

Mas quando comecei a pensar em você — vislumbrando nossos encontros — desde o primeiro… o belo ragazzo que atende esta mesa, trouxe minha xícara de café, com cioccolata e crema… e, biscoitos de gengibre… e eu me dispersei completamente.

Respirei fundo e para dentro foi também o aroma do café… esse articulador de memórias. Eu nunca soube ao certo se gosto de fato da bebida ou do aroma. Eu sou — desde sempre — uma pessoa sensorial… os cheiros animam o meu paladar. Dependo dele para degustar qualquer cominação insólita de ingredientes. E quando busco na memória uma espécie de resposta… me deparo com novos questionamentos que não me orientam — pelo contrário.

Eu gosto de ter os grãos em minhas mãos para macerá-los e depois “saborear” o aroma até cessá-lo… é um hábito que aprendi com o Nono — na infância. Foi com ele, que aprendi a sorver o líquido negro… junto a mesa — numa espécie de ritual.

Começava sempre pela pausa para observar o líquido quente ser derramado na xícara… ele  dizia que a melhor maneira era fechar os olhos para a vida, a realidade e também para os sonhos. Ser apenas matéria diante da essência: o café. Estabelecer contato com o aroma… a xícara entre as mãos… para que o calor se espalhe e estabeleça essa união sagrada. Respirar fundo… como se fizéssemos uma prece  e pronto. Levar para dentro o café — num pequeno gole, porque os excessos são imperdoáveis! E perceber finalmente o gosto, o tato, a substância… a vida e suas ilusões existir. Quando o café é forte-ristreto… o sabor se diluí rapidamente porque nos faz salivar… uma das expressões mais adoráveis porque apenas os melhores sabores são capazes de provocar tal sensação.

E enquanto repetia esse velho e delicioso ritual, que sempre fez a menina que vive em mim… sorrir! Me lembrei de seu livro e pensei que seria lúdico — uma coisa para a alma — sentar-me aqui: com linhas, agulhas e as folhas ainda soltas em mãos… me faz companhia?

Bacio

L.

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Aconteceu Novembro…

Em face de outros mil disfarces
que o tempo reassume a cada passo,
pode pensar-se em todas essas mãos
que emergem como sombras embaçadas
em milhares de quartos mobiliados.

T.S.Eliot — pág. 79

…aconteceu novembro — dentro da pele, onde tudo se precipita primeiro. E, lá fora, nesse depois habitué… junto as calçadas, as ruas e seus passos desorientados.

Fechei os olhos e ouvi o som da chuva junto ao asfalto… novembro é o mês das chuvas e dos aromas  múltiplos: da xícara de chá sobre a mesa, em estado de espera. Da realidade úmida, em gotas na vidraça. Das ilusões que transmutam para o papel através do toque do grafite na folha. Dos ingredientes misturados para a refeição noturna, dentro do aconchego de nós dois… mas já foi diferente disso.

Houve um tempo em que novembro era o tempo dos novelos de lã… usados para confeccionar as luvas para o inverno. Como éramos crianças em fase de crescimento, as do ano anterior dificilmente nos servia no ano seguinte. Logo, era preciso muitos novelos de lã… com aquele cheiro e tato peculiares… que ainda sinto e toco ao fechar dos olhos.

As signoras da minha famiglia se divertiam confeccionando luvas coloridas… as minhas eram vermelhas…

Nos sentávamos na sala de leitura, junto a lareira e enquanto as signoras brincavam com agulhas e linhas… nos entretinha com as histórias de suas infâncias. Tenho para mim que elas voltavam a ser as meninas de antes e nos levava junto nessa viagem de tempo-e-espaço, enquanto aguentávamos. O sono tem um estranho efeito sobre a infância. Não damos conta de sua chegada, ele apenas aterrissa e finda o dia, sem direito a reticências…

Novembro é o mês que me viu despertar para essa realidade… e lá se vão trinta e poucos anos: parece que foi um sopro essa minha vida inteira… e vai ver foi mesmo! Daqui a pouco será hora de dizer novamente a mim mesma: “feliz ano novo”.

Mas enquanto isso, vou sair para as ruas com o meu guarda-chuva vermelho… um presente do meu menino, que sabe o sabor da cores…