Aconteceu Novembro…

Em face de outros mil disfarces
que o tempo reassume a cada passo,
pode pensar-se em todas essas mãos
que emergem como sombras embaçadas
em milhares de quartos mobiliados.

T.S.Eliot — pág. 79

…aconteceu novembro — dentro da pele, onde tudo se precipita primeiro. E, lá fora, nesse depois habitué… junto as calçadas, as ruas e seus passos desorientados.

Fechei os olhos e ouvi o som da chuva junto ao asfalto… novembro é o mês das chuvas e dos aromas  múltiplos: da xícara de chá sobre a mesa, em estado de espera. Da realidade úmida, em gotas na vidraça. Das ilusões que transmutam para o papel através do toque do grafite na folha. Dos ingredientes misturados para a refeição noturna, dentro do aconchego de nós dois… mas já foi diferente disso.

Houve um tempo em que novembro era o tempo dos novelos de lã… usados para confeccionar as luvas para o inverno. Como éramos crianças em fase de crescimento, as do ano anterior dificilmente nos servia no ano seguinte. Logo, era preciso muitos novelos de lã… com aquele cheiro e tato peculiares… que ainda sinto e toco ao fechar dos olhos.

As signoras da minha famiglia se divertiam confeccionando luvas coloridas… as minhas eram vermelhas…

Nos sentávamos na sala de leitura, junto a lareira e enquanto as signoras brincavam com agulhas e linhas… nos entretinha com as histórias de suas infâncias. Tenho para mim que elas voltavam a ser as meninas de antes e nos levava junto nessa viagem de tempo-e-espaço, enquanto aguentávamos. O sono tem um estranho efeito sobre a infância. Não damos conta de sua chegada, ele apenas aterrissa e finda o dia, sem direito a reticências…

Novembro é o mês que me viu despertar para essa realidade… e lá se vão trinta e poucos anos: parece que foi um sopro essa minha vida inteira… e vai ver foi mesmo! Daqui a pouco será hora de dizer novamente a mim mesma: “feliz ano novo”.

Mas enquanto isso, vou sair para as ruas com o meu guarda-chuva vermelho… um presente do meu menino, que sabe o sabor da cores…

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19 comentários sobre “Aconteceu Novembro…

    • Lunna Guedes disse:

      Buongiorno carissima… eu já tentei fazer tricot e crochê algumas vezes, mas não consegui dar forma ao que “criava”…
      Mas não desisti, tenho a ilusão de que um dia ainda consigo tecer minhas próprias luvas sem dedos…

      Feliz novembro para você.
      Bacio

  1. Maria Claudia disse:

    Eu percebi novembro chegando, mesmo porque lembrei-me de alguém que havia me dito que iria escrever todos os dias de novembro…rs.

    Viajei para minha casa onde passei boa parte da minha infância, quando eu e meus quatro irmãos ficávamos sentados nos degraus da escada que ficava em frente a nossa casa, cada qual no seu degrau, esperando o nosso pai chegar do trabalho, para vermos no rosto dele aquele sorriso lindo que ele tinha, como também sempre tinha em mãos algum pacote que trazia cheio de guloseimas, para nós crianças, que adorávamos…era sempre uma festa e isso acontecia todos os dias.

    Tuas palavras como sempre me levam para um tempo que não esqueço jamais e posso dizer que ainda o vivo no dia de hoje. Meus amigos me dizem a todo momento que é para eu parar de viver do passado…rs…mas como posso fazer isso se principalmente lá… fui tão feliz. Faz-me tão bem reviver tudo isso e aqui com você isso sempre acontece…rs.

    Obrigada mais uma vez caríssima amiga…:) Bjinhos no coração

  2. Lynce disse:

    Olá!
    Parei por acaso por aqui e já li uns três. Vim comentar nesse, porque a visualização é mais rápida rs

    Falar em novembro mexe muito comigo, porque também considero “meu mês’. Por ter nascido nele e sempre acreditar que os ciclos se encerram e iniciam junto a novembro.

    Adorei tudo por aqui!
    Um beijo!

  3. Neiva disse:

    Caríssima Catarina/Lunna, que escrito mais gostoso esse seu, fiquei aqui respirando fundo a cada linha. E olha que li duas vezes. Que ritmo gostoso. Que sensação mais aconchegante, parecia que estávamos as duas a contar histórias uma para outra. Eu fui falando pra você das minhas coisas que eu já não lembrava mais e você as suas, me fazendo reviver as lembranças. Lembrei daqueles dias junto a minha mãe descascando cana no terreiro, sentada numa lata de óleo grande. Ela falando com as vizinhas. Eu ouvindo e vivendo. Eram dias bons, como os seus sentada na escada a esperar.

    beijos menina Lunna

  4. Jull Palmer disse:

    Catarina/Lu…
    Que delícia esse seu novembro.
    Quando venho aqui te ler, sei que terei uma deliciosa aventura sua narrada em brancas linhas. Você escreve tudo de um jeito tão intenso e colorido que me deixa aqui a fazer imensa festa com minha imaginação!!!
    Lindo demais o perceber-sorriso da menina dentro dos seus dias de novembro antigos e recentes!!

    Beijos de quem só pode agradecer por esse privilégio. ♥

  5. Lua Nova disse:

    Conheci uma menina que vive no sótão tecendo as suas ilusões, sonhos, histórias e personagens em linhas de versos certos, tortos e impossíveis e que agora nos diz que voltou a escrever e se auto denominou Catarina. Ainda não sei muito bem porque, mas gosto…

    E enganam-se quem pensa que ela vive só, pois no sótão há um mundo cheio de silêncio, ventos, sonhos e histórias. Há rascunhos espalhados pelas mesas, chão, cadeiras. Há janelas que abrem para o infinito brincando de luas e estrelas… Há ventos de outono, há vontades… vontades que não cabem em si…

    Meu abraço de urso e muitos beijos querida Catarina, menina no sótão…
    Te adoooro!!!

  6. Cah disse:

    Achei teu blog pelo borboletas… e adorei, vc escreve lindamente…
    O seu novembro, você tira lá do fundo da gaveta com todo cuidado e posso ver que tem toque de seda.

    Bem vindo novembro!
    Um beijo

  7. Lis disse:

    Oi Lunna
    … esse é o nosso novembro. Tenho o sentimento de que nele começa e termina o ano. Passam-se as estações uma a uma. Novembro chega fechando ciclos. Ou apenas a triste constatação somam-se outros mais e só..
    Sua infância de certo foi mais bonita que a minha e fez de você essa lindeza que costura palavras com seu novelinho de lã. Do lado de cá muita introspecção as bloqueou, só permanecendo na pupila dos olhos. Uma delícia ler-te. E devanear com seu belo poema,
    fica o abraço carinhoso

  8. :.tossan® disse:

    Essa foto está ótima! Claro, o texto é formidável e se casam como uma luva, não, uma seda que é mais suave! Novembro é o mês do meu aniversário (17), portando me senti no contexto.

    Beijo moça talentosa…
    Muito!

  9. sp1109br disse:

    Novembro me lembra minha mãe, nascida nesse mês. Ela se foi há 43 anos, mas pra mim está sempre presente. E não sei porque, escrevendo aqui, me lembrei dos sequilhos que ela fazia. Inigualáveis. Bacio.

  10. Franz E. disse:

    este novembro é mais outubro aqui. nem é preciso ir ao calendário. as folhas no chão dizem tudo. e tal como as árvores também tu tens que te preparar para o Inverno. dizem que é assim porque sim. acredito. o novembro, esse da nostalgia e da saudade dura todo o ano. acompanha todas as pessoas. não se vê. e quando se sente, é já novembro outra vez.

Pronto para o diálogo? Eu estou (sempre)

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