25. Encontros & desencontros

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Caríssima A.,

Sentei-me aqui, nesse fim de tarde, nessa mesa de café… a esquerda de minhas ousadias para concluir algumas linhas. Queria escrever-te… há dias que esse desejo habita minha pele, mas aprendi — faz algum tempo — que é preciso respeitar o momento e esperar por ele sem ânsia. Embora nem sempre seja fácil.

Mas quando comecei a pensar em você — vislumbrando nossos encontros — desde o primeiro… o belo ragazzo que atende esta mesa, trouxe minha xícara de café, com cioccolata e crema… e, biscoitos de gengibre… e eu me dispersei completamente.

Respirei fundo e para dentro foi também o aroma do café… esse articulador de memórias. Eu nunca soube ao certo se gosto de fato da bebida ou do aroma. Eu sou — desde sempre — uma pessoa sensorial… os cheiros animam o meu paladar. Dependo dele para degustar qualquer cominação insólita de ingredientes. E quando busco na memória uma espécie de resposta… me deparo com novos questionamentos que não me orientam — pelo contrário.

Eu gosto de ter os grãos em minhas mãos para macerá-los e depois “saborear” o aroma até cessá-lo… é um hábito que aprendi com o Nono — na infância. Foi com ele, que aprendi a sorver o líquido negro… junto a mesa — numa espécie de ritual.

Começava sempre pela pausa para observar o líquido quente ser derramado na xícara… ele  dizia que a melhor maneira era fechar os olhos para a vida, a realidade e também para os sonhos. Ser apenas matéria diante da essência: o café. Estabelecer contato com o aroma… a xícara entre as mãos… para que o calor se espalhe e estabeleça essa união sagrada. Respirar fundo… como se fizéssemos uma prece  e pronto. Levar para dentro o café — num pequeno gole, porque os excessos são imperdoáveis! E perceber finalmente o gosto, o tato, a substância… a vida e suas ilusões existir. Quando o café é forte-ristreto… o sabor se diluí rapidamente porque nos faz salivar… uma das expressões mais adoráveis porque apenas os melhores sabores são capazes de provocar tal sensação.

E enquanto repetia esse velho e delicioso ritual, que sempre fez a menina que vive em mim… sorrir! Me lembrei de seu livro e pensei que seria lúdico — uma coisa para a alma — sentar-me aqui: com linhas, agulhas e as folhas ainda soltas em mãos… me faz companhia?

Bacio

L.

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7 comentários sobre “25. Encontros & desencontros

  1. Adriana Aneli disse:

    Querida L.

    Recebo sua carta com o coração mal acostumado. Há algum tempo tenho me perguntado sobre os encontros e desencontros que a vida, caprichosa, tem aprontado. Não sou pessoa de empatias fáceis: não volto ao mesmo cabeleireiro, alterno trajetos a pé, mudo deliberadamente meus horários, academias e, por vezes, subo escadas para evitar elevadores… Nunca por arrogância, juro: sou tímida de carteirinha!
    E se esta carta ganha tom confessional, caríssima, é apenas para que entenda, neste rosto, o sorriso que ela provoca enquanto a leio. Imaginar que, depois de um grande jejum eu voltaria a publicar um livro, com tema que desperta em mim enorme paixão, em páginas costuradas pela artista que ama literatura, mas acima (ou junto e sobre a mesma mesa) ama o café, é incrível; a você também não parece sublime?
    Há um ritual na sua carta e com ele me identifico. A memória da infância também persiste em cada página destas que agora você costura. Então, de certa forma, no passado, presente e futuro sempre estamos a sorver juntas o líquido negro, ao redor da mesa… nesta mesma matéria de sonhos.
    E assim seguindo, confesso: sinto-me confortável na nossa amizade. E vou parar por aqui, pois como dizia seu nono: o excesso seria imperdoável!

    Bacio de latte
    A.

  2. Claudine Bernardes disse:

    Tenho que confessar, também me sinto uma intrusa… mas não importa. Linda carta e maravilhosa resposta, “tan tiernas y cercanas” (as vezes não encontro palavras no meu próprio idioma). Me senti voltar à casa dos meus avós quando pequena espreitava na gavetas descobrindo o segredo que eles guardavam. Obrigada por compartilhar conosco essas cartas. 🙂

  3. Priscila Ttz disse:

    Primeira vez que entro em teu blog, e me deparo com essa carta. Parabéns! Me senti submersa pelo momento e tão expressivo e detalhado. AMei! e já estoute seguindo! espero que possamos compartilhar muitas inspirações!

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