Mais um ano sem fazer uma festa à-Gatsby.

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…amanheceu janeiro dentro dessa segunda-feira! A primeira do tal ano, que é novo, segundo as muitas bocas a conjugar verbos na primeira pessoa do singular.

Dentro da pele, o veneno ainda não fez efeito! A noite prevalece… e as sentimentalidades se misturam, como se fossem ingredientes a venda, em prateleiras de supermercados.

Não há de amanhecer dentro do mio cuore… que ainda soluça o ócio de fim de festa, fim de ano… e seus movimentos dispersos, em círculo, todos na mesma direção…

Chove… lá fora, desde a última noite do mês passado — um dezembro equivocado, que exibiu fogos a espetar os céus, a pele, os ouvidos e também os meus olhos. Não consigo me acostumar a tanto estrondo…

Chove… versos de Walcott, esse senhor que não se rende a mecânica dos versos e escreve um punhado de linhas retas e toras — assimétricas.

Chove… a vida de Rubem, que em vida, contou a si mesmo, em linhas perfeitas. E depois de sua morte — no ano que envelheceu e caducou — virou prosa na voz de Gonçalo Junior. Mas esse tropeçou nas linhas, e se mergulhou na vida do homem, não encontrou água onde nadar…

Chove… as canções de Natal, que ainda se fazem ouvir no ‘café entre esquinas’, como se dezembro não tivesse atravessado a rua e sido atropelado pelos excessos da última ceia.

Chove… e a poesia atravessa o meu caminho com seus trovões…  eu vou de um lado a outro na Paulista, em passos pequenos, livres da pressa tão comum aos outros meses, porque Janeiro não sabe se acena ao futuro ou ao passado! Do presente é certo que nada sabe! Janeiro é esse tempo perdido entre o ir e o vir. É dúvida… um livro que ninguém quer ler… ou ter em suas prateleiras.

Janeiro é esse poema que acena aos meus olhos com a confluência de dois verbos: silenciar e subtrair…

 

AR LIVRE
Blas de Otero

Se há alguma coisa de que gosto, é viver.
Ver o meu corpo nas ruas,
falar contigo como um camarada,
olhar os escaparates
e, sobretudo, sorrir de longe
às árvores…

Também gosto dos camiões cinzentos
e muitíssimo mais dos elefantes.
Beijar os teus seios,
deitar-me no teu regaço e despentear-te,
engolir água do mar como cerveja
amarga, escumante.

Tudo o que seja sair
De casa, espirrar de tarde em tarde,
cuspir contra o céu das tundras
e as medalhas dos semelhantes,
sair
deste espaçoso e triste cárcere,
apressar os rios e os sóis,
sair, para o lar livre sair, para o ar.

Tradução
Miguel Filipe Mochila
{ daqui }

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